Petrobras: perspectiva da ação muda com troca de CEO? Analistas respondem

Papeis da companhia caem perto de 4%; nova mudança no comando expõe aumento do risco político nos próximos meses

Se aprovado pelo conselho de administração, Paes de Andrade será o terceiro CEO da Petrobras apenas em 2022 e o quarto em pouco mais de um ano
24 de Maio, 2022 | 01:56 PM

Bloomberg Línea — O Ministério de Minas e Energia anunciou na noite de segunda-feira (23) a troca no comando da Petrobras (PETR3; PETR4), indicando Caio Paes de Andrade como próximo CEO da petroleira. Se aprovado pelo conselho de administração da estatal, ele será o terceiro CEO da companhia apenas em 2022.

Paes de Andrade foi nomeado em um contexto de alta pressão política sobre os preços dos combustíveis e depois que Adolfo Sachsida assumiu o cargo de novo Ministro de Minas e Energia, no início de maio.

Com a quarta troca no controle da gigante petroleira em 15 meses, o que muda em relação ao risco político da empresa para o investidor? Ainda faz sentido ter ações da companhia? Na avaliação de analistas do mercado financeiro, a notícia é negativa para a Petrobras e pesa sobre a governança corporativa, reforçando possíveis interrupções e algumas preocupações de interferência política.

O resultado inicial tem sido uma forte queda das ações da companhia em Nova York e na Bolsa brasileira, com perdas da ordem de mais de 4% dos papéis PETR4 na B3 nesta terça (24), por volta das 12h50 (horário de Brasília).

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Para a casa de análise Levante Investimentos, independentemente da qualificação do indicado para assumir o cargo, uma nova troca no comando da estatal “cria turbulências desnecessárias na companhia”, aumentando as incertezas com relação ao seu futuro.

A avaliação de analistas é que a troca não resolve o principal problema que o governo diz estar tentando resolver, que é a alta dos combustíveis. “Esse é um assunto complexo que o mundo todo está enfrentando, para o qual não há uma solução simples para resolvê-lo no curto prazo”, escrevem.

O time de análise estima uma defasagem da gasolina e do diesel em R$ 1,69 e R$ 0,38 por litro, reforçando que “um reajuste nos preços se faz extremamente necessário no curto prazo para evitar um desabastecimento de combustíveis no país”.

Com a troca de CEO, a Levante diz não descartar a possibilidade de alteração no prazo de apuração na política de preços da companhia, “visando um aumento temporário de popularidade do governo”. “Esta mudança traria impactos severos na companhia, assim como na economia brasileira. Uma mudança no plano de investimentos também pode ser prejudicial, reduzindo o montante que pode ser destinado aos dividendos, que vêm atraindo investidores para o papel”, completa a casa.

Em relatórios divulgados nesta terça, a Guide Investimentos e a Ativa Investimentos também questionam uma possível mudança na política interna da estatal (tal como o Preço de Paridade de Importação – PPI), abrindo espaço para a vigoração mais perene de preços defasados frente aos praticados no mercado internacional.

Para analistas, um reajuste nos preços é necessário no curto prazo para evitar um desabastecimento de combustíveis no país

Proximidade com Guedes

Em relatório divulgado nesta manhã, o Credit Suisse diz não esperar no curto prazo mudanças significativas na política de preços da Petrobras ou na estratégia geral da empresa focada em E&P (exploração & produção) em águas ultraprofundas e pré-sal.

“No entanto, em nossa opinião, as mudanças recorrentes para o cargo de CEO aumentam substancialmente a percepção de riscos para o caso de investimento da Petrobras, principalmente porque essas mudanças foram anunciadas após os ajustes da estatal nos preços domésticos de combustíveis”, escrevem os analistas Regis Cardoso e Marcelo Gumiero, que assinam o relatório.

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O Credit Suisse tem recomendação outperform (performance acima da média do mercado) para os ADRs da companhia e preço-alvo de US$ 17, ante fechamento de US$ 16,26 na segunda (23).

