Bloomberg Opinion — Na véspera do falso “referendo” que entregou a Crimeia à Rússia de Vladimir Putin em 2014, marchei contra a anexação com dezenas de milhares de outros moscovitas - mas a maioria dos russos apoiou a medida, e a popularidade de Putin, que foi medida por sociólogos independentes, atingiu níveis nunca vistos antes ou depois. Agora que o ditador lançou um ataque total à Ucrânia, não haverá protestos em larga escala nem aumento de popularidade. Sete anos depois, a Rússia é um país diferente – que permite que Putin a ignore.
Isso, no entanto, dificilmente será sustentável.
Na época da aventura da Crimeia, a Rússia ainda tinha uma oposição política ativa. O ex-vice-primeiro-ministro, Boris Nemtsov, ainda estava vivo e protestava ruidosamente contra a anexação. A maioria dos meus amigos viu a mudança como o fim do caminho civilizado europeu da Rússia, uma grande derrota para o projeto de liberdade lançado pela queda da União Soviética. Em 2022, a oposição foi esmagada, perseguida no exílio ou na clandestinidade. Nemtsov foi assassinado em 2015. hoje, quando Alexei Navalny se pronuncia contra a guerra na Ucrânia, ele o faz de uma colônia penal onde está preso há um ano e onde está sendo julgado por outras acusações forjadas. E quando um dos tenentes de confiança de Navalny, Leonid Volkov, xinga Putin no Telegram e expressa a esperança de que o ditador tenha dado um passo maior do que as pernas, ele o faz em relativa segurança em um país da União Europeia.
Alguns artistas, personalidades da TV, escritores e influências de redes sociais – nem todos eles ainda morando na Rússia – expressaram seu choque e desgosto. O ganhador do Prêmio Nobel da Paz, Dmitry Muratov, editor do Novaya Gazeta, ainda autorizado a publicar com base concessões entre ele e o Kremlin, prometeu lançar uma edição em russo e ucraniano em protesto contra a guerra. Jornalistas, acadêmicos e mais de 100 legisladores locais assinaram apelos contra a guerra. Mas nenhum deles liderará uma grande marcha pelas ruas de Moscou: a máquina de repressão de Putin agora funciona preventivamente para neutralizar os protestos. A ativista Marina Litvinovich, que convocou protestos de rua na quinta-feira (24), foi detida. Os russos que se atrevem a sair às ruas em todo o país provavelmente enfrentam a mesma perspectiva: avisos oficiais já foram emitidos.
Mas, embora não haja imagens de grandes marchas para provar que nem todos os russos aceitam a agressão de Putin, nenhuma pesquisa também exibirá um aumento em sua popularidade. O regime praticamente eliminou agentes de pesquisas independentes, mas mesmo os leais ao Kremlin não estão registrando níveis de aprovação semelhantes aos tempos da Crimeia. O VTsIOM, por exemplo, relatou na quarta-feira (24) 73% de apoio ao movimento anterior, muito menos radical, de Putin – o reconhecimento das “repúblicas populares” separatistas do leste da Ucrânia. Em 2014, o mesmo pesquisador mediu o apoio popular à anexação da Crimeia, que foi de 93%.
Uma nova pesquisa encomendada pela CNN mostra 50% de apoio na Rússia para uma ação militar para impedir que a Ucrânia se junte à OTAN – mas mesmo esse número parece alto. A desconfiança dos entrevistados russos nos pesquisadores – e se eles trabalharem para as autoridades? — é uma fonte constante de distorções.
Em março de 2014, o apoio a Putin atingiu 80%, de acordo com um dos poucos institutos de pesquisa independentes restantes, o Levada Center – e continuou aumentando à medida que a Crimeia foi integrada à Rússia. No mês passado, com a propaganda já exibindo uma mensagem anti-Ucrânia, a classificação de Putin ficou em 69%, perto do nível pré-Crimeia. É improvável que aumente quando as sanções ocidentais contra a Rússia atingirem força total – e os russos sabem que elas estão chegando. Há filas nos bancos para sacar dólares e euros. O maior banco estatal, o Sberbank, publicou brevemente um aviso em seu site de que poderia ser atingido em breve por sanções, dificultando as coisas para mais de 100 milhões de clientes, mas rapidamente o derrubou, alegando um erro de software.
O momento da Crimeia foi de euforia para muitos, já que a península era amplamente vista como histórica e etnicamente russa. Quase ninguém falava ucraniano lá, mesmo antes de 2014, e a falta de respeito pelas autoridades ucranianas era palpável. A grande base naval russa, com um histórico de muitas guerras, contribuiu para a percepção, fortemente promovida pelos veículos de propaganda, de que a Crimeia estava “voltando para casa”. Mas mísseis russos chovendo nos arredores de Kiev e Kharkiv, depósitos de armas explodindo perto de cidades ucranianas pacíficas – isso, para muitos dos mesmos russos que saudaram a anexação de 2014, são pesadelos. Os ucranianos são amplamente percebidos como um povo fraterno; de acordo com estatísticas oficiais, a Ucrânia está no topo da lista de países com maior propensão por parte dos russo de encontrarem parceiros e parceiras para se casar. Não importa o que Putin possa dizer sobre “desnazificar” a Ucrânia, muitos russos têm laços familiares e amizades no país vizinho; eles conhecem seus amigos e parentes e sabem que não são nazistas.
A maior estrela do YouTube da Rússia, Yury Dud, falou por muitos compatriotas pouco antes da invasão quando disse: “Eu cresci na Rússia, a Rússia é minha pátria e tenho orgulho de ter uma tatuagem do tricolor russo no meu antebraço. Mas hoje, meu apoio vai para a Ucrânia, terra natal de meus parentes e lar de meus amigos.”
Não que Putin se importe, pelo menos por enquanto. É bem possível que todas as medidas realizadas pelo regime nos últimos dois anos, a repressão à oposição, os riscos muito maiores de protestos de rua, tenham sido uma forma de preparação para este momento. Putin está tão isolado das ruas russas agora, que seu regime não está em perigo, não importa quais medidas drásticas e impopulares ele tome. O que é menos certo é o quadro de longo prazo, com crescente isolamento econômico, potencial paralisação dos mercados financeiros, perda de clientes exportadores de hidrocarbonetos. A reserva financeira da Rússia, incluindo US$ 643 bilhões em reservas internacionais, pode durar muito tempo, mas não para sempre se a determinação do Ocidente de manter sanções punitivas perdurar. Em um país tão grande quanto a Rússia, manter um clima de repressão em meio ao declínio econômico não será uma proposta fácil, mesmo para um ditador tão experiente e implacável quanto Putin.
Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.
Leonid Bershidsky é membro da equipe da Bloomberg News Automation com sede em Berlim. Anteriormente, foi colunista da Bloomberg Opinion na Europa. Recentemente, ele assinou uma tradução de “1984″, de George Orwell para o russo.
– Esta coluna foi traduzida por Marcelle Castro, Localization Specialist da Bloomberg Línea.
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