Bloomberg Opinion — No que diz respeito a comportamentos inadequados no mundo das finanças, a ideia de pessoas com informações privilegiadas apostando que Estados Unidos e Israel atacarão o Irã é algo extremamente repugnante.
Lucrar com a morte e a destruição no Oriente Médio — ou em qualquer outro lugar — seria desprezível. Mas, além da dimensão moral, há também a questão da segurança nacional: dado que entregar tais informações a um inimigo seria um ato de traição, arriscar vazamentos de inteligência por meio de sinais de preço deveria ser considerado menos traidor?
Os mercados de previsão já enfrentam questionamentos sobre sua adequação depois que uma série de negociações duvidosas atraiu o escrutínio público nos últimos meses.
A Kalshi e a Polymarket deveriam simplesmente parar de oferecer apostas em qualquer coisa relacionada à guerra, operações militares ou mudança de regime — surpreendentemente, a Polymarket também hospeda negociações sobre se uma bomba nuclear será detonada na Ucrânia este ano.
As necessidades legítimas de proteção contra riscos financeiros ou de commodities já são bem atendidas pelos mercados futuros e de opções existentes; ninguém precisa dessas apostas binárias do velho oeste.
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Os fatos do último fim de semana são os seguintes: mais de US$ 500 milhões foram apostados na Polymarket sobre o momento de um ataque dos EUA ao Irã até o momento em que ele aconteceu no sábado (28), de acordo com a Bloomberg News.
Seis jogadores, que obtiveram lucros combinados de US$ 1 milhão ao antecipar corretamente um ataque em 28 de fevereiro, eram novas contas que só haviam feito apostas sobre o bombardeio do país pelos Estados Unidos.
As suspeitas sobre o uso de informações privilegiadas nos grandes mercados de previsão cresceram quase tão rapidamente quanto seus volumes de negociação.
Em janeiro, uma nova conta no Polymarket ganhou mais de US$ 400 mil ao prever o ataque surpresa dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de seu presidente, Nicolás Maduro. Isso se seguiu a várias outras negociações duvidosas sobre uma ampla variedade de eventos cujo resultado alguém poderia saber antes de ser divulgado publicamente.
E isso realmente importa agora que as plataformas não são mais pequenas empresas iniciantes que os governos podem ignorar.
Os volumes semanais combinados nas plataformas da Kalshi e da Polymarket, os dois maiores mercados até o momento, ultrapassaram US$ 5 bilhões no final de fevereiro, de acordo com dados compilados pela Dune Analytics.
A Polymarket foi avaliada em US$ 9 bilhões e é apoiada pela Intercontinental Exchange, controladora da Bolsa de Valores de Nova York, entre outras; a Kalshi tem um valuation de US$ 11 bilhões.

No mês passado, a Kalshi confirmou que comportamentos inadequados realmente acontecem quando sancionou um editor que trabalhava no canal do youtuber MrBeast por uma série de apostas vencedoras sobre o conteúdo do programa.
Também em fevereiro, a empresa deu uma reprimenda a Kyle Langford, candidato republicano ao governo da Califórnia, por uma manobra publicitária em que ele apostou em sua própria vitória em maio passado.
Após a sanção interna da Kalshi nesses dois casos, a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês) emitiu uma declaração lembrando a todos que tem autoridade para fiscalizar negociações ilegais nos mercados de previsão.
O órgão regulador deve continuar com seu trabalho; são necessários recursos e poderes investigativos para reprimir adequadamente os infratores.
Claro, há explicações possíveis para o motivo pelo qual os vencedores apostaram no ataque ao Irã naquele momento, e algumas das novas contas suspeitas realmente fizeram apostas ruins.
Houve cerca de US$ 25 milhões apostados em 27 de fevereiro como o dia dos ataques dos EUA; uma das seis contas vencedoras perdeu cerca de US$ 300 nessa aposta, de acordo com a Bloomberg News.
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Essas pessoas poderiam estar analisando informações públicas. O presidente Donald Trump vem fazendo ameaças contra o Irã há semanas em seu estilo típico de negociação.
Além disso, há uma conta no X, antigo Twitter, chamada Pentagon Pizza Report que publica regularmente sobre o tráfego de entrega de comida perto da sede do Departamento de Defesa em Washington, DC, o que alguns consideram um indicador de que a equipe está fazendo hora extra, o que pode significar algo. A Polymarket tem a sua própria página do Pentagon Pizza Index.
Mesmo que a CFTC se esforce muito mais para policiar essas plataformas, isso não resolverá todos os problemas. Os negócios offshore da Polymarket não são supervisionados pelo órgão regulador e permitem que as contas usem carteiras de criptomoedas, o que ajuda no anonimato.
Permitir esse tipo de aposta com a possibilidade de informações privilegiadas não é apenas ruim, é perigoso. Imagine se os líderes iranianos tivessem interpretado o aumento das apostas em um ataque dos EUA como um sinal confiável e lançado ataques preventivos contra ativos dos EUA ou Israel primeiro.
Isso não é tão fantasioso quanto parece. Na semana passada, Israel apresentou acusações contra duas pessoas acusadas de usar informações confidenciais para fazer apostas no Polymarket relacionadas às operações de segurança de Israel, sem detalhar as apostas. As autoridades descreveram-nas como uma ameaça à segurança nacional do país. Esses são medos reais.
Todos os envolvidos aqui deveriam pensar em muito mais do que suas próprias reputações. Sim, as plataformas, seus investidores e governos devem fazer mais para eliminar adequadamente o potencial de uso de informações privilegiadas. Mas, independentemente dos crimes financeiros, a Kalshi e a Polymarket deveriam simplesmente parar de criar mercados para ações militares e guerras.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Paul J. Davies é colunista da Bloomberg Opinion, cobrindo bancos e finanças. Trabalhou anteriormente para o Wall Street Journal e o Financial Times.
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