Bloomberg Opinion — Kevin Warsh, o provável novo presidente do Federal Reserve, tem muito a seu favor: experiência no Fed durante a crise financeira de 2008; conhecimento do mercado adquirido na Morgan Stanley e mais de uma década trabalhando com Stanley Druckenmiller, um dos maiores investidores da atualidade; aparência de “ator de cinema”, para citar o presidente Trump; e facilidade com a linguagem, evidente em seus discursos, artigos e aparições na televisão.
Mas não se engane, Warsh assumiu uma função muito difícil. Vejo quatro desafios principais.
Primeiro, ele precisa conquistar a confiança de seus colegas no Fed. Embora o presidente dirija a equipe do Fed e defina a agenda de cada reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), responsável pela formulação de políticas, ele tem apenas um dos 12 votos.
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Para realmente exercer poder, ele terá que conquistar respeito. Ele tornou isso mais difícil com suas críticas persistentes de que o banco central dos EUA precisa de uma “mudança de regime” e que ele talvez precise “quebrar algumas cabeças”.
Segundo, ele precisa administrar a tensão que criou ao fazer campanha para a presidência: defender as taxas de juros mais baixas que Trump deseja, em oposição a fazer o que é realmente necessário para manter a inflação sob controle.
Isso não será fácil, dado que sua justificativa para reduzir as taxas de curto prazo — que uma combinação de produtividade impulsionada pela IA e um balanço patrimonial reduzido do Fed manterá a inflação sob controle — é, na melhor das hipóteses, especulativa.
Os benefícios da IA em termos de produtividade podem ser menores ou demorar mais tempo a concretizar-se do que o previsto. Mesmo que se concretizem, podem fazer subir a taxa de juro, em consonância com uma política monetária neutra. Foi o que aconteceu durante o boom do investimento na internet no final da década de 1990.
Por sua vez, um balanço patrimonial menor provavelmente não terá grande efeito na contenção da inflação — assim como a vasta expansão do balanço patrimonial após a crise financeira de 2008 pouco contribuiu para alimentar a inflação.
Em terceiro lugar, reduzir o balanço patrimonial — algo que Warsh defende há muito tempo — não será fácil. Ele tem duas opções: reduzir os requisitos de liquidez dos bancos, para que eles não depositem tanto dinheiro no Fed na forma de reservas; ou aumentar os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, para induzir os bancos a transferir suas reservas para títulos do Tesouro e outros instrumentos do mercado monetário.
Ambas as opções são problemáticas. A lição da crise bancária regional de 2023, na qual a corrida aos depósitos ocorreu muito mais rapidamente do que o previsto, é que os requisitos de liquidez devem ser maiores, não menores.
Abandonar as reservas poderia causar mais uma turbulência no mercado monetário. O atual regime de “reservas amplas” tem vantagens cruciais. Ele permite que o Fed controle facilmente as taxas de juros de curto prazo, definindo a taxa sobre as reservas, e forneça facilidades de liquidez ilimitadas durante crises financeiras.
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Ele permite que os bancos mantenham o ativo mais seguro e líquido, o dinheiro em caixa no balanço do Fed. Apenas descobrir como fazer a transição para um regime de reservas escassas sem perturbar os mercados levaria muitos meses, sem garantia de sucesso.
Quarto, Warsh defendeu um novo acordo entre o Fed e o Tesouro. Não está claro o que ele tem em mente.
O acordo do Tesouro de 1951 estabeleceu a independência do Fed no que diz respeito à condução da política monetária.
Por que um novo acordo é necessário e o que ele alcançaria? Se o objetivo é estabelecer regras básicas mais formais para as políticas do balanço patrimonial do Fed, que influenciarão a quantidade de títulos do governo que o Tesouro deve vender ao público, isso seria bem-vindo.
O Fed carece de uma estrutura bem articulada para flexibilização e aperto quantitativos. Mas não está claro por que isso deve envolver o Tesouro.
Warsh deveria ouvir o velho ditado que diz que é melhor prometer menos e entregar mais. Alcançar as mudanças que ele busca exigirá tempo, habilidade e esforço consideráveis — e talvez não valha a pena.
Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.
Bill Dudley é colunista da Bloomberg Opinion e consultor sênior da Bloomberg Economics. É pesquisador sênior da Universidade de Princeton, atuou como presidente do Federal Reserve Bank de Nova York e como vice-presidente do Federal Open Market Committee.
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