Bloomberg — O El Niño atinge os maiores produtores de açúcar do mundo, expondo a forte vulnerabilidade da cultura ao fenômeno climático e dando uma prévia das ameaças mais amplas para agricultores e para a inflação global de alimentos.
No início deste ano, o mercado de açúcar enfrentava excesso de oferta, mas o El Niño provoca uma forte reversão, e muitos analistas agora esperam déficit na temporada que começa nesta semana. Os contratos futuros do açúcar bruto subiram mais de 25% desde julho.
Para o açúcar, o El Niño representa um problema específico: intensifica as chuvas nas regiões produtoras do Hemisfério Sul e acentua a seca ao norte da linha do Equador. A concentração da produção no Brasil, Índia e Tailândia — países expostos ao fenômeno climático — faz do açúcar um importante indicador dos danos mais amplos às lavouras, já que a previsão é que o El Niño só atinja o pico por volta do fim deste ano.
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O açúcar é uma das commodities mais claramente sensíveis ao El Niño, segundo Leonardo Alencar, analista de alimentos, bebidas e agronegócio da XP Investimentos, em São Paulo. Quando o El Niño ameaça simultaneamente o desempenho da cana no Centro-Sul do Brasil e o excedente exportável da Ásia, o mercado perde as principais reservas de oferta o que, segundo ele, normalmente leva a um balanço global mais apertado, estoques menores e sustentação dos preços do açúcar.
A commodity ajudou a levar os preços globais dos alimentos ao maior nível em mais de três anos. Isso acrescenta outra preocupação inflacionária para consumidores e formuladores de política monetária que avaliam novos apertos diante do impacto das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia.
O excesso de chuvas desacelera a colheita e a moagem de cana no Brasil, maior produtor mundial. Na Índia, agricultores reclamam de uma monção fraca que reduz a produtividade, e o verão escaldante na Europa resulta na pior safra de beterraba açucareira em mais de uma década.
O Somadas as regiões produtoras de açúcar da Tailândia afetadas pela seca, essas áreas representam mais da metade da produção mundial.
“O El Niño definitivamente está entre nós”, afirmou Eder Vieito, CEO da consultoria Green Pool Commodity Specialists. “As perdas na produção de açúcar têm sido significativas de modo generalizado.”
O açúcar não é a única cultura que sente os efeitos do El Niño. O arroz também é particularmente vulnerável à escassez de chuvas no Sudeste Asiático. As plantações de cacau da África Ocidental são ameaçadas pelo clima mais seco, e café e óleo de palma também estão expostos.
Mas, como sinal antecipado dos impactos do El Niño, o açúcar se destaca.
A ameaça crescente do El Niño representa uma forte reviravolta em relação a pouco mais de sete meses atrás, quando o açúcar atingiu a mínima em cinco anos. Naquele momento, antes da guerra no Irã e do surgimento do fenômeno climático, investidores apostavam que uma grande safra brasileira provavelmente ampliaria ainda mais o excesso de oferta global.
A mudança de perspectiva agora também é particularmente acentuada no Brasil. As chuvas em várias das principais áreas produtoras chegaram a quatro vezes os níveis normais no último mês, segundo Donald Keeney, meteorologista agrícola sênior da Vaisala Xweather.
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Isso interrompeu a colheita e impediu usinas de processar a cana, agravando a restrição da oferta depois que o choque do petróleo provocado pela guerra no Irã desviou mais açúcar para a produção de combustível.
Com a perda de vários dias de moagem, as usinas talvez não consigam prolongar a temporada por tempo suficiente para recuperar o atraso devido às chuvas previstas para dezembro, o que reduziria as exportações em cerca de 2 milhões de toneladas, segundo José Pessoa, do Grupo José Pessoa, empresa familiar que atua no plantio e na moagem de cana-de-açúcar no Centro-Sul e no Nordeste do Brasil.
Em anos de atraso, as usinas costumam prolongar a moagem até dezembro, mas isso não será possível desta vez por causa do El Niño, segundo Pessoa.
Na Índia, em contrapartida, as chuvas ficaram abaixo do normal. O segundo maior produtor mundial acaba de registrar a monção mais fraca desde 2015, o que reduziu a projeção para a produção de açúcar a cerca de 30 milhões de toneladas.
Há sinais de que os estoques acumulados devido ao excesso de oferta começam a diminuir, o que significa que a Índia tem pouca margem para absorver outra safra decepcionante, afirmou Vieito, da Green Pool.
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Os produtores tailandeses também enfrentam dificuldades. As chuvas no nordeste da Tailândia, maior região produtora de cana-de-açúcar do país, ficaram em cerca de dois terços da média de 30 anos, segundo a Vaisala.
Isso provavelmente reduzirá a produção de açúcar em pelo menos 17%, para menos de 10 milhões de toneladas na próxima temporada.
“A situação na minha fazenda de cana-de-açúcar é muito ruim, afetada não apenas pela seca, mas também por doenças da cana”, afirmou Suntorn Nongkhunsarn, agricultor da província de Kalasin.
Mesmo nas regiões produtoras de beterraba do Hemisfério Norte, o El Niño aumenta os riscos. A seca nos EUA atrasou a colheita de beterraba em algumas regiões, o que pode deixar a cultura exposta a condições meteorológicas adversas com a intensificação do El Niño até o fim do ano, segundo Andraia Torsiello, da Expana.
Na Europa, o El Niño provavelmente intensificou uma série de ondas de calor que castigaram as plantações de beterraba açucareira, reduzindo a produção ao menor nível em pelo menos uma década e ajudando os preços a se recuperarem das mínimas de vários anos. A produção na França, maior produtora da Europa, caminha para ser a pior desde pelo menos 1980, depois do verão mais quente já registrado na região.
Os preços globais do açúcar subiram 18% neste ano, mais do que qualquer outro componente do índice de preços de commodities alimentícias das Nações Unidas, com exceção dos óleos vegetais.
A intensidade da possível perturbação causada pelo El Niño chamou a atenção dos operadores. O número de contratos em aberto nos futuros de açúcar atingiu níveis recordes neste ano, e os fundos de hedge ampliaram os ganhos dos preços ao montar a posição mais otimista em anos.
“Há muito dinheiro apostando nos efeitos do El Niño”, afirmou Carlos Mera, chefe de mercados de commodities agrícolas do Rabobank. O posicionamento especulativo pode ter levado os preços do açúcar a níveis acima do que seria justificado pelos fundamentos, acrescentou.
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De forma mais ampla, essa alta dos preços pode ser limitada pela desaceleração do crescimento da demanda, já que consumidores preocupados com a saúde reduzem o consumo, fabricantes de alimentos reformulam produtos e o uso crescente de medicamentos GLP-1 para perda de peso levanta dúvidas sobre a demanda de longo prazo por alimentos doces, segundo Stephen Geldart, chefe de análise da trading de açúcar Czarnikow.
Ainda assim, alguns analistas acreditam que os preços podem subir mais com o fortalecimento do El Niño e novas restrições à oferta.
Analistas do Citi Research liderados por Arkady Gevorkyan esperam que os preços subam cerca de 20% nos próximos 12 meses devido às condições climáticas adversas, além de estoques “substancialmente mais apertados do que os dados oficiais indicam”.
“Os estoques vêm caindo, caindo e caindo, e chega um ponto em que, se houver algum contratempo inesperado em algum lugar, de onde virá o açúcar?”, afirmou Judy Ganes, presidente da J. Ganes Consulting. “Isso deixa o mercado vulnerável.”
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