Finanças pessoais

Selic a 13,75% ao ano e subindo: como investir no novo cenário visto pelo BC

Títulos do Tesouro, crédito privado e bolsa estão entre as principais recomendações de gestores de patrimônio, com diferenças nos perfis dos ativos

Banco Central contraria expectativas de parte do mercado e sinaliza continuidade do processo de alta dos juros
03 de Agosto, 2022 | 08:01 pm
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Línea — O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou a taxa Selic em meio ponto percentual neste fim de tarde de quarta-feira (3), para 13,75% ao ano. E sinalizou um novo aumento de menor magnitude na reunião de setembro, estendendo mais uma vez o ciclo de aperto monetário - que começou em março de 2021 -, na contramão das expectativas de parte do mercado.

Em um contexto de forte aperto monetário que não é exclusivo do Brasil, mas global, de forma a tentar conter a alta persistente da inflação e as expectativas desancoradas, investidores têm conseguido cada vez mais retorno em aplicações de renda fixa.

No entanto, mais do que oportunidades em ativos indexados às taxas de juros de dois dígitos ou na bolsa - após a forte onda vendedora dos mercados desde pelo menos o início do ano -, o investidor deve manter uma carteira diversificada, tanto em classes de ativos quanto de produtos, emissores e setores. É o que defendem especialistas consultados pela Bloomberg Línea.

Isso porque o cenário macroeconômico permanece volátil, com temores de recessão, tensões geopolíticas, bem como diante da proximidade da eleição presidencial no Brasil, que costuma trazer mais volatilidade aos preços dos ativos e a variáveis como a taxa de câmbio.

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Renda fixa: títulos públicos

A Selic em patamares elevados faz com que o investidor tenha que se movimentar menos para encontrar retornos considerados atraentes, dado que títulos públicos, por exemplo, oferecem taxas acima de dois dígitos, além de maior segurança, por terem risco soberano.

Enquanto manter recursos em aplicações pós-fixadas (atreladas à taxa básica), como o título Tesouro Selic, possa fornecer alta liquidez e um bom carrego, títulos atrelados à inflação (caso do Tesouro IPCA+) podem ser interessantes neste cenário de contínua escalada dos preços.

Renan Rego, sócio e gestor da gestora de patrimônio G5 Partners, conta que a maior posição dos clientes hoje está nesses papéis, com preferência pelos vencimentos mais longos, como 2035 e 2050, que pagam a inflação mais taxas acima de 6% ao ano.

Vencimentos de longo prazo nos títulos Tesouro IPCA+ também estão entre os preferidos de Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil Wealth Management, desde que o investidor tenha maior apetite ao risco e não precise de um fluxo de caixa maior no curto prazo.

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“O investidor precisa entender que a alocação em cada ativo deve estar alinhada ao seu perfil e momento de vida; se tiver necessidade de caixa de curto prazo, alongar o investimento pode não ser o ideal”, destaca.

André Ximenez, trader de multimercados da Infinity Asset, contudo, tem apostado mais em posições prefixadas e pós-fixadas em vez das atreladas à inflação, buscando capturar prêmio com a queda das taxas de juros futuros.

Nesse caso, as posições são em papéis de prazos mais curtos. A avaliação é que manter posições mais líquidas pode oferecer ao investidor recursos para aproveitar oportunidades em outras classes de ativos, conforme surjam.

Crédito privado

No crédito privado, Rego, da G5, também diz aproveitar oportunidades em papéis atrelados à inflação que têm oferecido taxas “atrativas” de IPCA mais 7,5% ou IPCA mais 8%, com vencimentos entre 2030 e 2035.

“A escolha entre títulos públicos ou privados atrelados à inflação vai depender do spread de crédito e da qualidade [do papel], dado que a forte entrada de recursos na renda fixa tem levado a um fechamento [queda] de spreads. Estamos mais criteriosos, mas ainda vemos boas oportunidades”, disse.

