Opinión - Bloomberg

Como o sonho da IPO da Anthropic pode ser ofuscado por empresas de computação em nuvem

Embora as empresas de IA tenham tido crescimento de receita impressionante, esse crescimento vem caindo, indicando que o verdadeiro poder pode estar nas mãos das empresas que distribuem e suportam a tecnologia, como Microsoft, Alphabet e Amazon

Dario Amodei
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — Pode chamar de mentalidade nerd. O Vale do Silício passou os últimos anos acreditando que quem construísse o sistema de inteligência artificial mais inteligente dominaria o setor. Hoje, esse raciocínio está começando a parecer equivocado.

O custo de desenvolvimento de modelos de IA está aumentando, enquanto o preço de uso está diminuindo. O crescimento da receita das empresas de IA tem sido impressionante, mas também está desacelerando.

Isso não significa necessariamente o estouro de uma bolha, mas parece que o verdadeiro poder está cada vez mais nas mãos das empresas que distribuem e alimentam a tecnologia: gigantes da nuvem como a Microsoft (MSFT), a Alphabet (GOOGL) e a Amazon.com (AMZN).

Esse trio do establishment das big techs, cujas ações subiram em média 10% desde o início de 2026, controla a infraestrutura, o relacionamento com os clientes e os canais de distribuição por meio dos quais a IA é vendida. Elas podem lucrar independentemente de uma empresa usar o Claude, uma versão mais antiga do ChatGPT ou um modelo de peso aberto mais barato da China. Esse não é o caso da OpenAI ou da Anthropic.

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Esta última está se preparando para uma oferta pública inicial em novembro; sua meta é atingir um valuation de US$ 2 trilhões, no que será o maior teste para verificar se o interesse dos investidores pelo boom da IA continua.


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O problema: a Anthropic informou recentemente aos investidores que sua receita no terceiro trimestre foi de US$ 16,8 bilhões, uma taxa de crescimento trimestral de cerca de 50%, em comparação com os 140% registrados no início deste ano.

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É só acessar o X, antigo Twitter, e você encontrará histeria em torno dessa notícia. Um comentarista financeiro popular chama os números da Anthropic de uma desaceleração “loucamente acentuada”. “Acabou”, acrescenta, de forma ameaçadora.

Leia também: Anthropic planeja destinar parte de suas ações a novo fundo de ‘bem público’

Na verdade, isso está longe de ser um desastre. Com um crescimento trimestral de 50%, as vendas aumentariam cerca de cinco vezes em um ano e 130 vezes em três anos. O difícil é manter esse ritmo, já que cada trimestre adicional exige bilhões a mais em novas receitas.

Para agravar o problema, há o fato de que os modelos de ponta mais poderosos custam uma fortuna para serem construídos. Um gráfico publicado pela Citadel Securities em agosto destacou a dolorosa armadilha econômica enfrentada pela OpenAI e pela Anthropic: o poder de computação necessário para operar a IA está ficando mais caro, enquanto os chamados preços dos tokens caíram, tornando seu uso muito mais barato.

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Os autores do gráfico da Citadel mostraram-se otimistas, afirmando que a IA mais barata estava levando as empresas a utilizar mais a tecnologia, o suficiente para sustentar a demanda por toda aquela computação subjacente e cara — os defensores da IA costumam apontar para esse fenômeno, conhecido como paradoxo de Jevons.

Gráfico

Mas fica mais difícil manter o otimismo quanto à capacidade da Anthropic e da OpenAI de sustentar esse ritmo de crescimento quando mais empresas estão optando por uma IA que seja apenas boa o suficiente, em vez da melhor.

Modelos mais baratos e de peso aberto agora representam mais de um terço do uso de tokens de IA corporativos, um aumento em relação aos 23% registrados há um ano, de acordo com a Enterprise Technology Research, que entrevistou 200 empresas em setembro. Os entrevistados esperavam que essa participação chegasse a 41% nos próximos 12 meses.

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E, ao longo do último ano, dois grandes clientes da Anthropic — a Microsoft e a Meta Platforms (META) — reduziram o uso interno do Claude em favor de suas próprias soluções proprietárias, na tentativa de diminuir os custos astronômicos dos tokens.

Tudo isso torna o futuro mais incerto para as principais empresas de IA, especialmente diante da enorme lacuna entre o dinheiro que estão arrecadando e os US$ 1,3 trilhão que a OpenAI e a Anthropic devem gastar em data centers, chips e poder de computação até o final de 2030.

Será que isso significa uma sequência catastrófica de dominós caindo para o resto do Vale do Silício? Algum tipo de correção parece inevitável quando os investidores já comprometeram somas tão enormes com a infraestrutura de IA e o financiamento por meio de dívida — o que já está causando efeitos de segunda ordem no mercado de títulos — antes que alguém possa calcular com segurança os retornos.

E se novas dificuldades de crescimento na Anthropic e na OpenAI levarem a um colapso na confiança, as empresas de nuvem também não ficarão totalmente imunes. Elas investiram bilhões de dólares em empresas pioneiras de IA e em data centers para operar seus serviços. O uso de modelos mais baratos também reduzirá suas margens de lucro.

Leia também: Anthropic atinge receita de US$ 16,8 bi antes de IPO, mas desaceleração frustra mercado

Mas, quando se trata de resistir a uma tempestade que se aproxima, os gigantes consolidados da nuvem também estão em uma posição muito melhor do que os recém-chegados. Eles têm negócios lucrativos fora da IA, relacionamentos de longa data com clientes corporativos e a capacidade de lucrar independentemente de qual modelo venha a se impor.

Lembre-se de que, na era das pontocom, muitos investidores perderam tudo porque as empresas não conseguiram monetizar rapidamente os caros cabos de fibra óptica que haviam sido instalados para sustentar o boom. Essa infraestrutura simplesmente demorou mais do que muitos esperavam para ser utilizada.

Se a alta da IA seguir um caminho semelhante, os maiores vencedores podem ser as empresas com maior resiliência — não os Sam Altmans ou Dario Amodeis tentando construir um “deus-máquina”, mas aquelas que podem se dar ao luxo de esperar por isso.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Parmy Olson é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre tecnologia. Já escreveu para o Wall Street Journal e a Forbes e é autora de “We Are Anonymous.”

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