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Finanças pessoais

Como ficam os investimentos com juros em alta no Brasil e no mundo?

Hora de buscar oportunidades na bolsa ou de manter a cautela na renda fixa? Especialistas consultados pela Bloomberg Línea respondem

Novo cenário para os juros no Brasil e no mundo e queda das ações impactam a alocação de recursos por parte dos investidores
16 de Junho, 2022 | 08:06 am
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Línea — O ciclo de aumento de juros na economia brasileira vai continuar. O Banco Central deixou aberta a porta para uma nova alta no próximo encontro do Copom (Comitê de Política Monetária), no início de agosto, para surpresa de parte dos estrategistas de mercado. A taxa foi elevada nesta quarta-feira (15) para 13,25% ao ano. A mudança das perspectivas demanda do investidor uma reavaliação do seu portfólio.

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Com a taxa básica de juros no maior patamar desde dezembro de 2016, em um cenário ainda de grande incerteza, a tendência é que ativos de renda fixa devem continuar a ganhar peso na carteira de investidores, segundo especialistas consultados pela Bloomberg Línea.

Ativos pós-fixados ganham a atenção neste contexto, pois estão atrelados ao CDI, o principal benchmark de renda fixa e que tem a Selic como referência. No ano, o CDI tem variação de 4,85% e, em 12 meses, de 8,31%.

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Na XP Investimentos, Rodrigo Sgavioli, head de alocação e fundos, explica que esses títulos devem ser escolhidos pelo investidor que quer reduzir o risco da carteira. Isso permitirá passar por este momento mais volátil do mercado com ativos que têm taxas de retorno atrativas, na casa de dois dígitos.

A alocação também pode servir como um “pit stop oportuno”, segundo ele: uma forma a deixar o dinheiro alocado em um produto de alta liquidez (fácil de ser resgatado) como uma reserva de oportunidade.

Victor Inoue, head da área de produtos da WIT Invest, diz que esses papéis, como o título público Tesouro Selic, devem ser avaliados principalmente para aplicações de curto prazo (entre seis meses e um ano). Isso porque o rendimento é atrelado à Selic em um cenário em que o mercado não prevê ainda a queda dos juros no curto prazo.

Títulos pós-fixados, contudo, podem perder para a inflação em um cenário de forte aumento dos preços. No ano, o IPCA tem alta de 4,78% até maio e de 11,73% em 12 meses. Com isso, a recomendação é diversificar, incluindo papéis atrelados à inflação, caso do título público Tesouro IPCA+ (antiga NTN-B).

“Esses títulos [Tesouro IPCA+] vêm apresentando oportunidades de travar uma taxa de juro real bem ‘gorda’, na casa dos 5%, 6%”, avalia Sgavioli. Ele destaca ainda as alternativas no crédito privado – para investidores com maior tolerância a risco –, com papéis com bons ratings (notas de crédito) oferecendo spreads de até 8% acima da inflação. São retornos acima da variação dos preços.

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Hoje, a alocação em renda fixa atrelada ao IPCA corresponde a cerca de 10% a 20% nas carteiras dos clientes na XP. Nos títulos públicos, a preferência é por aqueles com vencimentos mais curtos, como 2026 e 2035, dado que, quanto mais longo o prazo, maior é o risco embutido.

“Por mais que a inflação no Brasil e no mundo ceda em algum momento, vamos conviver por algum tempo com uma inflação média global maior do que estávamos acostumados.”

Crédito privado

Nos títulos privados de renda fixa, Marcos Iório, gestor da Integral Investimentos, destaca o recorde de emissões no ano em maio, com oportunidades em debêntures (títulos emitidos por empresas). Hoje, debêntures de infraestrutura “AAA” (nota máxima de crédito, o que significa risco baixo), por exemplo, pagam um spread “atrativo” de CDI mais 1,5%, conta, enquanto empresas com rating “AA-” ou “A+” podem pagar CDI mais 2%.