A avaliação é compartilhada pela XP Investimentos, que destaca que tal rotatividade não é saudável para nenhuma empresa, mas que não vê isso como uma mudança na política de preços de combustíveis da Petrobras. A justificativa é que a Lei das Estatais e o estatuto da Petrobras devem blindar a empresa de subsidiar combustíveis como no passado recente (até o governo Dilma), bem como o fato de que Paes de Andrade é “fortemente” ligado a Paulo Guedes, que em tese não é a favor de mudanças na política de preços de combustíveis da Petrobras.

“A princípio, a mudança deve ter os mesmos efeitos que no comando do MME: trocam-se os chefes, mas as políticas permanecem as mesmas”

escrevem os analistas da XP Investimentos

Mesmo com o que considera excesso de barulho político, a XP ainda vê o caso da Petrobras como assimétrico, respaldado por um múltiplo “muito baixo”, de 2,4 vezes o valor da empresa sobre o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês), versus 3,4 vezes das grandes petrolíferas ocidentais. Isso significa que a ação está mais atraente do que a de seus pares.

Um forte fluxo de dividendos, com yield esperado de 24% para 2022 e da ordem de 100% para os próximos cinco anos, também aparece entre as justificativas.

A XP manteve sua recomendação de compra com preço-alvo de R$ 47,80 para as ações brasileiras (PETR3; PETR4) e US$ 18,40 para as ADRs.

Assim como o Credit Suisse e a XP, o UBS BB também não espera mudanças na política de preços ou na estratégia geral da Petrobras. A visão é suportada pelo mandato potencialmente curto (dado que as eleições presidenciais serão realizadas ainda neste ano) e, também, por acreditarem ser improvável que Paes de Andrade faça grandes mudanças e arrisque mudanças na estratégia da empresa. O banco tem recomendação de compra para as ações preferenciais da Petrobras (PETR4) e preço-alvo de R$ 45 para os próximos 12 meses.

Teste de fogo à frente?

Embora a governança corporativa da Petrobras tenha evitado até agora interferências mais diretas, o BTG Pactual teme que o verdadeiro teste ainda esteja por vir. “Nossa principal preocupação é se os próprios mecanismos de proteção da Petrobras contra interferência podem sair pela culatra”, escrevem os analistas Thiago Duarte, Pedro Soares e Bruno Lima, que assinam o relatório publicado nesta terça (24).

Segundo o time de análise de ações para o setor, o governo está cada vez mais consciente de que tem pouco a fazer sobre as decisões diárias da empresa e que o ônus político associado aos altos preços dos combustíveis recai quase inteiramente sobre ele. Para o BTG Pactual, apesar de o cenário favorecer a tese da privatização, o resultado é ainda mais improvável em ano eleitoral.

“O evento de ontem corrobora nossa visão de que as ações da Petrobras permanecerão altamente voláteis, pois os investidores percebem um alto risco associado à continuidade do fluxo de dividendos. Além disso, achamos que ajuda a explicar por que a ação não conseguiu reavaliar e fechar a diferença de avaliação em relação a seus pares, mesmo após vários trimestres de resultados financeiros e operacionais positivos”, escreve o time. “Permanecemos neutros e preferimos investir no tema petróleo via outros ativos do setor.”

Momento negativo para o acionista

Com as novas interferências na companhia e em meio ao cenário eleitoral, o ambiente pode não ser positivo para os acionistas da Petrobras, avalia Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos. Segundo ele, dada a defasagem de preços dos combustíveis desde o começo do ano e com as sinalizações do governo de querer impedir novos reajustes, os papéis devem ser revisados para baixo pelo mercado.

“Para o acionista de Petrobras, que está com papel na carteira, o cenário significa uma receita menor do que estava sendo projetada anteriormente. Seria interessante começar a pensar em sair [da posição], porque os próximos meses não serão fáceis”, diz.

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Mariana d'Ávila

Editora assistente na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.