Negócios

Petrobras fecha semana com venda de ativos, pagamento de dividendo e incertezas sobre refinarias

Estatal assina contratos de vendas de refinaria de Manaus e de participação em duas termelétricas, mas futuro da refinaria gaúcha, que tem o grupo paulista Ultra como interessado, ainda é incerto

Navio-plataforma FPSO Carioca no campo de Sépia, no pré-sal da Bacia de Santos, pode processar diariamente até 180 mil barris de óleo e comprimir até 6 milhões de m³ de gás natural
28 de Agosto, 2021 | 12:31 pm
Tempo de leitura: 6 minutos

São Paulo — A Petrobras, maior estatal brasileira, terminou a semana avançando no seu plano de desinvestimento de ativos para focar seus esforços em atividades essenciais e iniciou a produção de sua maior plataforma. Os acionistas também receberam a 1ª parcela da antecipação de dividendos. Por outro lado, a petroleira ainda é alvo de incertezas sobre a venda de refinarias devido ao risco de intervenção governamental na política de preços dos combustíveis.

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Ontem, a companhia assinou contrato para a venda da totalidade de sua participação acionária de 93,7% na Breitener Energética, dona de duas termelétricas (Tambaqui e Jaraqui) em Manaus (AM), adquirida pela Breitener Holding Participações, subsidiária da Ceiba Energy, que opera ativos de geração de energia em países da América Latina. A estatal espera receber R$ 304 milhões, sendo R$ 251 milhões a serem pagos no fechamento da venda. Os R$ 53 milhões restantes estão acordados como pagamento contingente, atrelado à remuneração futura da Breitener na venda de energia. A transação depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE).

Essa operação está alinhada à estratégia de otimização do portfólio e à melhora de alocação do capital da companhia, visando à maximização de valor”, informou a Petrobras, em comunicado.

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Outro ativo localizado em Manaus também teve definição nesta semana. Na última quarta-feira (25), a petroleira assinou, com o Grupo Atem, o contrato para a venda da Refinaria Isaac Sabbá (REMAN) e seu ativos logísticos associados pelo valor de US$ 189,5 milhões (R$ 994,15 milhões, valor estimado com base no câmbio do dia). A refinaria é a segunda dentre as oito que estão em processo de venda a ter o contrato assinado. Em 24 de março foi assinado o contrato de venda da Refinaria Landulpho Alves (RLAM) na Bahia.

“A venda da REMAN está em consonância com a Resolução nº 9/2019 do Conselho Nacional de Política Energética, que estabeleceu diretrizes para a promoção da livre concorrência na atividade de refino no país, e integra o compromisso firmado pela Petrobras com o CADE para a abertura do setor de refino no Brasil”, informou a Petrobras ao anunciar a assinatura do contrato.

Joia da coroa

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Por outro lado, houve um revés nesse plano. Na última quarta-feira (25), a petroleira informou que os interessados no processo de venda da Refinaria Abreu e Lima (RNEST) declinaram formalmente de apresentar proposta vinculante para a compra da refinaria. “Assim, a companhia está realizando os trâmites internos para encerramento do processo de venda em curso e avaliará seus próximos passos”, revelou.

Das oito refinarias colocadas à venda, o mercado olha com mais atenção para a “joia da coroa”, que é a Refinaria Alberto Pasqualini (REFAP), no Rio Grande do Sul. Há dúvidas se o negócio será fechado no contexto de um cenário político a pouco mais de 1 ano da eleição presidencial.

“O M&A da REFAP acontecerá? A Ultrapar e Petrobras têm até o final de outubro (prazo estipulado pelas autoridades de defesa da concorrência do Brasil) para negociar os termos finais da aquisição da Refinaria Alperto Pasqualini. Até então, o negócio não está fechado, pois a Ultrapar poderia desistir da aquisição sem pagar multas. Embora tenhamos argumentado no passado que possuir um ativo de refino no Brasil poderia agregar valor para a Ultrapar, e ainda acreditemos em nossa tese, o cenário político está mudando no Brasil, e o resultado da eleição presidencial de 2022 permanece altamente incerto”, avaliou um relatório do Bradesco BBI, nesta semana.

