Internacional

Quais desafios o novo primeiro ministro do Japão terá pela frente?

Terceiro primeiro-ministro a assumir o poder desde o início da pandemia deve ter de superar os mais diversos obstáculos, como o próprio coronavírus e o envelhecimento da população

As eleições do país ocorrem no final de 2021
Por Yoshiaki Nohara
27 de Setembro, 2021 | 06:38 pm
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg — Um grande desafio econômico aguarda o vencedor da votação pela liderança do partido esta semana para escolher o terceiro primeiro-ministro do Japão durante a pandemia.

O primeiro será fazer o país superar o vírus, o que exige um roteiro para reabertura após o fim do último estado de emergência emitido devido à situação – o que supostamente deve acontecer nesta semana – e mais estímulos para estimular os eleitores antes das eleições nacionais no final do ano.

Em seguida, vem a parte mais difícil: impulsionar a inovação e enfrentar outros problemas persistentes que corroeram a prosperidade do Japão e o tornaram a nação de crescimento mais lento do G7.

Resgate da classe média

Houve um tempo em que a maioria dos japoneses podia razoavelmente sentir que pertencia à classe média. Esse não é mais o caso.

PUBLICIDADE

Embora seja verdade que as empresas japonesas não fizeram grandes reduções de pessoal durante a pandemia, como em outros países, décadas de cortes de custos corporativos criaram uma subclasse crescente de funcionários temporários. Cerca de 40% da força de trabalho do Japão atualmente tem empregos em meio período ou são autônomos que recebem em média um terço a menos que funcionários em tempo integral.

O governo precisa encontrar maneiras de fazer com que as empresas economizem menos e concedam remunerações melhores.

O ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, primeiro líder do Japão durante a pandemia, passou anos intimidando executivos para aumentar os salários, sem sucesso. Convencer as empresas a parar de acumular dinheiro será ainda mais difícil agora que a pandemia aumentou os temores.

Ainda assim, sem salários mais altos, a economia está estagnada: consumidores não terão mais dinheiro para gastar, o crescimento não pode acelerar, e o pulso de inflação do Japão provavelmente também ficará estagnado.

PUBLICIDADE

Nação da inovação

Outra forma de fomentar o crescimento é inovar, mas o Japão perdeu competitividade em áreas essenciais. O país ainda tem mais fábricas de semicondutores que qualquer outra nação, por exemplo, mas poucas permanecem na vanguarda. Enquanto isso, o Japão está fazendo menos descobertas científicas significativas e, embora seja a terceira maior economia, produziu menos grandes startups que Hong Kong.

Para tentar aumentar a produtividade, o primeiro-ministro Yoshihide Suga, que se despede do cargo, abriu neste mês uma nova agência digital para renovar os frágeis sistemas de computador do governo e afastar o país dos documentos em papel e carimbos pessoais ainda usados na maioria dos negócios oficiais. Ele também lançou uma doação de US$ 90 bilhões para financiar pesquisas avançadas e definir uma meta climática ambiciosa de tornar o Japão neutro em carbono até meados do século.

É um bom começo, mas para aumentar o potencial de crescimento do Japão, o sucessor de Suga precisará manter os investimentos constantes.

Veja também: Quem vai ganhar a corrida pela liderança do Japão?

Dívidas

O governo não terá muito dinheiro sobrando depois de pagar por sua dívida e sustentar o crescente número de idosos no Japão. O pagamento de juros, a assistência médica e previdenciária representam mais da metade do orçamento.

A duplicação do imposto sobre vendas desde 2014 aumentou a receita mesmo durante a pandemia, mas o governo ainda não projeta conseguir equilibrar o orçamento nesta década. Os empréstimos durante a pandemia no valor de mais de US$ 720 bilhões até o momento apenas piorou a situação.

PUBLICIDADE

O risco de crise é baixo enquanto o Banco do Japão continuar comprando a maioria dos títulos do país. Mesmo assim, sem a inflação para aliviar a carga, a dívida do governo, que totaliza mais de 250% do produto interno bruto, deixa as autoridades de mãos atadas.

O líder nas pesquisas de opinião pública para conquistar o cargo de primeiro-ministro – a autoridade em vacinas Taro Kono – diz que apoia mais gastos emergenciais para ajudar na recuperação, mas parece mais cauteloso em aumentar a dívida do Japão do que seus rivais.

O que diz a Bloomberg Economics

“A reforma previdenciária, tanto do lado tributário quanto do lado dos gastos, será o maior desafio à frente. Os gastos com previdência social mais do que triplicaram desde 1990. Essa é a dura realidade de uma sociedade em envelhecimento. Mas, ao contrário das políticas para lidar com as mudanças climáticas ou a digitalização, não há sonhos aqui, apenas escolhas difíceis”.

-- Yuki Masujima, economista

PUBLICIDADE

Envelhecimento

Quase um em cada três japoneses tem mais de 65 anos, a maior proporção do mundo. No ano passado, o país registrou o menor número de nascimentos desde que começaram a ser registrados, em 1899.

Uma população envelhecida que encolheu cerca de 2 milhões de pessoas na última década significa uma mistura incômoda de escassez de mão de obra, crescimento mais lento e custos crescentes de saúde.

Para tentar aumentar a taxa de natalidade, todos os quatro candidatos na eleição do partido no poder na quarta-feira dizem que vão dobrar os gastos do governo com o bem-estar das crianças. Contudo, o fato é que as longas horas de trabalho do Japão dificultam a criação dos filhos, principalmente agora que a maioria das famílias precisa de duas rendas para sobreviver.

O Japão estava começando a emitir mais vistos de curto prazo para trabalhadores estrangeiros antes da pandemia, mas os números eram relativamente pequenos. Enquanto isso, a imigração continua difícil, embora muitos dos problemas do Japão ocorram devido aos desafios demográficos do país.

PUBLICIDADE

Veja mais em bloomberg.com

Leia também

PUBLICIDADE

Investidores no Japão veem renúncia de Suga como positiva

Suga joga a toalha após ano verdadeiramente miserável no comando do Japão: Daniel Moss

Mercados iniciam semana em alta na Ásia apesar de Treasuries