Petróleo em alta favorece investimentos no Brasil, mas coloca Petrobras sob pressão

Segundo especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea, a tendência é que o país ganhe visibilidade de investidores como player de produção estável; por outro lado, o cenário pressiona a política de preços da estatal e acende o risco de desabastecimento interno de diesel

Petrobras FPSO
12 de Março, 2026 | 03:23 PM

Bloomberg Línea — Diante das incertezas do mercado de petróleo, a indústria brasileira vive um paradoxo, segundo especialistas ouvidos pela Bloomberg Línea.

A tendência é que o Brasil ganhe visibilidade de investidores como um player de produção estável. Em paralelo, o cenário atual pressiona a política de preços da Petrobras (PETR3, PETR4), favorece distribuidoras e acende o risco de desabastecimento interno de diesel.

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A cada dia que o Estreito de Ormuz, na costa do Irã, permanece fechado devido aos conflitos na região, um volume cada vez maior de produção é interrompido, com repercussões inclusive no médio prazo, aponta o analista de geopolítica e mercados de petróleo da Rystad Energy, Raphael Faucz.

Ele afirma que o estreito é responsável pelo fluxo de cerca de 20 milhões de barris por dia (bpd), sendo aproximadamente 15 milhões de bpd de petróleo cru e cerca de 5 milhões de produtos refinados. Na prática, porém, hoje pouco desse volume consegue ser redirecionado.

“A crise atual muda o cenário de curto prazo, mas estruturalmente o mercado ainda é de excesso de oferta nos próximos anos. Mas há incertezas sobre uma potencial destruição de capacidade de produção no médio prazo”, disse o especialista.

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Hoje, cerca de 5 milhões de bpd já estão fora do mercado nos países do Golfo Pérsico devido à incapacidade de escoamento e do limite do armazenamento de petróleo, aponta a Rystad.

“A incerteza é muito grande. A volatilidade precificada pelo mercado para os preços do petróleo está atualmente em níveis comparáveis aos registrados quando a guerra na Ucrânia começou, ou durante a pandemia”, diz Faucz.

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Segundo o especialista, o chamado índice OVX (Oil Volatility Index), que mede a expectativa de volatilidade dos preços do petróleo nos próximos 30 dias, está acima de 100% atualmente, indicando incerteza extrema e expectativa de grandes oscilações de preço do barril.

Neste contexto, a Rystad trabalha com dois cenários de preços, uma vez que a percepção do mercado depende da duração esperada do conflito. Caso a guerra se prolongue por alguns meses -- cerca de quatro meses, por exemplo -- as cotações poderiam voltar a superar os US$ 100 por barril, alcançando até US$ 135.

No entanto, antes da guerra, havia a percepção de um mercado superavitário, o que pressionaria os preços para baixo. Neste cenário, a cotação média ficaria em torno US$ 60 por barril.

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O Brent era negociado na casa dos US$ 99 na tarde desta quinta-feira (12), em alta de 7,6%.

O relatório do Citi do último dia 10 de março afirma que o conflito no Oriente Médio, iniciado em 28 de fevereiro, causou a perda de aproximadamente 11 milhões a 16 milhões de bpd (de 7% a 11% da oferta de petróleo cru e 4 milhões a 5 milhões de barris de produtos refinados).

Diante deste contexto, o banco de investimento considera a PRIO (PRIO3) a empresa mais bem posicionada com a alta dos preços do barril, enquanto a PetroRecôncavo (RECV3) e a Brava Energia (BRAV3) não devem se beneficiar tanto devido às suas operações de hedge de petróleo para o curto e médio prazo.

“Em termos recorrentes, a Brava e a PetroRecôncavo também devem ser impactadas positivamente, já que possuem um preço de equilíbrio do Brent para geração de caixa superior ao da PRIO, mas esse potencial de valorização é parcialmente limitado pelas operações de hedge", disseram os analistas do Citi no relatório.