Já Barcellos, da Azimut, diz preferir papéis mais curtos no crédito privado, com prazos de até dois anos. Ele chama a atenção para debêntures de infraestrutura, por exemplo, que contam com a isenção de Imposto de Renda (IR) para a pessoa física – algo que é ainda mais positivo em um cenário de juros elevados, defende.

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No crédito, Ximenez, da Infinity, reforça a necessidade de uma análise criteriosa por parte do investidor, que deve avaliar qual é o prazo contratado no momento do investimento, qual o emissor, a empresa, bem como o setor no qual atua.

Bolsa barata

Independentemente da incerteza no cenário macro, algo com o qual todos os especialistas consultados pela Bloomberg Línea concordam é que a Bolsa brasileira está barata. Isso não significa que ela não possa cair mais, mas que os patamares hoje encontram-se muito mais favoráveis do que estavam há pouco tempo.

“O custo relativo está caro, por causa da Selic em dois dígitos, mas, em termos de múltiplo, a bolsa oferece uma oportunidade interessante de investimento”, diz Rego, da G5 Partners.

A alocação, segundo ele, pode ser feita via fundos de ações, por causa da expertise do gestor. A avaliação é que a queda desses fundos no ano em relação ao Ibovespa tem sido muito em razão de a bolsa ter se sustentado em cima de commodities e bancos.

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“No cenário atual, quando olhamos os múltiplos da Bolsa ex-Petrobras (PETR4) e ex-Vale (VALE3) [ou seja, excluindo as as ações das duas companhias], ela está ainda mais barata, o que sustenta uma alocação em fundos de ações mesmo com as quedas recentes”, diz o alocador.

Barcellos, da Azimut, também vê a bolsa bastante descontada e atrativa para o investidor com foco no longo prazo. Isso porque em um horizonte mais próximo é possível que o investidor não enxergue o retorno desejado diante do cenário ainda nebuloso.

Entre alguns fatores que podem destravar uma alta da Bolsa, Ximenez, da Infinity Asset, destaca a queda da inflação, a retomada dos estímulos na China, bem como uma melhora no âmbito fiscal, no Brasil.

Diversificação é chave

Além de produtos de renda fixa e de ações na bolsa, investidores podem encontrar ainda oportunidades em outras classes de ativos, ampliando a diversificação da carteira e mitigando o risco.

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É o caso, por exemplo, dos fundos multimercados, que funcionam como “camaleão” e permitem a alocação em diferentes mercados, como juros, bolsas e câmbio.

Rego, da G5 Partners, chama a atenção para o bom desempenho de alguns gestores de multimercados no primeiro semestre e diz que os clientes da gestora costumam ter entre 10% e 20% do portfólio alocado na classe.

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O foco do investimento, contudo, deve ser de médio e longo prazo, segundo Barcellos, da Azimut, com horizonte mínimo de três anos, de forma a proporcionar maior probabilidade de sucesso.

Para ele, algo que não deve faltar na carteira do investidor são ativos no exterior. Isso porque são posições estratégicas que contribuem para a diversificação e importantes para o longo prazo.

“É garantido que no futuro vamos ter uma crise e novas turbulências. Como temos certeza da incerteza do futuro, não deveríamos ter sobre o portfólio hoje – por isso a diversificação é tão importante”, diz.

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Renato Naigeborin, sócio da EnterCapital, chama atenção ainda para os fundos quantitativos, que são descorrelacionados e tentam encontrar alguns padrões de mercado para otimizar as alocações.

Ele cita, por exemplo, estratégias que buscam valor relativo com base no fundamento das empresas, outras que usam diferentes dados de mercado para reconhecimento de padrões, bem como a análise de eventos similares no passado – como ciclos de alta dos juros – para entender como o mercado se comportou.

“Muitas das estratégias nos fundos quant não tomam posições direcionais nos mercados, o que contribui para momentos de incerteza em que é mais difícil ter como certo um cenário”, diz.

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Mariana d'Ávila

Mariana d'Ávila

Redatora na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.

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