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BYD na F1: aposta bilionária busca prestígio além de estigma de ‘barata e eficiente’

Montadora chinesa se prepara para ser a primeira marca da China a entrar na Fórmula 1 em um movimento que visa aumentar a visibilidade global da marca enquanto o mercado interno está em declínio

A Fórmula 1, com uma base global de 827 milhões de fãs, pode proporcionar grande visibilidade à marca (Foto: Toru Hanai/Bloomberg)
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — A BYD deve ser a primeira montadora chinesa a entrar na Fórmula 1.

Uma vaga no grid impulsionaria imediatamente sua visibilidade global no momento em que mais precisa disso — o mercado interno está em contração. E competir com sucesso poderia conferir à marca algo que ela não possui: valor emocional.

A empresa confirmou à Bloomberg News no início deste mês que estava analisando opções para entrar no automobilismo competitivo. Se a iniciativa fracassar, isso poderia ser perigoso para sua reputação.

Ainda assim, ao entrar na corrida, a maior fabricante mundial de veículos elétricos terá uma chance de alcançar o que 30 anos de iterações incansáveis e cortes de custos não conseguiram — construir uma verdadeira atratividade global para seus carros.

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Como a maioria dos veículos chineses, os modelos da BYD são vistos no país e no exterior como tecnologicamente avançados e com boa relação custo-benefício. Mas não há nada de atraente na marca. Essa é uma percepção que a empresa deveria tentar reverter.

Leia mais: Elétricos na pista: BYD estuda entrar na Fórmula 1 em busca de popularidade global

O custo da inércia já é evidente. Desde o final de 2022, quando a Tesla começou a reduzir preços na China, o setor está atolado em uma concorrência debilitante, resultando em margens mais estreitas.

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Os esforços do governo para coibir a involução — um conceito social amplo que inclui o fenômeno das guerras de preços em diferentes setores — têm sido apenas parcialmente eficazes. Quando analisei os números, parece que o preço médio de venda da BYD aumentará apenas marginalmente até o próximo ano.

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É difícil pedir mais quando se espera que o setor automotivo chinês como um todo sofra uma retração este ano, conforme preveem os analistas da Bloomberg Intelligence, Joanna Chen e Jason Zhao.

Isso se deve, em parte, ao fato de o governo ter cortado drasticamente o financiamento de um programa nacional de subsídios destinado a compensar os preços de compra de itens como carros, eletrodomésticos e eletrônicos. O programa está em vigor desde 2024 com o objetivo de impulsionar o consumo, que nunca se recuperou totalmente após o colapso do setor imobiliário.

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Portanto, assim como seus concorrentes, a BYD está apostando tudo nos mercados internacionais, onde o mesmo modelo pode chegar a custar mais do que o dobro do preço. No ano passado, a empresa exportou cerca de um milhão de veículos, contra 430 mil em 2024, segundo a Associação Chinesa de Veículos de Passageiros.

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A montadora já iniciou ou está prestes a iniciar a produção em suas fábricas no Brasil, na Indonésia e na Hungria. Os planos para estabelecer uma presença no México estão agora de volta.

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Mas se a arena internacional for o principal motor de crescimento da BYD no futuro próximo, ela precisa aprimorar sua estratégia de marketing. A história do fundador Wang Chuanfu, um órfão sem um centavo criado por seus irmãos mais velhos para se tornar um grande engenheiro, é bem conhecida na China. No exterior, os clientes podem ter dificuldade em reconhecê-lo.

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As corridas criam uma mitologia, que, por sua vez, gera apelo popular, permitindo que as marcas cobrem preços premium por especificações idênticas, disse David Vaucher, diretor-geral da Vaucher Analytics, uma empresa de consultoria.

Desde sua primeira corrida em 1950, a F1 é conhecida por ser um círculo fechado, com diversos participantes que nem sempre concordam entre si.

O esporte conta com uma base global de 827 milhões de fãs, um aumento de 12% no ano passado, em parte devido à divulgação do filme F1 estrelado por Brad Pitt. E, embora algumas equipes estejam no vermelho, suas avaliações financeiras continuam elevadas.

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Pode levar anos para negociar a entrada de uma nova equipe, como foi o caso da Cadillac, a marca de luxo da General Motors, que finalmente fez sua estreia no Grande Prêmio da Austrália como a décima primeira equipe em março. Mas há bons motivos para acreditar que poderia haver espaço para uma equipe chinesa.

Mohammed Ben Sulayem, líder do órgão regulador da F1, disse em várias entrevistas no ano passado que uma equipe chinesa seria o próximo passo natural, pois expandiria o alcance e, por extensão, os lucros do esporte.

O interesse foi impulsionado pela ascensão de Zhou Guanyu, natural de Xangai e atual piloto reserva da Cadillac, que apareceu na série Drive to Survive da Netflix. A corrida em Xangai no início deste mês, a segunda da temporada, atraiu 230 mil espectadores ao longo de três dias, com 16% vindos do exterior. As vendas de ingressos aumentaram mais de 30% em relação a 2025.

Leia mais: BYD recebe encomenda de 100 mil carros da Argentina e México para fábrica no Brasil

Existem diferentes maneiras de a BYD entrar na F1. Ela poderia criar sua própria equipe em torno de sua marca de luxo Yangwang, o que poderia custar até US$ 500 milhões por temporada. Há a opção de comprar uma equipe já existente, como fez a Audi, uma unidade da Volkswagen, no ano passado por cerca de € 600 milhões.

Alternativas menos onerosas incluem firmar uma parceria para oferecer suporte técnico ou simplesmente patrocinar uma equipe. Para se beneficiar do alcance da F1, a BYD deveria considerar seriamente apenas as duas primeiras opções. É um investimento para o qual a montadora dispõe de amplos recursos.

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Os investidores esperam que a montadora revele atualizações tecnológicas ou reformulações de modelos para reacender o ímpeto das vendas. Mas há um caminho mais atraente, embora mais arriscado, a ser seguido.

Desde que a primeira corrida de F1 foi realizada em Xangai em 2004, o esporte se tornou extremamente popular na China, retornando todos os anos, exceto por uma pausa relacionada à pandemia. Duas décadas depois, é hora de uma equipe chinesa entrar no grid — uma oportunidade que a BYD deve aproveitar para se tornar uma marca global de referência.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Juliana Liu é colunista da equipe da Bloomberg Opinion na Ásia e cobre estratégia corporativa e gestão na região. Anteriormente, foi editora sênior de negócios da CNN para a Ásia e correspondente da BBC News e da Reuters.

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