Finanças pessoais

4 impactos da guerra na Ucrânia sobre o Brasil e o seu bolso

No primeiro momento, inflação global de commodities pode piorar o quadro econômico aqui; depois, a incerteza sobre insumos afeta o agro

Inflação de commodities é o primeiro impacto do conflito no país: preços do trigo e do petróleo em forte volatilidade
25 de Fevereiro, 2022 | 05:05 pm
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg Línea — A invasão do país pelas tropas de Vladimir Putin tende a impactar o Brasil em duas frentes:

a) a guerra já acentua a inflação global das commodities, como trigo e petróleo, o que afeta a economia brasileira de forma colateral;

b) o impacto mais direto será sobre o comércio bilateral. Embora nem Rússia nem Ucrânia estejam entre os 10 maiores parceiros comerciais do Brasil, há setores sensíveis das relações com estes países.

O agronegócio, que já vinha sofrendo desabastecimento e forte inflação de fertilizantes, agora tende a enfrentar uma nova camada de incertezas quanto à disponibilidade de insumos agrícolas.

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Veja mais: O que o Brasil vende para a Ucrânia?

#1 – Trigo

Os preços globais do trigo podem sofrer um reajuste de ao menos 10% no curto prazo, de acordo com uma estimativa do Rabobank, obtida pela Bloomberg News. O banco holandês, que é um dos grandes players em commodities agrícolas, prevê alta de até 60% no custo da tonelada se o conflito se estender até julho, quando a colheita nas lavouras do Mar Negro começam.

Exportações de cereais dos dois países já estão paralisadas ou sendo obrigadas a pagar um prêmio alto de seguros por conta da guerra. Juntas, Rússia e Ucrânia são responsáveis por mais de um quarto das exportações globais do cereal.

O Brasil importa 60% do trigo que consome. Em 2021, o país importou 6,1 milhões de toneladas do grão. Os principais fornecedores são, pela ordem, Argentina, Estados Unidos, Paraguai, Uruguai e Canadá. Embora não corra o risco de desabastecimento por não depender diretamente, a alta do preço internacional deve ter impacto na inflação brasileira.

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#2 – Petróleo

A Rússia é um dos maiores produtores de petróleo do mundo. De acordo com BP Statistical Review of World Energy 2021, a Rússia produziu 10,1 milhões de barris por dia (BPD) de petróleo bruto e condensado de gás natural em 2020. Segundo a Bloomberg News, importadores chineses já estão suspendendo compras de petróleo russo e compradores de outros países asiáticos estão tentando assegurar as linhas de crédito existentes necessárias para adquirir.

A guerra trouxe mais volatilidade aos preços. Na quinta-feira (24), dia do início da invasão, a cotação do barril ultrapassou US$ 105 pela primeira vez desde 2014.

No Brasil, o diretor-executivo de Comercialização e Logística da Petrobras (PETR4), Cláudio Mastella, disse que a companhia avaliará os impactos da alta volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional, após a invasão da Ucrânia, antes de tomar qualquer decisão sobre os preços.

A recente desvalorização do dólar frente ao real tem ajudado a manter preços inalterados desde 12 de janeiro, segundo ele. Desde 2017, a Petrobras tem uma política de reajuste de preços ao consumidor brasileiro conforme um critério de paridade com os preços internacionais do petróleo.

Veja mais: Bolsonaro evita condenar invasão da Ucrânia pela Rússia em live

Valvula de tubería petrolíferadfd

#3 – Fertilizantes

A questão mais crítica é a importação de fertilizantes, fundamentais para a agricultura. O Brasil compra no exterior 85% do volume que precisa aplicar nas suas lavouras. Metade do que o país importa vem da Rússia (30%) e de Belarus (20%), ex-república soviética no leste europeu que enfrenta sanções europeias e americanas por conta de violações de direitos humanos.

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Em novembro de 2021, a ministra Tereza Cristina, da Agricultura, viajou à Rússia para negociar a garantia de fornecimento de fertilizantes ao país. Esta questão foi um dos principais pontos da agenda bilateral do encontro do presidente Jair Bolsonaro e Vladimir Putin, em Moscou, este mês.

Veja mais: Crise na Ucrânia pode atrasar retirada de estímulo na UE, diz membro do BCE

Mesmo que haja garantias de fornecimento, o quadro de embarques nos portos russos se tornou caóticos desde a invasão da Ucrânia, diminuindo a oferta de navios e com seguradoras cobrando altos prêmios por conta da guerra.

Planta da PhosAgro PJSC na Rússiadfd

#4 – Comércio exterior e sanções

Outro desdobramento ainda incerto é o das exportações brasileiras para a Rússia. O primeiro impacto já sentido é o logístico, já que a operação nos portos do país caiu substancialmente nos últimos dias. Soja e frango foram responsáveis com quase meio bilhão de dólares em receitas.

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Mais uma questão incerta é o que ocorrerá nos próximos meses, já que o país passou a enfrentar uma nova onda de sanções, que abrangem também parte do sistema financeiro.

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Graciliano Rocha

Graciliano Rocha

Editor da Bloomberg Línea no Brasil. Jornalista formado pela UFMS. Foi correspondente internacional (2012-2015), cobriu Operação Lava Jato e foi um dos vencedores do Prêmio Petrobras de Jornalismo em 2018. É autor do livro "Irmã Dulce, a Santa dos Pobres" (Planeta), que figurou nas principais listas de best-sellers em 2019.