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‘Carro voador’ da Embraer inicia corrida na Anac para provar ser viável

Eve, empresa de veículos elétricos de decolagem e pouco vertical, busca certificação

Embraer tem anunciado encomendas para suas futuras aeronaves elétricas, mas ainda não obteve certificação para os "carros voadores" no Brasil
10 de Fevereiro, 2022 | 11:26 am
Tempo de leitura: 5 minutos

São Paulo — A Eve, empresa de “carro voador” da Embraer (EMBR3), pediu à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) certificado para suas futuras aeronaves elétricas. O anúncio ocorre no momento em que outras empresas aeroespaciais já estão de olho no mercado da América Latina, principalmente no potencial do Brasil no segmento de inovação para a aviação executiva.

Concorrente da Eve, a norte-americana Jaunt, de Dallas, anunciou, no mês passado, que pretende fornecer 25 aeronaves movidas a bateria para a Flapper, plataforma de fretamento aéreo sob demanda, que planeja atender a demanda do Brasil e de outros países da região (México, Chile e Colômbia).

Veja mais: Flapper compra 25 eVTOLs para voos no Brasil, Chile, Colômbia e México

A Flapper diz ter parcerias já firmadas com a Eve, Electra e MagniX, além da Jaunt, e que as previsões de lançamento comercial das aeronaves de diferentes tecnologias e designs ainda apontam, sem exatidão, para um intervalo entre os anos de 2026 e 2030, dependendo do andamento dos projetos e do processo de certificação.

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O processo da Eve para obtenção de um “certificado de tipo” para o projeto do eVTOL (do inglês, Electric Vertical Take-off and Landing, aeronave elétrica de pouso e decolagem vertical) visa a classificação como “categoria normal”, informou comunicado da Embraer, nesta quinta-feira (10). A Embraer não forneceu detalhes, como a expectativa de quando deverá obter esse documento, por exemplo.

“A formalização do processo de certificação do eVTOL é um passo importante para a continuidade das discussões que vêm sendo realizadas entre Eve e Anac em direção à certificação do veículo para mobilidade urbana”, disse Luiz Valentini, responsável pela área de tecnologia da Eve, no comunicado enviado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).

600 projetos

O projeto da Eve ganhou notoriedade no primeiro semestre do ano passado, quando as ações da Embraer estavam bastante descontadas devido às previsões pessimistas para o setor de aviação mundial devido às ondas da pandemia da covid, com restrições à mobilidade urbana e fechamento de fronteiras, que provocaram prejuízos gigantescos às companhias aéreas.

Veja mais: Eve, da Embraer, é avaliada em US$ 2,4 bi com fusão SPAC

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A série de comunicados da Embraer sobre a startup serviu para voltar a despertar a atenção dos investidores para o papel, que iniciou uma recuperação de suas cotações ao longo de 2021. EMBR3 fechou 2021 como a maior alta do ano do Ibovespa, com valorização de 197%.

Apesar da atenção recebida pela mídia brasileira para a Eve, no mundo existem atualmente cerca de 600 projetos de eVTOL, que ainda enfrentam os desafios da certificação, segundo o CEO da Flapper, Paul Malicki. “As companhias ainda não precificaram suas aeronaves mas devem ser 50% mais baratas do que os atuais aviões e helicópteros”, estimou o executivo.

Pioneiro

A Anac confirmou que, na última terça-feira (8), oficializou o início da certificação de tipo da aeronave elétrica de pouso e decolagem vertical, denominada EVE-100, feito pela Eve Mobilidade Aérea Urbana. Essa foi a primeira solicitação recebida e validada pela agência para obtenção de certificado de tipo para aeronave com característica de pouso e decolagem vertical, informou a Anac, em nota divulgada hoje à tarde.

A agência explicou que a validação do pedido marca o início do processo de certificação de tipo, a primeira de uma série de etapas que a verificação dos requisitos de segurança da aeronave, incluindo testes e avaliações de todos os aspectos técnicos relevantes para garantir a segurança do projeto da aeronave.

Segundo o superintendente de aeronavegabilidade da Anac, Roberto Honorato, esse é o início de um projeto que traz ganho significativo no futuro da aviação, não só no Brasil, mas com vistas ao mercado global. “Do ponto de vista da regulação, há muito trabalho a ser feito, não somente em relação à tecnologia da aeronave, mas na definição de todo ecossistema. O Brasil tem condições e engajamento para lidar com este desafio”, disse ele, em nota.

Segundo a Anac, o EVE-100 será projetado para transportar quatro passageiros com um piloto a bordo. O eVTOL possui oito rotores responsáveis pelo pouso e decolagem verticais e dois rotores responsáveis pelo deslocamento horizontal. A aeronave é totalmente elétrica, com baixo ruído e zero emissões de carbono. De acordo com a empresa, o EVE-100 encontra-se em estágio inicial de desenvolvimento.

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A Anac disse ainda que é reconhecida internacionalmente como uma das principais agências de certificação de aeronaves do mundo, sendo membro do Certification Management Team (CMT) junto com as agências norte-americana (FAA), europeia (EASA) e canadense (TCCA), o que facilita a aceitação dos produtos aeronáuticos brasileiros em escala global.

EMBR3

Apesar das dúvidas ainda sobre a viabilidade do projeto de eVTOL da Eve, o mercado resultou apostar na inovação e trata esse projeto como um catalisador positivo para as ações da Embraer

“Ressaltamos o desenvolvimento da Eve no ano de 2021, subsidiária da companhia responsável pelo desenvolvimento dos eVTOLs, ou veículos elétricos de decolagem e pouco vertical (comumente conhecidos como carros voadores), como um passo importante de inovação, se antecipando a um amplo mercado em expansão a endereçado pela companhia no futuro, o que também ajudou nas perspectivas das ações da empresa no último ano”, comentou o especialista de bens de capital da XP Investimentos, Lucas Laghi, em relatório, datado de 6 de janeiro.

Como empresa de grande exposição às exportações, a depreciação do real em relação ao dólar também foi positiva para os números da companhia no ano passado, observou o analista. Além do desenvolvimento de novas iniciativas como a Eve, a empresa mostrou-se mais eficiente nos seus números trimestrais, principalmente os mais recentes.

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“Houve melhora sequencial nos últimos dois trimestres da margem bruta do segmento de aviação comercial, o mais impactado pela pandemia, assim como manutenção de sólidos níveis de rentabilidade da divisão de aviação executiva”, escreveu Laghi.

Para a XP, a Embraer tem recomendação de compra com preço-alvo de R$ 27,30/ação por iniciativas inovadoras como a Eve, além de boa sustentação do segmento de aviação executiva no curto prazo.

“Ao excluir a participação acionária da Embraer na Eve de US$ 2,4 bilhões, vemos os negócios tradicionais da empresa sendo negociados a ~4,5x 2022 EV/EBITDA, o que consideramos excessivamente barato (implicando em maior potencial de valorização à medida que seu segmento de aviação comercial continua a se recuperar)”, disse Laghi, em janeiro ao reforçara visão positiva para o papel em 2022.

Ontem (9), a ação da Embraer fechou a R$ 20,08, acumulado desvalorização de 20,15% no ano, mas uma alta de 104,96% em 12 meses.

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(Atualiza às 14h30 com nota da Anac)

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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