CEO da IOB investiu US$ 20 mi em vinícola com amigos na Argentina. Agora mira o Brasil

Jorge Santos Carneiro transformou um projeto entre amigos em Mendoza, na Argentina, em uma vinícola boutique com 50 sócios internacionais que já exporta para 25 países: ‘Decidimos investir juntos para termos uma desculpa para continuar nos encontrando’, disse o executivo à Bloomberg Línea

De planilhas a barricas: CEO do IOB lidera avanço de vinícola de US$ 20 mi na Argentina
Por Daniel Buarque
21 de Março, 2026 | 10:24 AM

Bloomberg Línea — Um encontro fortuito entre executivos de diferentes partes do mundo durante um curso na França deu origem a um negócio internacional de vinho coordenado a partir do Brasil.

A Alpasión nasceu do desejo de manter o grupo de ex-colegas do INSEAD, uma das escolas de negócios mais prestigiadas da Europa, conectado após um curso.

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“Decidimos investir juntos para termos uma desculpa para continuar nos encontrando”, contou Jorge Santos Carneiro, sócio da Alpasión em entrevista à Bloomberg Línea durante um almoço em frente à praia artificial no condomínio Fazenda da Grama, em Itupeva, a cerca de 80km de São Paulo.

O grupo de amigos que começou a idealizar o negócio a partir de conversas informais passou a levar a ideia a sério e a transformou em um projeto iniciado em 2009, na Argentina, que hoje reúne vinícola própria, enólogo renomado, produção orgânica, restaurante, hotelaria e um wine tasting room com vista para os Andes.

Quase duas décadas depois, somam 50 sócios, US$ 20 milhões em investimentos e começam a ter distribuição no Brasil com uma estrutura própria de importação.

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“Começou como um projeto para nos mantermos unidos. Hoje é um negócio estruturado, com foco em qualidade e rentabilidade, mas sem perder o vínculo emocional que nos fez começar”, disse.

Português radicado no Brasil e CEO do grupo de tecnologia e inteligência contábil IOB, Carneiro comanda uma empresa com mais de 1.200 colaboradores e 120 mil clientes corporativos.

Mas em Los Chacayes, no coração do Vale do Uco, ele prefere falar de Malbec, Chardonnay, barricas de carvalho francês e do “vinho das digitais”, como muitos clientes apelidaram os rótulos da sua vinícola boutique, em referência à ilustração nos rótulos.

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A ideia inicial era comprar uma propriedade que já tivesse uvas plantadas. O grupo chegou a buscar opções em Portugal, no Alentejo, mas não encontrou alternativas que se encaixassem no orçamento.

Em seguida, foram para a Argentina, que na época era um mercado emergente no mundo do vinho. Lá, apaixonaram-se por um terreno grande de quase 100 hectares no Vale do Uco, que não tinha nada plantado, mas era um lugar com uma vista para os Andes. O terreno era mais barato e parecia promissor.

O grupo comprou o terreno na região de Los Chacayes, em uma das áreas de maior altitude da região. “Não tinha nada. Mas a vista era inacreditável”, disse Carneiro. Daí vieram a casa, a plantação das primeiras uvas e o início tímido da produção, com uvas compradas de terceiros.

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Hoje, a operação é verticalizada: as uvas são próprias, colhidas em vinhedos orgânicos certificados; a vinícola é equipada com tecnologia de ponta; e o controle de qualidade é total, da videira à taça. A produção chega a 250 mil garrafas por ano, com presença em 25 países.

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Vinho e gestão

Aos poucos, conta o empresário, o projeto se tornou maior do que o imaginado, levando à decisão de convidar amigos para serem sócios da Alpasion.

Atualmente, contam com cerca de 50 sócios, que atuam como embaixadores da marca globalmente. Essa abertura para investidores foi uma forma de financiar o projeto sem recorrer a endividamento.

Apesar de não ser enólogo, Carneiro conduz a Alpasión com a mesma lógica empresarial que o tornou um nome conhecido no setor de tecnologia e contabilidade.

“Eu não sou programador, mas vendo software. Com o vinho é igual. Tenho os melhores profissionais comigo. O mérito é deles. Não faço vinho, faço gestão”, disse.

A perspectiva resume a forma como ele estrutura negócios: montando equipes qualificadas, com metas claras e autonomia para entregar resultados.

O primeiro enólogo da casa foi o argentino Karim Mussi, referência em vinhos de terroir. Atualmente, Ezequiel Lanza dá continuidade ao projeto com foco em vinhos de personalidade, elegância e consistência.

A vinícola começou plantando principalmente Malbec, uva mais representativa da região, mas hoje possui cerca de 65 hectares de vinhedos com uma grande variedade de uvas. Produzem cerca de 250.000 garrafas anualmente, com o objetivo de chegar a 350.000 garrafas. “O foco é na alta qualidade, não no volume”, disse.

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Os vinhos são vendidos diretamente na vinícola, em restaurantes parceiros e lojas especializadas. Fora da Argentina, a Alpasion vende principalmente para o Norte da Europa e Estados Unidos, e está começando a expandir no Brasil, via JC Wines, distribuidora criada por Carneiro exclusivamente para a vinícola.

A operação de importação ainda é inicial, mas a meta é chegar a 100 mil garrafas vendidas no Brasil, o que levaria a vinícola ao patamar de 350 mil garrafas/ano, o teto desejado pelo fundador.

“A ideia é que o brasileiro conheça o vinho aqui, e tenha vontade de visitar a vinícola. Ou que vá até Mendoza, prove, se encante — e depois peça o mesmo vinho aqui, com o mesmo preço e sem o peso da mala.”

De planilhas a barricas: CEO do IOB lidera avanço de vinícola de US$ 20 mi na Argentina

Apesar da estrutura, do investimento acumulado e da estratégia de expansão, Carneiro admite que o vinho ainda representa uma parcela pequena do seu portfólio financeiro.

“É um negócio que precisa dar retorno e ser sustentável, mas é insignificante comparado ao negócio da IOB. Mas é onde mora a paixão.”

O retorno, para ele, virá em outras moedas: a valorização do terreno em uma das regiões mais nobres de Mendoza, o crescimento da marca e a criação de um patrimônio emocional.

“Eu quero deixar algo para os meus filhos e netos. Algo bonito, com alma. Algo que diga: isso aqui foi feito com amigos, com paixão, com visão.”

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Daniel Buarque

Daniel Buarque

Editor-assistente