Lei americana é uma resposta ao sistema de venture capital estatal da China, que, na verdade, não tem tantos cases de sucesso assim
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Bloomberg Opinion — A política industrial da China parece ter fãs do outro lado do mundo. A lei americana Chips and Science Act, de US$ 280 bilhões, é uma resposta direta do governo do presidente americano Joe Biden aos gastos de Pequim para ajudar setores essenciais. Mas assim como a Intel (INTC) e a Micron Technology (UM) se esforçam para receber apoio do governo dos Estados Unidos, os perigos de confiar no dinheiro público estão colocando a indústria de chips da China em alerta.

Nos últimos dias, as investigações de corrupção envolveram funcionários de alto escalão de um setor essencial para as ambições do Presidente Xi Jinping no plano “Made in China 2025″. Pelo menos três executivos de um fundo de private equity estatal de US$ 20 bilhões criado em 2014 para investir principalmente na fabricação de chips foram detidos. O mesmo ocorreu com Xiao Yaqing, chefe da agência encarregada da política industrial do país e o funcionário com maior senioridade no gabinete ao se envolver em uma investigação disciplinar em quase quatro anos.

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É intrigante que a agência de combate à corrupção esteja investigando um importante fundo de venture capital que tenha apresentado resultados substanciais. A primeira fase do Fundo Nacional de Investimento da Indústria de Circuitos Integrados levantou bilhões do Ministério das Finanças e do China Development Bank Capital. Entre 2014 e 2019, o chamado “Big Fund” investiu em 23 empresas de chips, gerando diversos líderes nacionais. Apoiou a Semiconductor Manufacturing International, cuja capacidade avançada de fabricação de chips pode colocá-la à frente de seus pares americanos. O fundo também investiu capital semente na Yangtze Memory Technologies, subsidiária da Tsinghua Unigroup, a melhor aposta da China na fabricação de memórias flash NAND.

Isso significa que o modelo de venture capital estatal, que floresceu durante o governo de Xi, deixou de funcionar? Os fundos de venture capital do governo levantaram cerca de US$ 920 bilhões, quase tudo no período de oito anos encerrado em 2021. Esses fundos surgiram como uma fonte essencial de financiamento para empresas privadas, contribuindo com cerca de 10% do capital total levantado no ano passado.

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Praticamente todo o capital foi levantado de 2013 a 2021dfd

O Big Fund e milhares dos chamados fundos de orientação do governo são projetados para imitar o venture capital. Os investidores finais – por exemplo, o Ministério da Fazenda no caso do Big Fund – não estão envolvidos nas operações diárias dos fundos ou nas decisões de investimento. E os próprios fundos são majoritariamente partes interessadas passivas nas empresas nas quais investem.

O envolvimento do Big Fund no investimento na fabricante de memórias flash YMTC é um bom exemplo. O fundo contribuiu com 49% do capital inicial, muito mais do que os 13% da controladora Unigroup. Mas o fundo não controla a YMTC.

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Esse modelo deveria incentivar as melhores práticas de governança corporativa. Afinal de contas, o que os burocratas sabem sobre a administração de empresas? Contudo, com o investimento do governo – e o prestígio subjacente – as empresas do portfólio podem acabar sem controle. Esse prestígio do fundo de orientação abre portas para empréstimos, mas pode levar a empréstimos excessivos.

O envolvimento do Big Fund com a Unigroup acabou mal. Em seu auge, o império da Unigroup tinha cerca de US$ 44 bilhões em ativos e 286 subsidiárias consolidadas. Mas também gerou um índice de dívida líquida em relação ao patrimônio líquido de 125%, ficou inadimplente em 2020 e depois entrou em reestruturação falimentar. Seu presidente de longa data, Zhao Weiguo, foi detido em meados de julho, possivelmente devido às investigações de transações com partes relacionadas, segundo a mídia financeira Caixin.

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Os fundos de orientação são conhecidos por usarem sua reputação como alavancagem. O raciocínio é que uma contribuição inicial do governo – muitas vezes vista como um selo de aprovação – pode atrair muito mais de outros investidores.

A Gavekal Research deu um bom exemplo: o enorme Fundo da Indústria do Rio Yangtze criado pela província de Hubei em 2015. O governo provincial injetou inicialmente US$ 6 bilhões no fundo principal, com o objetivo de levantar US$ 29,6 bilhões para um grupo de subfundos. Estes subfundos, por sua vez, aspiravam a catalisar US$ 148 bilhões de capital adicional, o equivalente a quase um terço da produção econômica anual de Hubei.

Mas quem são os coinvestidores? Uma parte considerável veio dos produtos de gestão de patrimônio dos bancos – uma forma de financiamento paralelo. Os veículos de financiamento dos governos locais, que são majoritariamente empresas de fachada financiadas por empréstimos, também são grandes participantes.

Em outras palavras, esses fundos de venture capital estatais permitiram que as empresas já endividadas da China tomassem ainda mais empréstimos. Os investimentos dos fundos de orientação, incluindo aqueles em setores estratégicos emergentes, devem desacelerar este ano, de acordo com a Fitch Ratings.

Com a aprovação da Chips and Science Act, ainda existe um debate incômodo sobre o governo dos EUA estar fazendo o suficiente. A legislação inclui US$ 52 bilhões em subsídios para apoiar a fabricação de chips, bem como pesquisa e desenvolvimento, nos EUA. Isso não é muito para fábricas de ponta cuja construção custa mais de US$ 10 bilhões. E sua escala corresponde apenas ao Big Fund e seus coinvestidores, que coletivamente ampliaram a capacidade de fabricação de chips da China em US$ 70 bilhões no período de cinco anos encerrado em 2019. Havia milhares de outros fundos de orientação chineses por aí, apoiando as empresas de tecnologia industrial nascentes.

Esse debate se torna equivocado quando investigamos o modelo industrial orientado pelo governo do país. Sim, a China ultrapassou concorrentes em algumas tecnologias estratégicas. Mas por trás de cada sucesso estão muitas outras histórias de fracasso, mentiras, escândalos de corrupção e mau uso do capital, além de uma problemática pilha de dívidas corporativas. Será que os EUA estão dispostos a tomar empréstimos de bilhões para financiar projetos que podem facilmente dar errado apenas para tirar a glória industrial da China?

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Shuli Ren é colunista da Bloomberg Opinion e cobre mercados asiáticos. Ex-banqueira de investimentos, ela foi repórter de mercados para a Barron’s. Também é analista financeira com certificação CFA.

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