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Exclusivo: Investidores não devem mudar de opinião todo dia, diz Howard Marks

Cofundador da Oaktree Capital e um dos maiores investidores da história compartilha visões sobre o mercado no momento atual e no longo prazo em entrevista à Bloomberg Línea

Howard Marks, co-fundador e co-chairman da Oaktree Capital: momento não é de ser nem agressivo demais nem defensivo demais no mercado
04 de Agosto, 2022 | 11:15 am
Tempo de leitura: 10 minutos

Bloomberg Línea — O momento de incertezas e desaceleração da economia global tem causado prejuízos a milhões de investidores em diferentes mercados. Em momentos assim, ceder à tentação de buscar acertar a melhor hora de vender e comprar ativos para embolsar ganhos parece inevitável. Mas é justamente o foco no longo prazo que vai trazer resultados consistentes. É o que defende um dos mais bem-sucedidos investidores da história, Howard Marks, que conversou com a Bloomberg Línea em entrevista exclusiva.

“Você não quer ir a um médico que lhe dê um medicamento diferente todos os dias. Ou a um advogado que lhe dê conselhos diferentes todos os dias. É muito importante, quando as pessoas estão tentando ser bons investidores, que sejam estáveis, firmes e não mudem de ideia dia após dia”, disse Marks, 76 anos.

Cofundador e co-presidente do conselho da Oaktree Capital Management, que faz a gestão de US$ 160 bilhões em ativosdfd

Cofundador e co-presidente do conselho da Oaktree Capital Management, que faz a gestão de US$ 160 bilhões em ativos, Marks é reconhecido por suas contribuições em áreas que vão da compreensão da psicologia nos mercados - ele defende que investidores estudem o tema e entendam as motivações em jogo - à melhor avaliação da correlação de risco e retorno. Ele concedeu a entrevista nesta quarta-feira (3), antes de sua participação na Expert, evento para investidores promovido pela XP (XP), em São Paulo.

Segue abaixo os principais trechos da entrevista, editada para facilitar a compreensão.

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Bloomberg Línea: Investidores algumas vezes não enxergam por meio da perspectiva da psicologia. Como isso funciona?

Howard Marks: A psicologia está no curto prazo. Às vezes, as pessoas são muito otimistas; às vezes, muito pessimistas. As pessoas deveriam tentar evitar se empolgar e deveriam buscar orientação quando grandes investidores fazem algum ativo subir muito. Talvez devam realizar algum lucro e sair, mas certamente não entrar. Quando os investidores ficam muito deprimidos e fazem algo cair não é hora de vender. Talvez comprar, mas não vender. A questão é que a psicologia flutua para longe de pessoas voláteis.

Quais as diferença dos tempos atuais, com redes sociais e maior volume de informações à disposição, que nos permitem saber o que está acontecendo no mundo, com a época da crise de 2008, por exemplo?

Estamos melhor porque temos acesso a mais informações. E, a propósito, qualquer pessoa interessada em investir pode buscar informações online. Mas você tem que olhar para as fontes certas: há comentários inteligentes na internet sobre investimentos e há charlatães que só querem pegar o seu dinheiro. É muito importante ter as fontes certas. Há muita informação que não tínhamos há 15 anos e isso é uma coisa boa, mas também há redes sociais e gamificação que acabam criando uma pressão para que você negocie [ativos] com mais frequência porque isso é algo legal, mas, na verdade, isso é ruim.

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Eu acho que as redes sociais possibilitam um efeito ruim de deixar as pessoas enlouquecidas. Eu acho que se você vai se envolver em redes sociais, tem que mantê-las sob controle ou então elas tentarão controlar você. Essa é a minha percepção. Eu não sou muito um usuário de redes sociais. Você tem que aproveitar os benefícios das redes sociais, como o acesso à informação e a comunicação, sem que controlem sua psicologia e emoções.

Como o investidor deve agir diante de tantas informações de diferentes canais?

“Como” é algo difícil. A questão é que esse deveria ser o objetivo: ser alguém não emocional, ser estável, consistente e não deixar as redes sociais e a multidão te enlouquecer, te deixar otimista demais ou pessimista demais. Mas esse é o objetivo, como conseguir pode ser difícil. Eu acho algo fácil, mas isso sou eu. É o que as pessoas deveriam buscar.

Não adianta nada a nenhum investidor surfar nessas ondas psicológicas. A questão é, como um filósofo disse, manter o seu coração enquanto outros estão perdendo os deles. Esse é o segredo para o sucesso.

Como um investidor que se enxerga como alguém mais volátil pode agir diante de tantas opiniões? Quais são as capacidades que deve desenvolver para permanecer calmo nessa situação?

