Bloomberg — Há três anos, Ademar Bedin comprou uma área na floresta amazônica primária do tamanho de São Francisco, com o objetivo de transformar os densos bosques em terras agrícolas, como gerações de brasileiros haviam feito antes dele.
No estado de Roraima, onde a agricultura industrial está em franca expansão, ele planejava desmatar quase metade da propriedade — até o limite legal — e plantar soja. Em vez disso, a ZEG, uma empresa de desenvolvimento de projetos de carbono de São Paulo, o convenceu a manter a floresta intacta.
Agora, a propriedade de Bedin passa por um teste para verificar se os mercados de carbono são capazes de cumprir o que há muito prometem, mas raramente demonstram: tornar a preservação da floresta tropical financeiramente atraente para um agricultor.
“Com o modelo que estamos adotando, trata-se de um novo tipo de agricultura”, disse Bedin em uma entrevista pelo Zoom, de sua fazenda, perto de Brasília. “É agricultura de conservação.”
O que torna o projeto do Vale do Rio Branco distinto não é um novo tipo de crédito de carbono, mas a forma como foi concebido. Ele se baseia em evidências excepcionalmente sólidas de que, sem ele, a floresta seria desmatada e seu carbono seria emitido — um princípio conhecido como “adicionalidade” do benefício climático.
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A ZEG buscou ativamente florestas tropicais que pudessem ser convertidas em terras agrícolas de forma legal e lucrativa e, em seguida, formou uma parceria de participação nos lucros com Bedin, na qual ele recebe 60% dos rendimentos ao comprometer a terra com a conservação. A empresa mantém o controle da operação.
A ZEG e Bedin apostam que créditos de maior qualidade podem tornar comercialmente viável manter a floresta amazônica em pé. O desafio agora é saber se os compradores pagarão o suficiente para que esse modelo funcione.
A fronteira agrícola do Brasil continua avançando. Nas últimas décadas, a agricultura avançou cada vez mais para o interior da Amazônia, a maior floresta tropical do mundo e um reservatório crucial de dióxido de carbono e biodiversidade. A floresta em Roraima, lar dos Yanomami e de outras tribos, ainda está praticamente intacta, mas a viabilidade econômica de mantê-la assim está mudando.
Uma mudança regulatória em 2022 reduziu a quantidade de vegetação nativa que os proprietários de terras em algumas partes do estado são obrigados a preservar, de 80% para 50%. Mesmo com a redução geral do desmatamento na Amazônia brasileira, Roraima registrou um aumento de 32,5% no desmatamento nos últimos 12 meses até julho, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
Essa mudança foi determinante para que Bedin decidisse comprar o terreno, disse ele. O estado oferece outros atrativos para os agricultores, incluindo preços de terras relativamente baixos, melhoria na malha viária e expansão da infraestrutura de exportação. Após adquirir a propriedade, Bedin começou a buscar licenças para desmatar legalmente a parte disponível para conversão agrícola.
Então, em 2024, um corretor o procurou para falar sobre a ZEG, abreviação de Zero Emission Goal.
A empresa faz parte do Capitale, um grupo brasileiro do setor de energia que atua no país há mais de uma década e cujos negócios incluem o comércio de energia. Além de projetos de carbono, a ZEG também atua nas áreas de biometano e tecnologias de conversão de resíduos em energia.
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Bedin estava cético. O mercado voluntário de carbono ainda enfrenta uma erosão de confiança depois que uma série de investigações revelou que os desenvolvedores exageravam os benefícios climáticos e que as certificações dos projetos careciam de rigor. No Brasil, as investigações também associaram projetos de carbono à grilagem de terras e outras práticas ilegais.
Os créditos de carbono, segundo pensava Bedin na época, eram algo de que todos já tinham ouvido falar, mas que poucos realmente tinham visto funcionar. Por fim, porém, a ZEG conquistou sua confiança. E os números passaram a ser interessantes.
Bedin e a ZEG compararam os retornos potenciais da agricultura com os de manter a floresta intacta para a geração de créditos de carbono. A soja era mais lucrativa. Carlos Jacob, CEO da ZEG, estima que os retornos do projeto de carbono sejam cerca de 20% menores do que os da produção de soja, uma das principais culturas cultivadas na Amazônia e um dos principais produtos de exportação do Brasil.
Mas desenvolver uma nova fazenda exigiria investimento e gestão substanciais e exporia Bedin às oscilações nos preços das commodities, nas condições climáticas e nos custos. O carbono era potencialmente mais estável.
