Opinión - Bloomberg

Quando um dólar não é um dólar? O problema da desintermediação das moedas digitais

Mudança levaria à desintermediação, com indivíduos ou empresas colocando seu dinheiro em um sistema fora dos bancos comerciais

Resultado seria menos empréstimos e menos atividade econômica no setor privado
Tempo de leitura: 3 minutos

Bloomberg — (Bloomberg Opinion) Uma moeda digital emitida pelo Federal Reserve revolucionaria o setor financeiro dos Estados Unidos. Contudo, embora a digitalização econômica e financeira seja crucial, conforme diz o presidente do Fed Jerome Powell, ela também não pode ser universal. O resultado é que as grandes economias acabarão com pelo menos dois tipos diferentes de dinheiro.

A preocupação mais comum é que uma moeda digital do banco central, ou CBDC, levaria à desintermediação, com indivíduos ou atacadistas colocando seu dinheiro em um sistema CBDC, em vez de bancos comerciais. O resultado seria menos empréstimos e menos atividade econômica no setor privado.

Os defensores da CBDC geralmente afirmam que a regulamentação pode resolver esse problema. Eles defendem uma combinação de limites à emissão de unidades de CBDCs, acesso às CBDCs somente para os atacadistas e grandes jogadores, ou juros ou taxas punitivas sobre as posições em CBDCs.

Mesmo assim, todas essas ideais criam barreiras – você pode até mesmo chamá-las de “controles de capital” – entre os dólares comuns e os dólares em CBDCs. Se houver limites ou barreiras à conversão do dólar para CBDC, as unidades de dólar e CBDC não serão vendidas pelo mesmo preço. Por que deveriam? Elas realizam funções diferentes para clientelas diferentes. É claro que se o Fed permitir conversões irrestritas, um preço de um-para-um seria impingido pela arbitragem. Mas esses privilégios abertos e irrestritos são precisamente o que os defensores dessa politica estão tentando limitar.

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O resultado seria um pouco como o sistema chinês. Há muito tempo o yuan tem um valor dentro da China e outros nos mercados mundiais, com a diferença de ele ser imposto pelos controles de capitais. E com a moeda digital chinesa a caminho, a China poderá em breve ter (pelo menos) três preços de moedas diferentes.

Nesse novo mundo, as pessoas perguntarão se a unidade de conta do dólar americano se refere aos “dólares comuns” ou aos dólares CBDCs. Poderá haver duas “unidades de conta do dólar” concorrentes, ou mais provavelmente, os preços no varejo continuarão sendo denominados em dólares comuns e o CBDC teria uma taxa de câmbio flutuante em relação a esses “dólares de varejo”.

Diante da sofisticação dos negócios nos EUA e da distribuição disseminada dos smartphones, que podem permitir o cálculo imediato, não vejo esse cenário como problemático. Mesmo assim, seria um tipo de revolução. Em especial, o preço do dólar CBDC se tornaria tanto uma grande variável de política, quanto um grande indicador dos rumos da política do banco central. Até onde o Fed deseja permitir que as transações, intermediação e recursos fluam para o setor ligado ao CBDC? As atuais discussões sobre operações no mercado aberto ou juros sobre reservas se tornarão enigmáticas e ultrapassadas. As regulamentações para isolar o setor de CBDC do setor de dólar varejo se tornariam realmente importantes e dariam ao Fed (e outras partes reguladoras) uma influência muito maior sobre a locação setorial.

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Com o tempo, o setor financeiro CBDC se tornaria muito maior, na medida da maior digitalização da economia e das demandas do hipermoderno sistema CBDC de pagamentos e compensações. Isso significaria que a moeda dominante americana – o dólar CBDC – ficaria totalmente separada da unidade de conta predominante, ou seja o dólar varejo. A possibilidade de outra moeda substituir o dólar americano como moeda de reserva mundial é uma discussão perene. Talvez a real alternativa ao dólar seja o... dólar CBDC.

Outra questão é se moedas digitais privadas conseguirão coexistir com um CBDC emitido pelo Fed. A provável resposta é sim. O CBDC emitido pelo Fed, não importa quão bem administrado, não servirá para todos os propósitos. Os participantes do mercado também poderão querer moedas digitais com maior privacidade e anonimato, moedas digitais sujeitas a regulamentações diferentes, ou moedas digitais elaboradas para transações com estrangeiros, incluindo países com moedas de pouca liquidez e não conversíveis. No final das contas, é improvável que o Fed venha a permitir que todos os estrangeiros participem do novo sistema CBDC, em parte por causa das exigências reguladoras, em parte pelo temor de corridas globais. Também poderá haver uma “cesta” de CBDCs em âmbito mundial.

Também poderá ser o caso de apenas “atacadistas” terem permissão para participar da CBDC, mas os bancos emitirem stablecoins para conceder aos seus depósitos acesso indireto ao sistema CBDC do Fed. Os bancos poderão tentar atrelar essas stablecoins aos dólares de varejo um-por-um ou aos dólares CBDC, assim como os fundos mútuos atrelam suas posições. Em todo caso, haverá ainda mais moedas e preços flutuantes adicionais.

Há também, é claro, a possibilidade do Fed não adotar medida nenhuma em relação à CBDC. Neste caso, outros bancos centrais o farão. Então, não importa onde a política vai desembarcar, é hora de apertar os cintos.