Segundo o banco, a Ultrapar continua comprometida com o processo de aquisição. “Os relatos mais recentes da mídia especularam que a Ultrapar compraria a REFAP por US$ 1,2 bilhão (contra nossa avaliação justa de US$ 1,6 bilhão, que não pressupõe a Ultrapar implementando potenciais melhorias futuras). A Ultrapar tem a oportunidade de potencialmente criar muito valor com a aquisição da REFAP - embora, com um cenário político tão incerto, uma boa ideia possa sair pela culatra”, citou o Bradesco BBI.

Preços dos combustíveis

Ao analisar a perspectiva para as ações da Ultrapar em 2020 , o relatório aponta dúvidas sobre a política de preços dos combustíveis, que aumentaram desde o primeiro semestre, com a troca de comando na estatal e declarações do presidente Jair Bolsonaro dando a entender que poderia intervir nas estratégias comerciais da petroleira. O general Joaquim Luna e Silva sucedeu, em abril, Roberto Castello Branco, desgastado com o presidente devido aos reajustes do diesel.

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A menos que esse governo apareça com uma solução sustentável para os preços dos combustíveis no Brasil (como a criação de um fundo de estabilização do qual as refinarias são devidamente pagas mesmo em períodos de incerteza), acreditamos que a aquisição da REFAP trará considerável volatilidade às ações da Ultrapar em 2022. A venda bem-sucedida pela Petrobras da REPAR também ajudaria a mitigar riscos potenciais para a REFAP no futuro”, concluiu o Bradesco BBI, mantendo sua recomendação neutra para os papéis da Ultrapar.

O mercado espera que os dados operacionais do resultado do terceiro trimestre sejam favorecidos pelo aumento de produção com a entrada em operação de sua maior plataforma, em termos de complexidade, no Brasil. Na última segunda-feira (23), a estatal iniciou a produção de petróleo e gás natural do FPSO Carioca, primeira plataforma no campo de Sépia, no pré-sal da Bacia de Santos. A plataforma, do tipo FPSO (unidade flutuante de produção, armazenamento e transferência de petróleo e gás), fica a cerca de 200 km da costa fluminense, em profundidade de água de 2.200 metros.

Segundo a petroleira, o FPSO Carioca, unidade afretada junto à Modec, possui capacidade para processar diariamente até 180 mil barris de óleo e comprimir até 6 milhões de m³ de gás natural. O projeto prevê a interligação de sete poços produtores e quatro poços injetores ao FPSO. O escoamento da produção de petróleo será feito por navios aliviadores, enquanto a produção de gás será escoada pelas rotas de gasodutos do pré-sal.

“A jazida compartilhada de Sépia é composta pelos campos de Sépia e Sépia Leste, localizados em áreas da Cessão Onerosa e Concessão (BM-S-24), respectivamente, operada pela Petrobras (97,6%), em parceria com a Petrogal Brasil S.A. (2,4%)”, disse a estatal.

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Proventos

Já os acionistas receberam, na última quarta-feira (25), a 1ª parcela de antecipação da remuneração aos acionistas relativa ao exercício de 2021. O valor bruto distribuído, no montante de R$ 21 bilhões, corresponde a um valor bruto de R$ 1,609911 por ação ordinária e preferencial, com base na posição acionária de 16 de agosto. A segunda parcela de R$ 10,6 bilhões (R$ 0,8126 por ação) será paga em dezembro.

Ontem, houve assembleia geral que resultou na recondução de sete membros do conselho de administração da estatal, indicados pela União e na eleição de um nome indicado pelos minoritários (Marcelo Gasparino), totalizando três representantes desse grupo, que buscava ampliar seu número de assentos para cinco.

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Sérgio Ripardo

Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.

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