Bloomberg Línea — O CEO do Bradesco (BBDC4), Marcelo Noronha, defendeu nesta sexta-feira (23) a manutenção das linhas de crédito para micro, pequenas e médias empresas garantidas pelos fundos FGI (Fundo Garantidor para Investimentos) e FGO (Fundo Garantidor de Operações), seja qual for o resultado da eleição presidencial de domingo (25). Para analistas, essas linhas de empréstimos, cuja natureza público-privada combina capital e participação governamental, explicam cerca de metade da alta da inadimplência no terceiro trimestre, e a eleição ganha peso na avaliação das ações do banco.
Para Noronha, os fundos formam “um dos melhores programas governamentais que a gente já viu em todos os tempos”, por oferecer às empresas prazos mais longos, juros menores e carência. “Independentemente do governo, eu, se estivesse sentado [na cadeira de quem decide], manteria essas linhas”, disse em teleconferência com analistas.
Ele respondia a uma pergunta do Bank of America sobre uma possível redução desses recursos. “Esse vento, se bater, não bate só aqui. Vai bater no mercado, de uma forma geral”, afirmou.
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As linhas já estão entre as cinco maiores carteiras do Bradesco e crescem 31% em um ano, segundo os executivos. Pelos cálculos do J.P. Morgan, elas responderam por 0,14 ponto percentual da alta dos atrasos acima de 90 dias, que foram de 4,3% para 4,6% da carteira no trimestre.
O papel do Estado no crédito separa os programas dos candidatos. A cartilha econômica de Flávio Bolsonaro (PL) propõe limitar “o crédito subsidiado com recursos do Tesouro” e não menciona os fundos garantidores. Em debate na Band, o candidato propôs que o governo compre dívidas bancárias com desconto e dê carência de até 12 meses a empresas.
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Já o programa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prevê ampliar o crédito e os fundos garantidores para pequenos negócios. Em agosto, o governo editou medida provisória que autorizou aportes de R$ 2 bilhões no FGI e de R$ 750 milhões no FGO.
O Datafolha divulgado na quinta-feira (22) mostrou empate, com 50% dos votos válidos para cada candidato.
Em entrevista a jornalistas, Noronha evitou comentar a disputa. “Eu prefiro não entrar no mérito eleitoral”, disse.
O Bradesco antecipou a divulgação do balanço, prevista para 4 de novembro, porque Noronha viaja ao exterior e só volta no dia 3, segundo ele. Na entrevista, uma jornalista da Reuters perguntou se a mudança de data tinha relação com a eleição. Noronha negou. “Em momento algum a gente ficou preocupado, levou em consideração a questão das eleições”, disse.
As ações do banco, que chegaram a cair mais de 2% na abertura desta sexta-feira, reduziram as perdas para menos de 1% após a teleconferência com analistas.
O BTG Pactual, que tem recomendação neutra para a ação, afirma que a eleição se tornou um catalisador cada vez mais importante, por dar visibilidade às contas públicas e à trajetória dos juros. Segundo o BTG, isso importa mais para Bradesco, Banco do Brasil e Santander do que para o Itaú.
O J.P. Morgan, com recomendação overweight (acima da média do mercado), disse que compraria ações nas quedas por ver o Bradesco como “uma boa opção para investir durante o período eleitoral”.
Juro abaixo de 10%
No debate na Band no último domingo (18), Flávio Bolsonaro disse que os juros cairiam rapidamente em seu governo. A jornalistas, o CEO do Bradesco estimou o ganho que um juro menor traria ao banco.
“Se a gente tivesse o vento de uma economia com crescimento maior, a taxa de juros abaixo de 10%, a gente iria estar crescendo 20% da nossa carteira de crédito e entregando um LL [lucro líquido] talvez R$ 400, R$ 500 milhões a mais”, disse.
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Na teleconferência com analistas, o executivo afirmou que o juro real está em “quase 10%” e ponderou que o efeito de uma queda sobre a inadimplência é lento.
“O juro menor impacta o custo de crédito, mas não é rápido”, disse. Segundo ele, o custo de crédito e os atrasos vão continuar pressionados por algum tempo.
“Não muda da noite para o dia, em 2027, mas quem sabe mais para o final do ano, em 2028 também.”
‘O ano do Prime’
Aos analistas, Noronha apontou 2027 como “o ano do Prime”. O segmento fica entre o varejo digital de massa e o Principal, voltado à alta renda, e cedeu clientes e gerentes aos dois. “A gente vai ver um Prime agora decolando”, disse.
O Principal fechou setembro com 93 escritórios e mais de 500 mil clientes. A meta é chegar a mais de 120 escritórios e 800 mil clientes em dezembro, quando a implantação será concluída.
A alta renda já sustenta parte do resultado. As receitas com cartões atingiram o recorde de R$ 4,8 bilhões no trimestre, puxadas por esse público, que responde por cerca de 57% do faturamento com cartões e cujo gasto cresceu 13% em um ano, segundo o banco.
O CFO, Cassiano Scarpelli, disse aos analistas esperar resultado de tesouraria “muito parecido” no quarto trimestre, o que levaria a linha a cerca de R$ 3 bilhões em 2026, e afirmou que “a gente terá um ano de 2027 promissor”. O diretor de relações com investidores, André Carvalho, disse que a margem financeira líquida de provisões deve fechar o ano perto do piso do guidance, de R$ 42 bilhões a R$ 48 bilhões.
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