Não sou psiquiatra. Mas eu acho que, antes de tudo, é preciso estabelecer isso como um objetivo. Em segundo lugar, reconhecer quando você está ficando muito entusiasmado ou muito deprimido. Terceiro, talvez escrever algumas notas. Meu objetivo é ser firme e ter alguns processos. Talvez se você tiver um pensamento sobre comprar alguma coisa, diga para pensar um dia, para decidir amanhã. Só não reaja no momento, sob influências emocionais.

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Eu acho que você não pode ficar entrando e saindo do trade, comprando e vendendo. Você tem que ser pensativo. Você não quer ir a um médico que lhe dê um medicamento diferente todos os dias. Ou a um advogado que lhe dá conselhos diferentes todos os dias. É muito importante, quando as pessoas estão tentando ser bons investidores, que sejam estáveis, firmes e não mudem de ideia dia após dia. Você pode dizer que só pode negociar na quinta-feira. Nos outros dias você não faz nada. Mais pensamento do que negociação.

Investidores precisam aprender que não se ganha dinheiro comprando e vendendo. Você ganha dinheiro segurando os ativos. É o que você mantém na carteira que faz você ganhar dinheiro. Você deve descobrir quais ativos manter de uma maneira muito consciente por meio de pesquisa e reflexão sobre fatores de longo prazo que são importantes, e não entrando e saindo todas as vezes do mercado.

Em meu memorando recente, eu disse que se você esperar em um ponto de ônibus por tempo suficiente, você pegará um ônibus. Mas se você correr de um ponto de ônibus para outro, talvez nunca pegue um ônibus. Portanto, sugiro que encontre alguns bons investimentos com base em uma análise séria do futuro de longo prazo e mantê-lo. Não mude demais de ideia.

O mercado de capitais brasileiro é pequeno em comparação ao americano e houve um boom de novos investidores no mercado de ações durante a pandemia. O quão diferente o estilo do investidor brasileiro é em relação ao americano?

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Houve o mesmo fenômeno nos Estados Unidos. A maioria das pessoas estava em casa durante a pandemia, não havia esportes para assistir e muitos recorreram ao mercado de ações. E você sabe, quando você vai a uma pista de corrida [de um jockey] e decide escolher um cavalo para apostar, as pessoas gostam da cor de alguns e escolhem aleatoriamente. Isso é o que muitos fazem no mercado de ações: investidores iniciantes, nem todos, mas muitos deles não estudaram. Muitas pessoas entraram e disseram ‘isso é uma boa ideia, isso deve subir, meu amigo me disse para comprar isso’. Se você investir sem uma base sólida e análise, quando as coisas ficam difíceis, é difícil saber o que fazer e é difícil segurar.

Investimento não é algo fácil. Não é fácil ganhar dinheiro. As pessoas devem reconhecer esse fato e devem levar isso muito a sério. Não é como ir ao cinema ou a jogos de futebol. A maioria das pessoas leva uma abordagem séria para sua saúde, para seus assuntos jurídicos, seus bancos, e deveriam ter uma abordagem séria para seus investimentos. Foi relatado que o Robinhood, que foi um ponto central para esse aumento da atividade de investidores iniciantes, demitiu 23% de sua equipe. Então o ponto é que essas coisas foram exageradas e atraíram muitas pessoas que investiram sem uma base intelectual.

Essas pessoas investiram por diversão, e o investimento não deveria ser divertido. Talvez tenham feito isso para ficar rico rapidamente. Mas não é uma maneira de ficar rico rapidamente. Talvez seja o que deveria ser, uma busca séria, paciente e intelectual de ganhar dinheiro de forma constante ao longo do tempo.

Você mencionou o Robinhood e há muitas companhias que cresceram nos últimos anos no mercado financeiro. Alguns oferecem plataformas diferentes e até gamificação para investir. Como avalia esse fenômeno?

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Quando você diz gamificação, isso é feito de forma rápida, fácil, online, por diversão. Investir não é divertido. Requer trabalho duro.

Quando você pensa no movimento popular de investimento, você pensa em pessoas se reunindo, e se seus amigos estão comprando, então isso significa que vai ser bom. Mas é uma busca séria que você não deve fazer porque seu amigo está fazendo. Você deve fazer o trabalho ou confiar em alguém que o fez. Comprar algo apenas porque você acha legal ou divertido ou porque alguém me disse não é um bom motivo para investir.

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Então investimentos não deveriam ser divertidos. Mas como atrair pessoas para que entendam que isso é algo importante?