Para o investidor pessoa física, Iório sugere fundos de debêntures em vez da compra direta do papel, o que permite maior diversificação e liquidez, sem perder o benefício da isenção de Imposto de Renda.

Fundos multimercados

Na avaliação de Inoue, da WTI, o cenário atual é favorável para a alocação em fundos multimercados, uma vez que muitos dos gestores “estão acostumados com um mundo de juros voláteis”, contribuindo para a geração de alfa (capacidade de obter retornos acima da média do mercado).

“Quando vemos gestoras como SPX, Ibiuna e ASA, por exemplo, elas têm conseguido performar bem, operando não apenas juros no Brasil como no mundo, em um cenário de taxas em níveis que os países desenvolvidos não viam por muito tempo”, diz.

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A avaliação é compartilhada por Sgavioli, da XP, que também defende uma seleção de gestores para a composição da carteira. Para o investidor conseguir bons retornos, diz, não é preciso ter uma fatia muito grande do portfólio alocada na classe (mais de 20%): pode ficar entre 5% e 10%. Mas é preciso ter visão de longo prazo e analisar sempre fatores como um histórico mínimo de três anos de performance e o retorno em momentos de crise como o começo da pandemia, em 2020.

Hora de cautela na Bolsa?

Com os mercados em forte liquidação, investidores se questionam se é momento de aproveitar para comprar pechinchas na Bolsa. Para especialistas, ainda é necessário cautela.

“O mercado ainda está fazendo uma leitura dos dados dos Estados Unidos. A probabilidade de uma recessão por lá aumentou e isso prejudicaria nossas empresas de commodities, que foram favorecidas neste ano”, afirma Inoue, da WIT Invest.

Para o investidor que quiser manter uma parcela alocada na renda variável, a busca deve ser por empresas consideradas mais defensivas: isso significa as que são menos endividadas no curto prazo e que consigam repassar o aumento dos preços para o consumidor, caso do setor de utilities, diz. São as empresas que prestam serviços como fornecimento de energia ou água e cujos reajustes estão previstos em lei.

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Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, aponta que a relação entre preço e lucro mostra que a Bolsa brasileira está barata quando se analisa e se compara com a média histórica, mas reforça que a volatilidade deve perdurar e que a Bolsa pode cair ainda mais neste cenário de alta de juros e de inflação, bem como com as eleições presidenciais se aproximando.

Se o investidor tem maior apetite ao risco, ele pode aproveitar o momento para comprar aos poucos, com parcimônia, diz Sgavioli, da XP. Ou então deixar uma reserva de oportunidade para quando se sentir confortável, montar uma carteira ou investir em fundos de ações.

Uma combinação entre fundos long only (que têm a maior parte do portfólio comprada em ações, apostando na alta) e long biased pode ser interessante, segundo o especialista, para que o investidor não fique “100% exposto ao risco”, com uma parcela em posição vendida e com proteções.

Cripto: dessa vez é diferente

Assim como o mercado de ações, o de criptoativos também tem visto um forte sell-off diante da fuga de investidores de ativos de risco. O bitcoin, por exemplo, acumula baixa da ordem de 52% no ano.

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“O aumento de participação das moedas digitais nos portfólios ao redor do mundo amplia a liquidez desses ativos, mas, por outro lado, faz com que ganhem mais correlação com as classes tradicionais de investimento”, afirma o especialista da WTI, chamando a atenção para as quedas recentes.

Sgavioli, da XP, vê o momento como de consolidação do mercado cripto: “Não acho que as criptos vão morrer, mas desta vez é diferente. Pela primeira vez em dois anos não há o excesso de liquidez que o mundo injetou.”

Segundo ele, o momento atual é um divisor de águas e tende a contribuir para uma “peneira” dos ativos, sobrevivendo apenas as teses mais resilientes. Como a XP não está mais cautelosa com ativos internacionais, é uma tese que fica de fora das carteiras. “Mas as fortes quedas podem abrir oportunidade de entrada para quem tem tolerância a um risco grande.”

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Mariana d'Ávila

Mariana d'Ávila

Redatora na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.