Shoppings nobres querem livraria, mas aluguel caro afasta a rede Leitura, diz CEO

Marcus Teles diz à Bloomberg Línea que aluguel acima de 20% da venda dá prejuízo; rede entrou tarde em São Paulo e encontrou os endereços nobres ocupados por Travessa e Vila

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Bloomberg Línea — Para os shoppings de alto padrão, ter uma livraria é quase obrigatório. Para a maior rede de livrarias físicas do país, pagar o aluguel desses endereços é inviável. É assim que Marcus Teles, sócio e CEO da Livraria Leitura, explica por que a rede ficou fora dos shoppings mais caros de São Paulo.

“Um shopping rico que não tem uma livraria é meio vergonhoso”, disse Teles em entrevista à Bloomberg Línea.

O problema, segundo ele, é que o livro não suporta o custo de ocupação que outros lojistas aceitam pagar. “Não tem jeito de pagar 20% do livro, você vai perder”.

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A explicação está no preço tabelado. É a editora quem define o preço de capa, e a livraria fica com uma margem bruta na casa dos 40%, segundo Teles. Pelos cálculos dele, cerca de 18% vão para a folha de pessoal, de 4% a 5% para impostos e outras despesas, e 2% para as taxas de cartão de crédito.

O que sobra precisa cobrir aluguel, condomínio e lucro. Segundo o executivo, uma loja grande da rede consegue destinar cerca de 11% da venda à ocupação e ainda lucrar 6%. Uma loja média paga perto de 10% e fica com 5% a 6%. Uma pequena paga 9% e lucra de 4,5% a 5%.

Acima disso, a conta não fecha. Teles ilustrou com um exemplo hipotético. Uma loja de 300 metros quadrados num shopping de alto padrão venderia R$ 750 mil e pagaria R$ 150 mil de ocupação, o equivalente a 20% da receita, com prejuízo de 1% a 2%. Outra, de 500 metros quadrados num shopping menos disputado, venderia R$ 400 mil, pagaria cerca de R$ 40 mil e lucraria 6%. Venderia a metade, pagando um quarto do aluguel.

“Qual você acha que vai dar mais lucro?”, perguntou.

Do lado das administradoras, a lógica é outra, e Teles não a contesta. Uma marca de moda paga mais por metro quadrado do que uma livraria, e as grandes grifes internacionais disputam espaço nos melhores empreendimentos.

“Ele não está errado”, disse, sobre o shopping que prefere o lojista que paga mais.

Chegada tardia a São Paulo

O custo não é a única razão. Fundada em Belo Horizonte em 1967, a Leitura cresceu primeiro longe do eixo Rio-São Paulo. Dominou a capital mineira, depois o interior de Minas, Brasília, Goiânia e Vitória, e só então avançou para o Nordeste e o Norte, regiões onde havia menos concorrência. São Paulo, sede de Saraiva, Cultura e Fnac, ficou para o fim.

“Eu entrei atrasado em São Paulo. Eu não peguei os melhores shoppings”, disse.

Quando a rede chegou, os empreendimentos mais nobres da cidade já tinham Livraria da Vila e Travessa.

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Teles conhece a crítica de que a Leitura ocupa shoppings mais populares na capital paulista, mas diz que o retrato não vale para o resto do país. Em Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Salvador e Fortaleza, afirma, a rede está nos shoppings de maior renda. No estado de São Paulo são hoje 38 lojas, cerca de metade na capital, pelas contas dele.

A decisão de abrir, diz, depende só da conta de cada ponto. A rede avalia uma lista de 70 shoppings para os próximos dois anos, seleciona 30 e poucos e negocia, às vezes por anos. “O status não paga conta”, disse.

“A Leitura não abre loja que não dá lucro. Se ela não der lucro, eu fecho”.

A Leitura trabalha com todas as grandes administradoras. Segundo Teles, são quase 30 lojas em shoppings da Allos (ALOS3) e nove da Multiplan (MULT3). Das quase 140 unidades, cerca de 130 estão em shoppings, sete em aeroportos e rodoviárias e três na rua. A rede começou 2026 com 132 lojas e deve terminar o ano com 143.

Parte do espaço das lojas é sublocada a cafeterias. Numa unidade de 700 metros quadrados, por exemplo, cerca de 100 ficam com o parceiro, segundo o executivo. A escolha muda conforme a região. Em Brasília, a rede opera com a Casa de Biscoitos Mineiros; em Fortaleza, com uma rede local de cafés.

Nos aeroportos, onde o aluguel é ainda mais alto, a Leitura mantém o mesmo preço das demais lojas. As unidades abrem às seis da manhã e fecham às onze da noite, e a margem é menor. “Por que você acha que todo mundo vende uma água na rua por cinco reais e no aeroporto é 15?”, disse Teles. “No nosso caso, não. Eu vendo um livro que é tabelado”.

É esse preço fixado pela editora que, na visão do executivo, separa a livraria dos demais lojistas de shopping e torna cada escolha de ponto decisiva. “O nosso negócio é preto ou branco”, disse. “Ou dá lucro, ou não”.

Febres fora da conta

O mesmo rigor aparece na forma como a rede mede o crescimento. Em 2025, a Leitura vendeu 13,1 milhões de livros. Outros 940 mil livros de colorir ficaram de fora. “Foi uma febre”, disse Teles. “Não vai repetir esse ano.” Para 2026, a projeção é de 14 milhões de livros.

As figurinhas da Copa do Mundo seguiram o mesmo critério. A rede vendeu 17,2 milhões de envelopes no varejo, mais de 10% das vendas no período, segundo Teles, mas a receita não entra no resultado recorrente. “A venda da Copa para mim é outra venda”, disse.

O executivo também viu limites no produto. Com farmácias, supermercados e lotéricas vendendo figurinhas, algumas lojas da rede venderam em média 10% menos envelopes. O total só cresceu com as unidades novas e o preço maior, de R$ 4 para R$ 7 por envelope.

Se as febres passam, a margem do livro depende de uma decisão em Brasília. O projeto que limita a 10% o desconto em livros recém-lançados está pronto para votação no plenário do Senado desde novembro de 2024.

Teles o defende como proteção contra a venda com prejuízo. “Só tem que pautar”, disse. Mas não espera rapidez. “Vai acabar passando porque é bom para o país. Só que demora”.

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