Bloomberg Línea — A Tesla deu início à sua entrada na Argentina, um dos poucos mercados da região onde seus veículos ainda não circulam. Sua chegada avança rapidamente e, embora seja perceptível inicialmente por meio de sua rede de supercarregadores, o mercado automotivo já começa a incorporar a marca em suas projeções.
A grande estreia da gigante dos carros elétricos de Elon Musk no mercado de vendas de automóveis está prevista para 2027, mais uma mudança para um mercado em plena desregulamentação, com queda nas vendas e já sob forte impacto dos veículos importados, e onde a outra gigante mundial, a BYD, promete se consolidar com um modelo na primeira posição entre os veículos matriculados.
O dia 1º de abril foi decisivo. Foi publicada no Diário Oficial a constituição da Tesla Argentina. A empresa que popularizou os carros elétricos e autônomos no Ocidente nomeou um gerente regional — também para o Uruguai, onde seu plano está mais avançado — abrirá um escritório e dará início à sua entrada gradual no mercado com seu negócio de carregadores elétricos.
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A ideia de chegar ao sul do continente já existe há mais de sete anos, mas o marco regulatório e econômico argentino, a falta de infraestrutura e um mercado de carros elétricos que mal começava a se delinear frearam o projeto até que a chegada de Javier Milei ao governo e sua admiração por Elon Musk reacenderam os planos.
Em 2018, o próprio Musk revelou seu plano por meio de sua conta no Twitter, quando a rede social ainda não se chamava X nem era de sua propriedade, como é hoje. Um usuário perguntou: “Quando será na Argentina?”, e o magnata respondeu: “2020”.
A entrada da empresa no mercado não se concretizou e nem mesmo avançou naquele ano, mas isso mostrou que o país já estava na mira como um mercado de interesse.
De fato, a empresa começava a traçar o plano que estaria prestes a ser iniciado agora: a entrada “orgânica” na Argentina por meio de seus carregadores para carros elétricos, conforme confirmado pela empresa em uma nota publicada pelo jornal El Cronista em 18 de junho de 2018.
Foram analisados pontos relevantes para a instalação de supercarregadores, levando em conta a autonomia dos carros elétricos (os Teslas contam com menos de 700 km) e as rotas mais importantes. De acordo com esse primeiro mapa esboçado, a cidade de Rosário era fundamental para uma viagem de Buenos Aires a Córdoba.
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Além de um mercado de carros elétricos ainda em fase muito inicial, a empresa via na Argentina outros problemas relacionados à infraestrutura e à regulamentação.
Partindo do básico, como a “experiência”, ele não encontrava locais adequados, de acordo com seus padrões, onde um motorista de Tesla pudesse esperar o tempo necessário na estrada até que seu carro fosse recarregado. Uma rede internacional de cafeterias, um posto de gasolina com Wi-Fi e espaço de trabalho ou um hotel 5 estrelas, como em outras partes do mundo.
Mas, oito anos depois, o cenário argentino mudou e a Tesla já encontrou um parceiro para sua entrada no mercado: a YPF.
O próprio presidente da petrolífera argentina, Horacio Marín, esteve na Gigafactory da Tesla, no Texas, onde assinou uma carta de intenções com a empresa para estudar a implantação da rede de recarga rápida no país.
A YPF possui 1.600 postos de abastecimento, com a maior cobertura no território do que qualquer outro concorrente. Os maiores postos, localizados em pontos estratégicos, atendem aos padrões da Tesla.
Serão instalados carregadores em 17 postos de gasolina até o final do ano. A Nordelta dará início à série na Área Metropolitana de Buenos Aires enquanto aguarda a conclusão das autorizações de instalação em outras províncias.
O plano é cobrir rotas como Santa Fé-Rosário, Buenos Aires-Mendoza, até a cidade mais ao sul, Ushuaia. A Patagônia é fundamental para a Tesla, e a YPF é um veículo ideal para o desenvolvimento de outros negócios em escala muito maior.
Agora cabe a Joaquín Lizarralde, o novo gerente nacional da Tesla para a Argentina e o Uruguai, liderar a expansão. O jovem, com experiência no setor automotivo — já foi diretor comercial da Kavak e da RDA Mobility — enfrentará intensas negociações com mais partes interessadas em um país ansioso por receber investimentos em grande escala.
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A possibilidade de instalar um data center — um dos setores que poderia se desenvolver sob o regime de benefícios fiscais e cambiais promovido pelo governo, o Super RIGI — seria uma oportunidade em que a YPF teria um papel estratégico no fornecimento de energia. O mesmo vale para as superbaterias de backup energético, um negócio no qual a Tesla já está presente e que começa a se desenvolver na Argentina.
A conectividade e o processamento de dados em tempo real são essenciais para as novas aplicações da tecnologia. No mercado de eletromobilidade, isso é fundamental.
Mercado competitivo para carros elétricos
A Argentina com a qual a Tesla está lidando para trazer seus carros é mais complexa. O mercado automotivo em geral não consegue se recuperar e, nos primeiros seis meses do ano, foram matriculadas 294.181 unidades, 9,9% a menos do que no mesmo período de 2025, quando foram registrados 326.549 veículos.
Mas, no mercado de veículos elétricos, o cenário é o contrário. No primeiro semestre do ano, foram vendidos 3.860 veículos, liderados pelo BYD Dolphin Mini, com 2.178 unidades matriculadas. A marca chinesa, que possui lista de espera devido à alta demanda, é a número um em vendas na Argentina, seguida pela BAIC e pela Chevrolet.
A entrada de modelos elétricos de quase todas as marcas fez com que o segmento crescesse 880% no primeiro semestre, em comparação com o mesmo período do ano anterior, além de torná-lo mais competitivo.
“Aguardamos a chegada da Tesla porque, na Câmara dos Importadores, sempre trabalhamos para ter um mercado mais aberto, com mais concorrência e mais marcas. Acreditamos que a concorrência melhora o sistema”, disse Ernesto Cavicchioli, presidente da CIDOA e CEO da Hyundai Motor Argentina, à Bloomberg Línea.
“Eles não vão conseguir se enquadrar na cota de veículos elétricos porque há um valor FOB de US$ 16 mil e os carros da Tesla estão acima disso. Portanto, terão que importá-los por via paralela, pagando a tarifa de 35% para produtos de fora da zona. Com isso, não serão carros econômicos. Serão da gama média-alta”, esclareceu. O valor FOB (no porto) dos Teslas ultrapassa US$ 25 mil.
Esse é um ponto importante e que está sendo amplamente discutido no setor. Algumas marcas importadoras estão solicitando ao governo que o valor FOB seja mais alto, para que possam se enquadrar na cota daqueles que não pagam 35%.
No Uruguai, um Model 3 custa a partir de US$ 33 mil e um Model Y, a partir de US$ 36,5 mil. Na Argentina, esses valores poderiam dobrar.
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