Em relação à Petrobras, o banco vê potencial de ganhos limitados, uma vez que existe o risco de repasse apenas parcial da volatilidade dos preços no mercado interno.

Riscos sobre o diesel

O Citi espera que a Petrobras aumente sua participação no fornecimento doméstico de diesel, uma vez que a estatal pretende aumentar seu índice de utilização nas refinarias.

Por outro lado, os analistas da instituição demonstram preocupações com o fornecimento de diesel. Historicamente, o Brasil importa cerca de 25% de seu consumo interno e, atualmente, a capacidade de refino doméstica está abaixo dos níveis de demanda.

“Neste cenário de preços domésticos abaixo da referência internacional, esperamos uma queda acentuada nas importações de diesel, visto que a atividade não é mais economicamente viável”, afirmam os analistas do Citi.

Eles acrescentam que apenas os agentes com contratos de longo prazo devem continuar importando o combustível. “Enquanto isso, esperamos que as importações do diesel se concentrem no fornecimento russo, devido aos seus descontos em relação à oferta americana.”

O Brasil é um importador líquido de diesel (importa mais do que exporta), o derivado mais exposto à crise atual. Faucz afirma que o diesel tem registrado aumentos de preços superiores aos do próprio petróleo no mercado internacional.

Em volume, o Brasil depende pouco dos países do Golfo Pérsico, tendo Rússia, Estados Unidos e Índia como seus principais fornecedores.

Neste contexto, o Citi espera um avanço nos preços dos combustíveis mesmo sem alterações por parte da Petrobras. “Além disso, esperamos um aumento no risco de escassez de diesel nos próximos dias, elevando a pressão para uma ação da Petrobras [sobre o tema]”, afirmam os analistas.

O sócio da KPMG, Bruno Bressan, lembra que os preços dos combustíveis já apresentavam certa defasagem no Brasil. “A tendência é que, diante do aumento dos preços do diesel, o frete também encareça, já que nosso modal é bastante dependente do combustível”, diz.

Faucz afirma que o Brasil tem se posicionado como um dos principais responsáveis pelo aumento da produção global fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

“O Brasil já vem se beneficiando de margens maiores, com aumentos de preços desde o início do ano, o que contribui de forma importante para a rentabilidade das empresas, principalmente da Petrobras”, diz.

No entanto, a flexibilidade do aumento da produção em resposta à crise atual, no curto prazo, é “praticamente inexistente”, o que não permite um aumento imediato de market share global. “Ainda assim, o contexto reforça a percepção positiva sobre investimentos em mercados de produção estável e confiável no longo prazo”, acrescenta.

Liberação de estoques

Os 32 países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) concordaram nesta quarta-feira (11), por unanimidade, em liberar 400 milhões de bpd de sua reserva de emergência ao mercado.

“Os desafios no mercado de petróleo são de uma escala sem precedentes. A segurança energética é mandato fundamental para a AIE”, disse o diretor executivo da organização, Fatih Birol.

De acordo com o economista-chefe da Argus, David Fyfe, os governos dos países integrantes da AIE poderão decidir o cronograma da liberação de reservas.

Caso o montante seja distribuído ao longo de três meses, isso representaria uma oferta potencial de 4,4 milhões de bpd, o que envolve fatores como composição da liberação e do volume efetivamente absorvido pelo mercado.

Os efeitos sobre os preços ainda são desconhecidos, em sua visão. “Argumenta-se que essa liberação de reservas já está precificada desde segunda-feira [09], quando rumores sobre a medida ajudaram a sustentar a queda nos contratos futuros de petróleo do tipo Brent para níveis próximos de US$ 90″, diz.

No entanto, ele alerta que a eficácia dos estoques estratégicos para acalmar os preços depende, em última instância, da duração do fechamento do Estreito de Ormuz.

“Estoques estratégicos, por si só, serão insuficientes para evitar novas altas de preços se a navegação no Estreito permanecer intensamente restrita por um período prolongado”, ressalta.

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