Eu me divirto fazendo isso. Mas eu me divirto intelectualmente. Como quando você estuda algo ou lê um bom livro. Mas não é divertido como um videogame, e acho que as pessoas deveriam entender que as economias e as empresas geralmente têm uma trajetória de crescimento, e investindo seu dinheiro você pode entrar nessa trajetória, e isso o deixará melhor financeiramente no longo prazo. O objetivo deve ser melhorar suas finanças a longo prazo de forma paciente, constante e gradual.

A especulação de alto risco geralmente não funciona por muito tempo. É mais fácil para pessoas com grandes quantidades de dinheiro obter conselhos, mas a chave é dar bons conselhos. Mas um jovem com pouco dinheiro deve ser capaz de encontrar um consultor financeiro que se interesse por ele e o ajude a longo prazo, na esperança de que esse jovem sem muito dinheiro ao longo do tempo consiga mais dinheiro e se torne melhor.

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Se suas expectativas são razoáveis, isso deve funcionar. Essa tendência subjacente das economias e das empresas trabalha a nosso favor. Apenas a deixe funcionar. Se você tiver apenas 10% [de retorno] ao ano e reinvestir os 10% compostos, você terá um novo montante para reinvestir, o que você tem que ganhar com seus ganhos. De forma constante, tenha o futuro trabalhando para você.

Na América Latina, com as fintechs, muitas pessoas começaram a investir porque passaram a ter acesso a contas bancárias. O que o senhor diria para pessoas mais velhas que têm uma quantia limitada de dinheiro que economizaram ao longo da vida? Como podem encontrar um bom investimento e o que deveriam fazer?

Eu posso enfatizar a seriedade dessa busca. A primeira coisa que essa pessoa deve fazer é estudar e ouvir o que o seu consultor financeiro pode sugerir. Normalmente ela pode ter um certo retorno com segurança e se quiser um retorno maior terá que correr algum risco. Então uma pessoa em qualquer idade deve se perguntar ‘eu estou confortável?’.

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Você ainda comete erros ao investir?

É claro. Investir é posicionar seu dinheiro para se beneficiar de desenvolvimentos futuros e eu acredito fortemente que ninguém sabe o que o futuro reserva, o que significa, por definição, que é algo que não pode ser feito perfeitamente. Você pode estar certo com mais frequência do que está errado? Os maiores investidores provavelmente estão certos em 70% do tempo. Certamente não 100%. Se você não negociar muito [com os ativos], isso deve funcionar no longo prazo.

O quanto de informação e de notícias você consome diariamente? E de que forma?

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Eu leio alguns jornais, principalmente no meu telefone. Mas, se voltarmos ao que conversamos no início, e se considerarmos que há coisas que são principalmente para o longo prazo, perceberá que não precisa ler o jornal todos os dias. Nada muda de um dia para o outro. E isso pode distraí-lo de estar com foco no longo prazo. É muito importante focar no longo prazo.

O meu último memorando enfatizou a importância de não se distrair no curto prazo. As pessoas me perguntam o que vai acontecer com a inflação, sobre o aumento de juros do Fed para cortar a inflação. Todas essas perguntas são de curto prazo. As pessoas devem se dedicar para questões de 10 a 20 anos. Você pode ter grandes empresas daqui a 10 a 20 anos, aquelas que têm uma base sólida hoje, gestão de produtos e que evoluirão no futuro. Você não vai encontrar isso nas redes sociais ou nos jornais.

No cenário atual, é hora de ser agressivo ou defensivo?

No meu mundo, que é mais centrado nos Estados Unidos, você deve manter seu comportamento habitual. Não é hora de ser excepcionalmente agressivo, porque há muitas incertezas, mas tampouco é hora de ser excepcionalmente defensivo, porque no meu mundo os preços dos títulos estão muito altos. A Oaktree está envolvida principalmente nos EUA, um pouco com a Europa e um pouco com a China. Não somos muito ativos na América Latina. Eu tento não falar muito sobre coisas que eu não sei.

Algum conselho para o investidor de qualquer idade?

Invista e continue investindo. Na maior parte do tempo. Não mude muito de ideia. Não negocie muito [no mercado]. Comprar e vender custa dinheiro e são uma distração. E tenha expectativas realistas. Leve isso a sério e entenda que o objetivo é aumentar gradualmente o seu dinheiro, de forma composta, não para ficar rico em um ano.

- Com assistência de Isabela Fleischmann

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Ana Siedschlag

Ana Carolina Siedschlag

Editora na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero e especializada em finanças e investimentos. Passou pelas redações da Forbes Brasil, Bloomberg Brasil e Investing.com.

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