Oncoclínicas negocia acordo com a Porto e troca CFO diante de pressão de vencimentos

Conselho formaliza a negociação com a seguradora e substituiu a VP financeira, Camille Loyo Faria, pelo CEO da Latache, maior acionista da empresa; dívida bruta chega a R$ 4,8 bilhões, com vencimentos de R$ 745 milhões ainda em 2026

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Bloomberg Línea — A Oncoclínicas (ONCO3) tomou duas decisões que redesenham sua trajetória e expõem uma divisão no conselho de administração.

Na quinta-feira (13), o colegiado aprovou por maioria a assinatura da proposta não vinculante apresentada pela Porto Seguro — o primeiro passo formal de uma negociação que pode resultar em um aporte bilionário na rede oncológica.

No domingo (15), o conselho aceitou a renúncia de Camille Loyo Faria, que acumulava os cargos de vice-presidente executiva, diretora financeira e diretora de relações com investidores, e elegeu Marcel Cecchi Vieira para assumir as três funções.

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A aprovação da proposta da Porto Seguro formaliza uma negociação que vinha sendo tratada nos bastidores. A Porto Saúde, vertical do Grupo Porto (PSSA3) liderado pelo CEO Paulo Kakinoff, é uma das maiores fontes pagadoras da rede oncológica.

Em maio de 2025, ao comentar o salto de 71% no lucro da vertical de saúde, Kakinoff havia sinalizado que fundos demonstravam interesse na área, mas que qualquer movimento dependeria de um plano estratégico que fizesse sentido.

A proposta aprovada pelo conselho é não vinculante (ou seja, não obriga nenhuma das partes) e precede a etapa de due diligence.

Procurada pela reportagem, a Oncoclínicas não respondeu a pedido de comentário sobre fatos mencionados.

As ações da Oncoclínicas dispararam até 12% na abertura do mercado nesta segunda (16), chegando a R$ 2,08, mas perderam impulso ao longo da sessão. Por volta das 13h, o papel era negociado a R$ 1,88, com alta de 1,62%.

Disputa no conselho

O novo CFO, Marcel Cecchi Vieira, é o CEO da Latache, gestora brasileira fundada por Renato Azevedo que detém 14,62% da Oncoclínicas e controla cinco dos sete assentos do conselho.

Ao assumir também a diretoria financeira e a área de relações com investidores, ele concentra na Latache o comando executivo e o relacionamento com o mercado num dos momentos mais delicados da história da companhia.

As duas deliberações (do acordo com a Porto e a troca de CFO) tiveram voto contrário do Goldman, o que aprofunda uma tensão que já havia se manifestado na composição do conselho eleito em janeiro.

Cinco assentos pertencem à chapa da Latache: Marcelo Gasparino da Silva, na presidência; Marcel Cecchi; Marcelo Curti; Eduardo Soares do Couto Filho; e o fundador Bruno Ferrari, vice-presidente.

Os dois restantes cabem ao Goldman, com Grodetzky e Rosenthal, que substituíram David Castelblanco, americano que presidia o colegiado desde o IPO.

Pelo menos três nomes dominam o capital do grupo: a Centaurus Capital, family office do americano John Arnold, com 18,32% por meio do fundo Josephina III; a Latache, gestora brasileira de Renato Azevedo, com 14,62%; e o MAK Capital Fund, fundo americano de Michael Kaufman, com 6,31%.

A Centaurus assumiu a posição após o Goldman Sachs, que chegou a deter 60% da empresa desde 2015, desinvestir sua participação em 2025.

A operação gerou uma disputa na Justiça federal de Nova York: acionistas minoritários questionaram se a transferência deveria ter obrigado a Centaurus a fazer uma oferta de compra para todos os acionistas (OPA).

A Oncoclínicas disse não identificar essa obrigação. O caso não tem desfecho.

Já Kaufman pode elevar sua fatia, pois detém 71,4 milhões de bônus de subscrição da Oncoclínicas, instrumento que dá direito de comprar ações a R$ 3,00 até novembro de 2027, com o BTG Pactual (BPAC11) como representante legal.

Há ainda uma fatia de 8,68% em disputa. O Banco Master, de Daniel Vorcaro, entrou na Oncoclínicas em 2024 com R$ 1 bilhão, chegando a 20% do capital, depois diluído com o aumento de capital de novembro.

Quando o Banco Central liquidou o Master, essas ações foram para o BRB, banco público do Distrito Federal, como pagamento de dívidas de Vorcaro. A Oncoclínicas obteve liminar neste mês impedindo o BRB de mexer nas ações.

O caso não tem ainda um desfecho. Há uma tensão adicional: se a fatia do BRB ultrapassar certo limite, a cláusula de poison pill seria acionada, obrigando o banco a fazer uma oferta de compra para todos os acionistas.

Há um quarto acionista relevante. Com 5,90% do capital da Oncoclínicas, está a Geribá Participações, veículo do Grupo Geribá, gestora brasileira especializada em special situations controlada pelo family office português Cardoso de Oliveira, de Nelson da Silva Cardoso de Oliveira.

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O grupo ficou conhecido no mercado por comprar a usina sucroalcooleira Santa Vitória, em Minas Gerais, da Dow Chemical em 2020, fazer seu turnaround e vendê-la à Jalles Machado (JALL3) por R$ 704 milhões em 2022.

Essa mesma gestora assumiu recentemente o controle da Alliança Saúde (AALR3), antiga Alliar, rede de medicina diagnóstica, ao comprar de credores as ações que pertenciam ao empresário Nelson Tanure, alvo da Operação Compliance Zero que investiga o caso Master.

A rede de medicina diagnóstica, que chegou a ser disputada pelo Grupo Fleury (FLRY3) em 2022, teve a filha de Tanure, Isabella, como CEO e depois presidente do conselho.

Antecipação de recebíveis

Para reforçar o caixa no curtíssimo prazo, a Oncoclínicas recorreu à Sicoob Credicom, maior cooperativa financeira da área de saúde do Brasil, para antecipar pagamentos devidos pela Unimed BH e pela Unimed Recife.

O limite da linha é de R$ 70 milhões, a taxa é de CDI mais 0,6% ao mês, e até 10 de março a empresa havia usado cerca de R$ 23 milhões, um terço do disponível.

A operação foi aprovada pelo conselho em 27 de fevereiro, gerou questionamento da CVM sobre a ausência de divulgação como fato relevante, e teve a ata corrigida em 12 de março para incluir montante, taxa e prazo.

A dívida bruta da Oncoclínicas chegou a R$ 4,8 bilhões. A Fitch rebaixou o rating da empresa de grau de investimento para risco de inadimplência iminente em fevereiro.

A Fitch aponta ainda R$ 865 milhões em recebíveis em atraso da Unimed-Ferj, cooperativa carioca em crise que chegou a suspender pagamentos à Oncoclínicas e forçou o descredenciamento temporário de 12 mil pacientes, renegociados com desconto em até dez anos.

A Oncoclínicas já convocou credores de cinco emissões de debêntures para votar um waiver, pedido para não ser considerada inadimplente caso descumpra limites contratuais, nos próximos dias 24 e 25, antes de divulgar o resultado de 2025, previsto para 30 de março.

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