Negócios

Mais um clube de futebol decide virar SAF para atrair investidor

União São João de Araras, que revelou o pentacampeão Roberto Carlos, contrata escritório de advocacia para se transformar em SAF

Jean Cioffi, CEO do escritório de advocacia empresarial JRClaw, diz que, combinando a Lei da SAF com a Lei de Recuperação Judicial, clubes de futebol podem trazer a proteção e segurança contra a sucessão de problemas do passado aos novos parceiros e investidores, sendo administrados de forma profissional
10 de Fevereiro, 2022 | 03:07 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

São Paulo — O União São João de Araras, o time de futebol profissional paulista que revelou o pentacampeão mundial Roberto Carlos, decidiu virar SAF (Sociedade Anônima de Futebol) para atrair capital de investidor e melhorar sua situação financeira, informou o escritório de advocacia empresarial JRClaw, contratado pelo clube de Araras (cidade a 168 km da capital paulista), à Bloomberg Línea.

Em dezembro do ano passado, o Cruzeiro, que anunciou o ex-atacante da Seleção Brasileira de Futebol Ronaldo Fenômeno como novo proprietário do centenário clube mineiro, foi o primeiro grande clube de futebol do país a revelar seu plano de se transformar em SAF, após a promulgação da Lei nº 14.193, de 6 de agosto de 2021.

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“Além do União São João de Araras, fomos consultados por outros quatro times, um grande de São Paulo e outros três de fora do estado, interessados em reestruturação de suas dívidas e parcerias para iniciar transição para a SAF”, diz o advogado Jean Cioffi, CEO da JRClaw, responsável pela transição da gestão do clube de Araras e pela interlocução com eventuais parceiros e investidores.

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Ele evita nominar os clubes, pois não houve ainda decisão nem autorização. Cioffi nega que um dos clubes seja o Clube Atlético Juventus, da Mooca, bairro da comunidade italiana na capital paulista. A imprensa esportiva cita que o Juventus da Mooca planeja virar SAF para ser vendido para o grupo italiano Almaviva. A assessoria de imprensa do clube não respondeu a pedido de comentários de Bloomberg Línea.

O advogado da JRClaw diz que o escritório especializado em processos de recuperação judicial está na fase de “due diligence” (análise das informações de uma empresa) e que, na primeira quinzena de março, deve encerrar essa fase para apresentar ao comando do União São João de Araras as melhores opções para uma reestruturação de seus passivos, etapa necessária antes da prospecção de investidores interessados em injetar capital na SAF.

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Cioffi cita três caminhos para transformar os clubes de futebol em SAF: por cisão do clube existente, transformação integral em SAF ou constituição de uma nova sociedade anônima, o que equivale a “começar do zero”. O objetivo, segundo o advogado, é trazer segurança jurídica aos potenciais investidores preocupados com os problemas financeiros do passado dos clubes.

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Minha estratégia como advogado empresarial é combinar a Lei da SAF com a Lei de Recuperação Judicial. O credor do clube pode virar investidor, apoiar a empresa em recuperação judicial, pois terá benefícios ao ajudá-la a sair mais rápido desse processo. O investidor não quer ser contaminado com os compromissos que o clube não honrou no passado. Casando as duas leis (SAF e Recuperação Judicial), você negocia com credores de forma organizada, com transparência e governança”, afirma Cioffi.

Foco empresarial

Fundado em 1981, o União São João de Araras é considerado um dos expoentes do futebol no interior de São Paulo. O advogado não soube informar a dívida do clube, pois não finalizou a fase de “due dilligence”.

O vice-presidente do clube, Antônio Carlos Beloto, diz que a mudança para SAF permitirá atingir o objetivo dentro de um planejamento de médio e longo prazo em disputar as principais divisões do futebol nacional. Desde 1993, o União São João de Araras é administrado com enfoque empresarial.

“O futebol não é feito somente de paixão, mas de razão para tornar ele um negócio rentável e contínuo. A experiência do escritório na área jurídica e na busca de investimento é essencial para a guinada do clube, para os acordos com credores e a busca por patrocínio na volta ao futebol paulista. A SAF vai nos dar principalmente credibilidade”, afirmou Beloto.

O União São João de Araras já revelou jogadores como o lateral Roberto Carlos, que atuou em clubes como Palmeiras e Real Madrid e foi pentacampeão mundial pela Seleção Brasileira. Na década de 1990, o time disputou a série A do Brasileirão e, em 2002, foi vice-campeão do Campeonato Paulista.

Retorno social

“A mudança para SAF é um caminho sem volta. No Brasil, revelamos jogadores para o mundo inteiro e os clubes estão sempre endividados. Nesta nova figura empresarial, há segurança jurídica e transparência para todos: clube, torcedores, credores e novos investidores”, reforçou Cioffi.

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Apostar em SAF pode integrar a estratégia de agenda ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança) dos investidores, segundo o CEO da JRClaw. “Para dar a largada na retomada do futebol e no retorno social à comunidade, o União vai focar também no lado social na formação de atletas e cidadãos, inclusive tirando jovens das ruas, bem como participando de sua capacitação”, diz o advogado.

Nem todos que passam por aqui se tornam grandes jogadores, mas todos são formados e ensinados. Além disso, o clube emprega, de forma direta e indireta na cidade, gera renda. Tem a pessoa que cuida do estacionamento, a que vende pipoca e bebidas, isso faz de fato girar a economia e torna o retorno do clube muito interessante para a cidade”, comenta Beloto.

Para Cioffi, os clubes que se anteciparem na criação da SAF sairão na frente na capacidade de atrair investimento. “Essa é a hora de aproveitar e aliar a paixão pelo futebol a um negócio seguro, transparente e rentável, permitindo a manutenção e desenvolvimento do futebol brasileiro competitivo em torneios com boa infraestrutura e visibilidade, gerando riqueza, empregos, prosperidade sem esquecer do social na formação de atletas e cidadãos”, diz o advogado.

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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