“Na verdade, não conseguimos igualar a rentabilidade apresentada na planilha de soja dele, mas conseguimos oferecer uma alternativa competitiva”, disse Jacob. A combinação de menos trabalho no dia a dia, maior estabilidade financeira e diversificação foi uma opção que Bedin se dispôs a experimentar.
A ZEG também criou um benefício para a comunidade ao permitir que os moradores locais colham castanhas de mais de 11 mil castanheiras-do-brasil na propriedade e ao envolvê-los nos esforços de manejo e proteção da floresta.
A empresa também treinou seus funcionários locais para ajudar na prevenção de incêndios florestais, uma preocupação crescente à medida que a região enfrenta secas cada vez mais intensas e o desmatamento avança nas proximidades.
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O projeto de carbono tem um período de compromisso de 40 anos e abrange quase 6 mil hectares que poderiam ser legalmente desmatados. Isso o torna um exemplo de desmatamento planejado evitado, ou APD. A ZEG não paga a Bedin para conservar a parte de suas terras que ele já é legalmente obrigado a conservar.
Essa distinção aborda uma das maiores críticas à REDD+ (redução de emissões decorrentes do desmatamento e da degradação florestal, na sigla em inglês), a estrutura criada pela ONU por trás dos créditos de carbono florestal. Se uma floresta não fosse realmente derrubada, a venda de créditos por “salvá-la” não proporciona o suposto benefício climático.
O projeto recebeu uma pré-classificação AA da BeZero Carbon, com sede em Londres, o que significa que a agência de classificação considera muito provável que os créditos que ainda serão emitidos gerem as reduções de emissões que alegam. A agência atribuiu ao projeto sua classificação mais alta em termos de adicionalidade, citando uma ameaça significativa de conversão para a agricultura comercial.
O Brasil tem o potencial de “gerar centenas de milhões de créditos de carbono REDD+ de alta qualidade a cada ano”, potencial esse que, até agora, permaneceu em grande parte inexplorado, afirmou Kyle Harrison, diretor global de pesquisa de mercados de carbono e ambientais da BloombergNEF.
Isso poderia ser fundamental para impedir novas perdas da floresta tropical. A Amazônia brasileira perdeu, desde 1985, uma área de vegetação nativa do tamanho da Espanha — cerca de 13% do total — de acordo com a rede de pesquisa MapBiomas.
Mas o momento é desafiador. Após controvérsias envolvendo projetos de REDD+, “a empresa enfrentará uma batalha difícil para convencer os compradores da integridade do projeto”, disse Harrison. A demanda por REDD+ em 2025 caiu 29% em relação ao ano anterior e quase 50% em relação ao seu pico em 2021, de acordo com dados da BloombergNEF.
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Muitos compradores de carbono passaram a se voltar para projetos de remoção — que plantam árvores ou usam tecnologia para retirar dióxido de carbono da atmosfera — em vez de pagar para impedir que florestas existentes sejam destruídas.
“Esse movimento é muito perigoso”, disse Isabella Mondino, diretora de negócios de carbono da ZEG. A restauração e a tecnologia de remoção de carbono são necessárias, acrescentou ela, mas também é preciso impedir que as árvores sejam derrubadas. “Temos uma urgência climática para interromper o desmatamento imediatamente.”
Isso faz com que a ZEG enfrente a contradição central de seu experimento. Os compradores afirmam querer créditos de carbono de maior integridade, mas produzi-los custa mais, e a ZEG diz que não consegue tornar o modelo escalável com os preços baixos associados aos créditos REDD+ convencionais.
Nesse sentido, o relatório de classificação da BeZero também aponta para um risco financeiro fundamental.
Em um cenário pessimista, utilizando os preços médios atuais dos créditos REDD+ latino-americanos, o projeto não atingiria o ponto de equilíbrio ao longo de sua vida útil.
O relatório afirma que a viabilidade econômica permanece vulnerável às oscilações do preço do carbono e a vendas abaixo do esperado, a menos que a ZEG consiga garantir consistentemente preços mais altos, possivelmente por meio de um contrato de compra garantida.
A busca por compradores começou após a classificação da BeZero, e a ZEG está buscando um preço mais alto. Jacob chama esse próximo obstáculo de “validação de mercado”. Se os compradores pagarem o suficiente, a ZEG planeja adicionar propriedades vizinhas e expandir o modelo por todo o estado de Roraima.
Bedin diz que outros agricultores já estão perguntando sobre como aderir, mas ele pede que esperem para ver se o projeto dele dá certo.
Sua paciência também tem limites.
Ele quer demonstrar que a conservação pode gerar retorno. Se isso não acontecer, disse Bedin, ele acabará tendo que reconsiderar: “Talvez eu volte ao plano original.”
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