Elas foram apontadas como ‘a próxima Tesla’. Agora amargam quedas de 90% na bolsa

Ações de Rivian e Lucid, que contam com Amazon e fundo soberano da Arábia Saudita como acionistas, enfrentam desconfiança de investidor diante de incertezas no mercado de carros elétricos

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Bloomberg — Houve um tempo em que o apoio de algumas das maiores empresas do mundo e a ambição de vender carros elétricos eram suficientes para inspirar confiança nas ações das novatas Rivian Automotive (RIVN) e Lucid Group (LCID). Mas parece que os investidores mudaram de ideia.

A razão é uma nova dose de choque de realidade para as duas empresas em torno da queda da demanda por veículos elétricos.

A Rivian, que fabrica picapes elétricas, SUVs e furgões de entrega e conta com a Amazon (AMZN) como sua principal acionista, disse que a produção permanecerá nos mesmos níveis do ano passado. A empresa também anunciou planos para reduzir a força de trabalho.

A Lucid, majoritariamente de propriedade do fundo soberano da Arábia Saudita, projetou apenas um pequeno aumento na produção. Ambas as previsões ficaram muito aquém das expectativas dos analistas.

Para os investidores, o sentimento de pessimismo vem se intensificando desde outubro passado, quando a Tesla (TSLA) alertou para o declínio do interesse em veículos elétricos.

Embora as ações da gigante de Elon Musk tenham se saído mal desde então, com perda de cerca de 20% e ficando com um desempenho abaixo do mercado em geral, o impacto sobre concorrentes menores como a Rivian e a Lucid tem sido desastroso.

“Se você é uma empresa de crescimento exponencial em uma indústria disruptiva e não está ampliando a sua receita, está em apuros”, disse David Mazza, diretor de estratégia da Roundhill Investments. “Ter um investidor âncora como a Amazon ou os sauditas lhes dá mais runaway [tempo em que uma startup consegue operar antes de o caixa acabar] do ponto de vista do capital, mas seu crescimento ainda será mais lento, e suas margens, mais estreitas do que o esperado.”

As ações da Rivian, com sede em Irvine, na Califórnia, caíram cerca de 44% desde o alerta da Tesla em outubro - o primeiro de uma série de perspectivas sombrias de fabricantes globais de veículos elétricos e fornecedores - e fecharam na mínima recorde em 23 de fevereiro.

A Lucid, com sede em Newark, também na Califórnia, caiu cerca de 33% no mesmo período e não está muito acima de seu ponto mais baixo.

Ainda assim, se não fosse por seus ricos apoiadores - a Amazon tem uma participação de 17% na Rivian, e o Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita detém cerca de 60% da Lucid, segundo dados compilados pela Bloomberg -, as ações poderiam estar com um quadro ainda mais delicado.

“A presença desses nomes traz conforto para os investidores e é um amortecedor para o preço”, disse Mazza. “Se essas ações estivessem apenas contando com a euforia dos veículos elétricos, então estariam em queda muito pior.”

A Amazon, em comunicado por e-mail, disse que os resultados recentes da Rivian não mudam nada sobre “investimento, colaboração ou tamanho e cronograma de encomendas” da empresa de comércio eletrônico. A Rivian tem um acordo com a Amazon para vender 100.000 furgões de entrega elétricos até 2030.

O PIF da Arábia Saudita não respondeu a um e-mail buscando comentários fora do horário comercial normal do fundo há uma semana.

Sinais de alerta

No geral, a maior preocupação é que essas empresas que queimam dinheiro e não são lucrativas terão dificuldades para vender carros em um momento em que até mesmo a líder do setor, Tesla - de longe a maior vendedora no mercado dos Estados Unidos - reduz os preços para impulsionar a demanda.

E, enquanto os lucros e a produção em grande escala da Tesla permitem competir baixando os preços, a Rivian e a Lucid não têm essas vantagens.

“Para esses fabricantes de automóveis, os investidores querem ver demanda”, disse David Wagner, portfolio manager da Aptus Capital Advisors. Os últimos resultados da Rivian sugerem que levará vários trimestres para emergir de sua interrupção de produção com uma estrutura de custos mais enxuta e uma plataforma redesenhada, disse ele.

“Enquanto isso, acho que os céticos estarão examinando o saldo de caixa e tocando os sinos de alarme”, disse Wagner. “Então, se não houver expansão múltipla e nenhum crescimento , o que mais a ação deveria fazer?”

Tanto a Rivian quanto a Lucid agora valem uma fração dos preços que alcançaram em suas respectivas estreias no mercado público em 2021. O valor de mercado da Rivian é de cerca de US$ 10,8 bilhões, e o da Lucid é de cerca de US$ 7,3 bilhões. Isso está muito abaixo dos picos de avaliação de US$ 153 bilhões e US$ 91 bilhões, respectivamente, em 2021. Em ambos os casos, quedas acima de 90%.

Os analistas de Wall Street também perderam a confiança. O preço-alvo médio em 12 meses para as ações da Rivian e da Lucid caiu quase 20% em apenas uma semana em fevereiro. Enquanto isso, a perspectiva para os veículos elétricos, em geral, só continua a piorar.

As vendas globais de elétricos devem crescer 20% neste ano, para cerca de 16,7 milhões de unidades, de acordo com a análise mais recente da BloombergNEF. Isso é um arrefecimento acentuado em relação ao aumento de 33% visto em 2023.

“Tentar ser a ‘próxima Tesla’ está se revelando uma estratégia cara”, escreveu o analista do Morgan Stanley, Adam Jonas, em uma nota recente. “Conforme as startups de carros elétricos se transformam em histórias de reestruturação, quem encontrar um sócio patrocinador tem a melhor chance.”

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