Bloomberg Opinion — Os bancos centrais de muitos países estão aumentando as taxas de juros mais rapidamente do que parecia provável há apenas alguns meses. Alguns analistas temem que esse esforço para conter a inflação possa tornar a política monetária restritiva demais. Eles observam que qualquer aumento nos juros envolve uma espécie de efeito colateral: diminui a demanda não apenas para a produção nacional, mas também para as importações. Não levar isso em conta poderia causar uma queda global involuntária.
A questão ocupará os ministros das finanças e banqueiros centrais que se reunirão em Washington esta semana para os encontros do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. A coordenação internacional formal da política pode ser a resposta? Em um mundo ideal, sim. Na prática, é pouco provável que funcione.
Em teoria, o Fed e outros bancos centrais poderiam levar em consideração as repercussões da política monetária, visando, de fato, administrar coletivamente a demanda global. Às vezes eles até tentam – durante a recessão de 2008, por exemplo. No entanto, as preocupações domésticas sempre dominaram seus cálculos.
Isso é inevitável. As condições variam muito de país para país e podem mudar abruptamente, tornando uma verdadeira ação coletiva quase impossível. Também, é claro, há a política – não menos importante, graças ao efeito da política fiscal sobre a demanda. Como a coordenação internacional do banco central britânico lidaria com a intensa pressão sobre a libra esterlina após o orçamento controverso do governo? Como o banco central italiano enfrentaria a provável nomeação de um novo primeiro-ministro de extrema-direita na Itália, que causou a queda dos preços dos títulos do país? Como o Fed se adaptaria ao plano do presidente Joe Biden de perdoar a dívida estudantil, a um custo de cerca de meio trilhão de dólares?
O que a maioria dos bancos centrais pode esperar fazer, enquanto lutam contra essas complicações, é orientar a demanda em suas próprias economias. Isso significa julgar se e até que ponto os acontecimentos no exterior afetarão o cálculo. Questionado sobre isso recentemente, o presidente do Fed, Jerome Powell, enfatizou que seus funcionários seguem em contato com seus homólogos no exterior para que possam monitorar as condições financeiras internacionais. Compartilhar dados, monitorar cuidadosamente as intenções uns dos outros e proclamar o objetivo comum de estabilidade financeira o que a cooperação monetária pode alcançar.
Felizmente, isso deve ser o suficiente, desde que um outro ponto seja mantido em mente: as repercussões monetárias são um risco significativo e aumentam a incerteza sobre como a demanda irá evoluir. Isso significa que o Fed e outros bancos centrais devem evitar seguir uma rota engessada para as taxas de juros. As taxas terão que mudar quando as circunstâncias mudarem, no país ou no exterior; os bancos centrais que levam os investidores a esperar um certo risco corroem sua credibilidade se se desviarem desse risco ou se ficarem presos à política errada.
Em declarações recentes, o Fed pareceu reconhecer esse dilema. O banco central americano prometeu manter a mente aberta, julgar a política de acordo com os dados recebidos e continuar ágil – tudo para voltar a controlar a inflação. Se outros bancos centrais fizerem o mesmo, eles devem ser capazes de conduzir a crise atual, evitando ao mesmo tempo qualquer coisa pior.
Os Editores são membros do conselho editorial da Bloomberg Opinion.
—Editores: Clive Crook, Timothy Lavin.
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