Finanças pessoais

‘Você ainda vai ouvir muito sobre FIDC daqui para frente’, mas o que é?

O FIDC é considerado um ativo de proteção de uma carteira, um instrumento que traz retorno e amortece a volatilidade

“O FIDC está lá para te proteger, com potencial de retorno maior que a renda fixa tradicional, e sem a volatilidade. Todo mundo deveria ter, em qualquer hora.”
15 de Março, 2022 | 01:33 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Línea — Os FIDCs ainda são um universo exclusivo dos investidores qualificados - aqueles com mais de R$ 1 milhão em patrimônio, segundo regulação da Comissão de Valores Mobiliários. Mas conforme os investidores de varejo se interessam por opções de diversificação, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios se popularizam na mesma proporção.

O que é FIDC?

Um FIDC é um fundo de renda fixa que tem a função de antecipar o recebimento de um crédito. Para o investidor, confere um retorno acima da renda fixa tradicional por adicionar risco de crédito. Ele é considerado um ativo de proteção de uma carteira, um instrumento que traz retorno e amortece a volatilidade em meio a demais ativos de risco. Ainda assim, é mais arriscado se comparado a ativos de renda fixa tradicionais.

Conforme definição da própria B3, esses fundos “são uma forma de investimento em renda fixa constituídos sob a forma de condomínio aberto, em que os cotistas podem solicitar o resgate de suas cotas de acordo com o disposto no regulamento do fundo, ou fechado, em que as cotas somente são resgatadas ao término do prazo de duração do fundo, de cada série ou classe de cotas conforme seu regulamento, ou em virtude de sua liquidação. Admite-se ainda, a amortização de cotas por disposição do regulamento ou por decisão da assembleia geral de cotistas.”

“Um fabricante de produtos lácteos, por exemplo, que vende para supermercados para receber dali 60 dias. O que o FIDC faz é: ‘se você tem R$ 100 para receber depois, eu compro por R$ 94 hoje e eu [FIDC] recebo do mercado depois’”, explica Ricardo Binelli, sócio-diretor da Solis Investimentos, em entrevista à Bloomberg Línea.

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Os direitos creditórios que compõem a carteira de ativos de um FIDC, são provenientes dos créditos que uma empresa tem a receber, como duplicatas, cheques e outros”, diz a definição da administradora da bolsa de São Paulo.

O FIDC tem uma estrutura de pelo menos duas classes de cotas, que é o que ajuda a dar mais proteção a esse tipo de investimento: a cota subordinada e a cota sênior. A cota subordinada é a responsável por absorver a inadimplência, assume mais riscos e recebe um valor maior caso o desempenho do fundo supere a expectativa. Já a cota sênior recebe o rendimento prefixado e tem prioridade no recebimento de juros e amortizações.

O regulamento de cada fundo diz quais tipos de créditos podem ser comprados, sendo nos segmentos financeiro, comercial, industrial, imobiliário, de hipotecas, de arrendamento mercantil e de prestação de serviços.

“O nível de perdas dos FIDCs é muito baixo. É um instrumento que opera a uma taxa de juros capaz de pagar bom retorno e com um nível de proteção por uma grande estrutura.”

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Potencial futuro

Hoje em dia existem cerca de 320 fundos de direito creditório negociados na B3. E conforme Binelli, a tendência é que a busca do investidor de varejo aumente sobre o assunto - e, consequentemente, a oferta também.

O FIDC já está ganhando protagonismo com a Agenda BC#, do Banco Central, que deve ampliar a oferta de crédito nos mercados, e isso não vai ficar mais nas mãos somente de grandes bancos, como explica Binelli.

Além disso, a CVM está em estudos para ampliar a regulação, após audiência pública, que tende a abrir os FIDCs para o público em geral, já que hoje esses fundos são somente para investidores qualificados.

“A hora que isso acontecer, haverá um aumento muito forte da demanda e um incentivo muito grande para que mais operações de crédito sejam estruturados em forma de FIDC. Pode se preparar que você vai ouvir falar muito mais de FIDC daqui para frente.”

Para o sócio da Solis Investimentos, a expectativa é de que no próximo semestre a CVM tenha alguma conclusão sobre os estudos.

Procurada pela Bloomberg Línea, a CVM esclareceu que o tema consta na agenda regulatória de 2022. Ou seja, há uma previsão de publicação da nova regra ainda este ano, mas sem a previsão de uma data. “O próximo passo é a revisão das sugestões pela equipe técnica, depois a elaboração de um relatório, um trabalho minucioso; depois disso, vai ao colegiado da CVM para aprovação ou não da regra”, disse uma porta-voz da reguladora.

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Qual momento de entrar em um FIDC?

Para Binelli, o FIDC não é um instrumento tático, ou de ondas, mas sim para ter sempre cumprindo papel de agregar retorno e tirar volatilidade. “Tem que ter sempre FIDC.”

“Os FIDCs sempre têm um prêmio em relação a aplicações de renda fixa tradicionais. Enquanto uma debênture paga CDI+2%, os FIDCs estão em CDI+4%, ou +4,5%,” diz Binelli. “Se a renda fixa está chamando a atenção do investidor em tempos de taxa básica de juros altas, os FIDCs chamam muito mais.”

“Ainda que se tenha uma economia com crescimento menor, sem uma dinâmica tão intensa, empresas com lucros menores, toda proteção do FIDC permite trafegar muito bem em termos de crédito. A inadimplência vai acontecer, mas a estrutura vai proteger o investidor de forma que se beneficie e continue ganhando dinheiro sem emoções nesse período.”

O economista conclui que o pano de fundo brasileiro atual é de “muitas incertezas”, entre contas públicas com possibilidades de aumento de gastos, questão eleitoral e a perspectiva econômica de crescimento baixo. “O FIDC está lá para te proteger, com potencial de retorno maior que a renda fixa tradicional, e sem a volatilidade. Todo mundo deveria ter, em qualquer hora.”

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Kariny Leal

Kariny Leal

Jornalista carioca, formada pela UFRJ, especializada em cobertura econômica e em tempo real, com passagens pela Bloomberg News e Forbes Brasil. Kariny cobre o mercado financeiro e a economia brasileira para a Bloomberg Línea.

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