Fleury e Porto Seguro negociam entrada na Oncoclínicas; analistas apontam riscos

Potencial acordo prevê transferir clínicas e dívida de R$ 2,5 bi para nova empresa a ser controlada pelas duas companhias; Itaú BBA alerta para risco de perda de credenciamento com planos de saúde, valuation desconhecido e Ebitda incalculável num conselho rachado em que Goldman Sachs votou contra o acordo

Oncoclínicas
23 de Março, 2026 | 11:54 AM

Bloomberg Línea — O Grupo Fleury (FLRY3) e a Porto Seguro (PSSA3) estão negociando uma entrada na Oncoclínicas (ONCO3), que tem uma dívida bruta de R$ 4,8 bilhões, crise de governança e litígio societário envolvendo o Banco Master.

Fleury e Porto Seguro investiriam juntos R$ 500 milhões na NewCo por meio de uma holding, a HoldCo, da qual seriam os únicos controladores.

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O anúncio veio por fato relevante publicado nesta segunda-feira (23). As três companhias assinaram um term sheet, documento preliminar que estabelece as bases de uma negociação sem criar obrigações legais. Nenhum contrato definitivo foi celebrado. A operação pode não se concretizar.

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Analistas do Itaú BBA, que cobrem a ação do Fleury, reconhecem a lógica estratégica do movimento, mas apontam camadas de risco que o mercado ainda não precificou.

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A primeira é o credenciamento. A estrutura prevê a criação de uma NewCo, nova empresa que reuniria apenas os ativos e operações das clínicas oncológicas. Os hospitais permaneceriam na estrutura atual da Oncoclínicas.

Essa migração pode exigir novos acordos com operadoras de saúde. Contratos vigentes podem não ser transferidos automaticamente. “A potencial migração poderia colocar em risco acordos de exclusividade atualmente detidos pela Oncoclínicas”, escreve o analista Vinicius Figueiredo.

A segunda é financeira. “Não sabemos quanto do Ebitda da Oncoclínicas será transferido para a NewCo.” Sem esse número, o retorno projetado para Fleury e Porto Seguro permanece incalculável.

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A terceira é estrutural. Quanto vale a fatia correspondente ao investimento de R$ 500 milhões? “A avaliação implícita da transação permanece desconhecida.” O valuation da Oncoclínicas segue sem resposta pública.

A maior rede de oncologia da América Latina cresceu por aquisições aceleradas desde 2010. Em 2024, a companhia aplicou R$ 478 milhões em CDBs do Banco Master, instituição que chegou a deter 20% de seu capital e foi liquidada pelo Banco Central em novembro.

A exposição da Oncoclínicas ao caso Master abalou credores, fornecedores e médicos. O fundador Bruno Ferrari deixou o comando. A ação caiu mais de 60% nos últimos 12 meses.

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O Itaú BBA reconhece que a operação é coerente com a ambição do Fleury de expandir para segmentos de maior complexidade. O Fleury já opera uma joint venture em oncologia com Bradesco Saúde e Beneficência Portuguesa. Antes, houve negociações do grupo centenário de medicina diagnóstica com a Rede D’Or (RDOR3), mas não avançaram.

A entrada na Oncoclínicas seria um salto relevante nessa direção. O negócio, se consumado, ainda depende de aprovações de órgãos reguladores e de terceiros, segundo o fato relevante do Fleury, condições usuais para transações desse porte.

Maior alavancagem para o Fleury

O movimento, porém, tem custo direto para o Fleury. O CFO José Filippo havia declarado à Bloomberg Línea que o nível de alavancagem (dívida líquida dividida por Ebitda) da companhia encerrou 2025 em 1,0x, uma das mais baixas dos últimos anos.

“Pode subir um pouquinho em termos de oportunidade de investimento ou de uma aquisição, mas ela não vai passar muito de 1,2x”, disse Filippo no início deste mês.

Um desembolso de R$ 500 milhões pressionaria esse teto. A BradSaúde, holding do Bradesco que detém 24,85% do Fleury e é seu principal acionista, havia dado aval à estratégia independente da companhia. No início do mês, a CEO Jeane Tsutsui confirmou à Bloomberg Línea que “o conselho do Fleury aprovou a nossa estratégia.”

A NewCo absorveria uma dívida de até R$ 2,5 bilhões da Oncoclínicas, incluindo parcelamentos de fusões e aquisições, débitos tributários e obrigações com fornecedores.

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A NewCo emitiria debêntures conversíveis de R$ 500 milhões, títulos de dívida que podem se transformar em participação acionária, com prazo de 48 meses e remuneração de 110% do CDI. A conversão poderia ser solicitada a partir do 36º mês. A Oncoclínicas teria direito a subscrever até 30% dessas debêntures. A exclusividade para negociar os contratos definitivos é de 30 dias contados de 13 de março. Restam menos de duas semanas.

O setor pressiona ainda mais a operação. Operadoras comprimem margens. Custos médicos sobem. “O cenário mais desafiador atualmente observado na indústria torna a execução um fator-chave a monitorar”, conclui o Itaú BBA.

A operação enfrenta obstáculos concretos. O conselho da Oncoclínicas está rachado: a Latache controla cinco dos sete assentos, mas o Goldman Sachs, com dois, votou contra o acordo com a Porto Seguro. A disputa judicial em torno da fatia do BRB, herdada da liquidação do Banco Master, mantém ações da companhia congeladas na Justiça.

A Geribá Participações, com 5,90% do capital, acaba de assumir o controle da Alliança Saúde (AALR3), rede de medicina diagnóstica, dona dos laboratórios CDB, um concorrente histórica do Fleury.

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