(Bloomberg Opinion) - Uma ideia antes impensável está se tornando possível: O Banco Central Europeu (BCE) poderá começar a falar em desfazer as políticas de dinheiro fácil antes que o Federal Reserve (Fed). Ainda mais curioso é que isso não seria o resultado dos usuais fatores de política relacionados à inflação, crescimento, estabilidade financeira e política fiscal. Em vez disso, refletiria uma dualidade específica do Fed que está acontecendo agora: o banco central dos Estados Unidos não só parece estar ficando para trás nos acontecimentos nesse terreno e no consenso emergente entre alguns outros bancos centrais, como também se encontra refém de um modelo monetário que, embora elaborado para representar mudanças estruturais, corre o risco de ser mal adaptado ao mundo abalado pela Covid-19.
O conselho diretor do BCE, sua instância máxima de elaboração de políticas, deve se reunir em 10 de junho, uma semana antes que a próxima reunião do Comitê de Mercado Aberto do Fed, o FOMC. Na preparação para essa reunião, algumas autoridades do BCE vêm fazendo um certo barulho sobre a possibilidade de as discussões de política considerarem o caso de uma redução no tamanho de seu programa de compra de ativos.
Essas possíveis considerações do BCE de uma redução desse programa seguem os passos adotados de fato neste mês pelo Banco do Canadá e o Banco da Inglaterra. E eles fariam do banco central dos EUA uma dissonância ainda maior no mundo avançado, na medida em que as autoridades do Fed quase que universalmente vêm reiterando sua mensagem de longa data de que ainda não é hora de começar a “pensar em pensar” em uma mudança na atual politica “pé de chumbo”.
Esse contraste emergente não pode ser explicado pelos condutores tradicionais da política monetária. Quando muito, esses fatores sugeririam que o Fed deveria estar à frente dos outros bancos centrais no aperto lento e cuidadoso das condições financeiras. A título de ilustração, considere o seguinte:
- O crescimento dos EUA está superando o da Europa e deverá continuar fazendo isso ao longo de todo o ano de 2021;
- A política fiscal dos EUA está significativamente mais expansionista do que na Europa;
- As pressões inflacionárias estão mais pronunciadas e generalizadas nos EUA do que na Europa e
- Há uma maior proliferação nos EUA de tomadas excessivas de riscos financeiros em instituições não bancárias, o que representa um perigo para a estabilidade financeira futura.
Nenhuma dessas coisas explica a posição do Fed; na verdade elas vão contra ela. E ainda assim os banqueiros centrais americanos continuam firmes em sua convicção frequentemente repetida de que a inflação é “transitória”. Eles estão se apegando a essa linha, apesar dos dados e evidências corporativas que apoiam uma mentalidade mais aberta, e mesmo com outros bancos centrais adotando posturas diferentes e um número crescente de análises de economistas de Wall Street demonstrando preocupação com a posição do Fed.
Os formuladores das políticas do Fed poderão muito bem acabar corrigindo sua teimosia em rejeitar tudo isso. No entanto, a julgar pela ação do mercado, incluindo a queda de hoje de ativos que historicamente não se movem juntos, está claro que aumentam as preocupações com o risco de um erro de política. Afinal, uma das últimas coisas que a economia e o mercado precisam é um Fed atrasado e forçado a pisar com tudo nos freios.
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