Bloomberg — De pé em um palco em uma fábrica de motores de picapes da General Motors (GM) em Flint, nos EUA, o engenheiro-chefe executivo Mark Dickens toca uma gravação do novo motor V-8 da empresa sendo acelerado.
“Nunca me canso de ouvir o ronco do motor”, diz Dickens, que supervisionou o desenvolvimento das novas picapes Chevrolet Silverado e GMC Sierra, que chegam às concessionárias no fim deste ano.
A GM também nunca se cansa dos lucros que vêm dessas picapes beberronas. Esqueça as metas idealistas de ser 100% elétrica até 2035, que já ancoraram o objetivo da CEO Mary Barra de dobrar a receita: a empresa vive dos lucros das picapes, e as novas versões da Silverado e da Sierra virão com motores maiores e um plano para produzir ainda mais delas.
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O problema é o momento. A GM vai iniciar a produção das picapes e dos motores maiores justamente quando os preços dos combustíveis chegaram a quase US$ 5 por galão nos EUA e o do diesel bateu recorde.
Com uma linha completa de veículos híbridos, incluindo a picape Tundra, a Toyota se aproxima da GM em participação de mercado nos EUA e ameaça ultrapassar a maior montadora americana neste ano.
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Se isso acontecer, uma parte importante do legado de Barra, que completa 65 anos neste ano, pode ser a perda da liderança de vendas para a Toyota. Sob o comando dela, a GM investiu cerca de US$ 35 bilhões em uma dúzia de modelos elétricos e desde então baixou contabilmente quase um terço desse valor.
Os americanos não estavam comprando esses veículos em grande volume nem antes de o governo Trump eliminar os créditos fiscais de US$ 7.500 para ajudar os consumidores a adquiri-los e também acabar com as regras de economia de combustível que pressionavam o setor a fabricar mais carros elétricos.
Enquanto a Toyota amplia as vendas com híbridos, a GM aposta na maior economia de combustível dos motores a diesel e no aumento da potência dos motores a gasolina para atrair compradores. A montadora elevou a produção em suas fábricas de motores no oeste do estado de Nova York e em Ontário, no Canadá.
A GM também planeja ampliar a produção de picapes em uma fábrica hoje ociosa em Lake Orion, no Michigan, ao norte de Detroit, buscando reforçar sua posição de líder em picapes de grande porte. A fábrica chegou a ser destinada às versões elétricas da Silverado e da Sierra, o que significaria que a empresa teria duas plantas capazes de produzi-las. Mas, depois de vender apenas 19 mil picapes elétricas no ano passado, a GM vai converter a unidade para fabricar mais picapes a gasolina e SUVs Cadillac Escalade.
Apesar dos preços elevados dos combustíveis, o vice-presidente da Chevrolet, Scott Bell, diz que a empresa ampliará a produção de motores V-8 e de picapes elevadas para uso off-road porque os consumidores querem mais do que a GM consegue atualmente produzir.
Essas picapes são vendidas no varejo e, muitas vezes, a preços altos. A versão Silverado Trail Boss, feita para uso off-road, parte de cerca de US$ 55 mil.
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“Tivemos restrições em que sentimos que não tínhamos capacidade suficiente para talvez aproveitar parte do mercado que vinha batendo à nossa porta”, disse Bell. “Os V-8 foram um caso. Isso foi resolvido com este investimento.”
Quanto aos preços dos combustíveis, diz o presidente da GM, Mark Reuss, a alta atual parece mais ligada à geopolítica do que a uma mudança fundamental nos mercados de energia que exigiria que a montadora revisse sua estratégia de veículos. Ele disse que o novo motor a diesel da empresa superará as picapes híbridas em economia de combustível.
“Se as altas de combustível se tornarem a norma, há uma resposta para isso”, disse Reuss. “Se forem altas por condições geopolíticas, a resposta é outra. Se conseguimos superar os híbridos, vamos fazer isso, e acho que os clientes valorizam muito. A economia de combustível e a eficiência que acompanham o diesel são bastante notáveis.”
Assim como a Stellantis trouxe de volta o V-8 Hemi para a Ram, a GM deu mais potência a seus novos motores. A empresa tem um novo V-8 de 6,6 litros que entrega 481 cavalos de potência, um acréscimo de 61 cavalos.
A picape de trabalho de serviço pesado recebe um novo e gigantesco motor a diesel, chamado Mongoose, que entregará 555 cavalos e substitui um motor menor de 470 cavalos. A economia de combustível das novas picapes ainda não foi classificada pelo Departamento de Energia dos EUA.
As picapes também terão um novo sistema de infoentretenimento que permitirá ao motorista usar o CarPlay, da Apple, ou o Android Auto, do Google, em uma tela dividida que também mostra indicadores importantes do veículo, como combustível, pressão dos pneus, Super Cruise (direção sem as mãos) e informações de reboque. Além disso, o sistema permite usar funções do veículo e aplicativos do celular com menos alternância entre telas.
A GM não diz quanto vai acrescentar de produção, limitando-se a chamar de “significativa” a capacidade extra em Orion.
Sam Fiorani, vice-presidente de previsão global de veículos da AutoForecast Solutions, espera que a GM acrescente cerca de 100 mil picapes de produção. Se a GM fabricar todas elas e não reduzir a produção em uma fábrica de picapes no México para evitar tarifas, estaria buscando um crescimento de mais de 10%. Isso será difícil de conseguir, dada a lealdade que os donos de picapes costumam ter às suas marcas, disse ele.
“Eles estão tentando se expandir em áreas em que são fortes, mas não há muito espaço para crescer”, disse Fiorani.
E os preços dos combustíveis afetam parte das vendas de picapes, segundo a consultoria Cox Automotive. A expectativa é que as vendas de picapes de grande porte fiquem quase 2% abaixo no acumulado do ano quando os números do terceiro trimestre forem divulgados.
As picapes de porte médio, que consomem menos e atendem ao que alguns compradores precisam, devem subir em proporção semelhante.
Diz a analista executiva da Cox, Erin Keating: “As pessoas estão recuando por causa dos preços dos combustíveis”.
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