(Bloomberg Opinion) Um centro financeiro organizado de 5,7 milhões está se preparando gradualmente para a vida pós-pandemia, à medida que a imunização aumenta, as medidas de distanciamento social se frouxam e os residentes podem sonhar com viagens a lazer novamente. A uma balsa de distância, um extenso arquipélago com população de 270 milhões de pessoas sofrem com a falta de oxigênio; os casos diários de covid passam de 20.000 e o total de óbitos supera a marca de 60.000. Os destinos divergentes de Singapura e da Indonésia – e sem dúvidas de muitos países em toda a Ásia – demonstram que qualquer recuperação econômica na área arriscará a vida de centenas de milhões de pessoas.
O Fundo Monetário Internacional projeta que a Ásia crescerá 7,6% neste ano, impulsionada pelas economias prósperas, como a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong e Singapura, juntamente com a potência de fabricação e exportação da China. Locais como Indonésia, Filipinas e Malásia, ao contrário, serão prejudicados pela persistência em não controlar a doença. Publicar um número positivo não vai captar o buraco de que os países mais afetados devem sair. A Indonésia é atualmente o marco zero da covid no sudeste asiático. A taxa de hospitalização superou os 90% em Jacarta, a capital, com montagem de tendas do lado de fora dos hospitais e a conversão de apartamentos em unidades de isolamento. Na semana passada, o presidente Joko Widodo impôs restrições rigorosas em Java e Bali, ilhas que somam mais da metade da economia de trilhões de dólares do país, justamente no momento que Bali se preparava para receber turistas internacionais. Jokowi, como é conhecido, resistiu por muito tempo a imposição de lockdowns em grande escala, preferindo medidas mais localizadas. Desde então, o presidente mudou de ideia quando os óbitos bateram recordes e as infecções aumentaram. As autoridades avisaram que o aumento pode continuar.
A resposta da Indonésia ao vírus foi decepcionante desde o início: as autoridades admitiram a existência de casos apenas em março do ano passado, quando o vírus já havia se disseminado pela região. A estratégia de pequenos lockdowns causava confusão frequentemente, e o país nunca controlou os casos antes da segunda onda. Ainda assim, seria muita ingenuidade alegar que os desafios econômicos da Indonésia surgiram com a pandemia.
Jokowi, chegando na metade de seu segundo e último mandato de cinco anos, tem sofrido para atender às expectativas de uma presidência outrora repleta de aspirações. O país possui muitos dos ingredientes para um renascimento: uma população jovem em uma região que envelhece rapidamente e a fé de investidores, que receberam com alegria a monetização da dívida com o início da pandemia. O presidente deu passos concretos para tirar o país do padrão de crescimento de 5%, como a revisão das leis trabalhistas, em uma vitória para o comércio no ano passado. Porém, muitos dividendos decorrerão desses esforços. A Indonésia sempre é mencionada em termos de potencial; agora, o país arrisca ficar preso em um limbo econômico.
Embora seja importante que centros financeiros como Hong Kong e Singapura caminhem rumo à reabertura, boa parte da Ásia ainda está travando uma batalha mortal com a covid. Retomar o turismo parece um luxo quando o número de casos diários está na casa das dezenas de milhares e a vacinação continua muito baixa. No caso da Indonésia e das Filipinas, os problemas são ampliados pelas cidades densamente povoadas e as ilhas principais congestionadas. A Malásia está em estado de emergência desde janeiro. Menos de 10% das pessoas na Indonésia, Tailândia, Malásia e nas Filipinas estão totalmente vacinadas, segundo dados compilados pela Bloomberg.
Quando o ministro da Saúde de Singapura disse em entrevista para o Straits Times na última semana que as viagens sem quarentena podem ocorrer até o fim do ano, ele citou os Estados Unidos e a maior parte da Europa como exemplos de possíveis destinos. Ele também esclareceu que as autoridades devem estar convencidas de que as taxas de vacinação estão altas e o número de casos, em declínio. É difícil ver qualquer lugar da Indonésia, principalmente Bali, chegando a esse ponto em breve.
Com cerca de 60% do comércio entre países vizinhos, a Ásia está muito interligada para comemorar vitórias isoladas contra a covid. Quando permitidos, as viagens de barco ou os cruzamentos de pontes dirão rapidamente o que as projeções otimistas da região não captaram.
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