Bloomberg Línea — O grupo francês GL Events é um gigante global na organização de eventos. Opera 61 equipamentos - como são chamados, por exemplo, espaços multiuso - em 26 países, do Stade de France em Paris a centros de convenções em capitais da Europa e na China, além de fornecer infraestrutura para os Jogos Olímpicos.
Mas é na América Latina e, em particular no Brasil, que encontrou um de seus principais mercados no mundo.
A região representa a segunda maior operação do grupo e tem crescido de tal modo que a empresa acaba de conseguir antecipar em dois anos, de 2027 para 2025, a meta de faturar R$ 1,2 bilhão.
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O Brasil, por sua vez, é a terceira maior operação da companhia na classificação por países, com R$ 900 milhões em receitas em 2025; o Chile respondeu pelos demais R$ 320 milhões do faturamento regional.
As concessões representaram 50% das receita em LatAm, seguidas pela divisão Live, de infraestrutura temporária (30%), e pela Exhibitions, de eventos próprios (20%).
A antecipação da meta de receitas só se tornou possível com a decisão de acelerar investimentos em concessões no Brasil, segundo contou Milena Palumbo, CEO da GL Events para a América Latina, em entrevista à Bloomberg Línea.
O grupo francês investiu R$ 608 milhões para revitalizar e modernizar o antigo Complexo Anhembi, um dos mais tradicionais centros de convenção do país, na zona norte de São Paulo, rebatizado como Distrito Anhembi.
“Qual é a empresa que coloca R$ 600 milhões em 18 meses em uma concessão?”, questionou Palumbo à Bloomberg Línea. “A velocidade da transformação fala muito sobre a importância da região e do equipamento.”
A GL Events venceu a licitação para administrar e explorar comercialmente o Anhembi em janeiro de 2021, com um contrato de 30 anos e o compromisso de investir mais de R$ 1 bilhão no complexo.
Em uma área com 400 mil metros quadrados, o Distrito Anhembi foi reinaugurado em junho de 2024 abrigando o Sambódromo, o Palácio de Convenções e o Pavilhão de Exposições, além de praças, auditórios e espaços climatizados.
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A reforma do Anhembi incluiu digitalização completa do sistema de iluminação dos arcos do Sambódromo, com troca para LED, renovação de camarotes e banheiros, e restauração das 2.500 cadeiras do anfiteatro.
“O nível de cuidado e de investimento que colocamos no Sambódromo representa outro patamar”, disse a CEO, que ressaltou que o Distrito Anhembi já possui uma agenda de eventos confirmada até 2030.
Além disso, tem como apelo - já existente originalmente - a localização e o acesso, com avenidas largas no seu entorno que o diferenciam de outros centros de exposição da cidade.
Está ao lado do aeroporto do Campo de Marte, de aviação executiva, no caminho para o Aeroporto Internacional de São Paulo, na cidade de Guarulhos, e próximo ao Terminal Rodoviário Tietê, com estação de metrô.
No Brasil, além do Distrito Anhembi, a GL Events gerencia outras cinco concessões: o São Paulo Expo, na rodovia Imigrantes, na zona sul da capital paulista; o RioCentro e a Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, além do Centro de Convenções de Salvador e do Santos Convention Center.
Desde que chegou ao país há 20 anos para os Jogos Pan-Americanos do Rio, realizado em 2007, a gigante francesa já investiu R$ 2,1 bilhões.
Capital do turismo de negócios
A CEO destacou a importância estratégica de São Paulo no mercado de eventos, bem como seu consequente potencial para negócios.
“São Paulo é o destino de turismo e de negócios do Brasil. Segundo dados da Ubrafe [União Brasileira de Feiras e Eventos de Negócios], 75% de todos os eventos B2B que acontecem no Brasil estão sediados na capital paulista”, disse.
Palumbo destacou que o Distrito Anhembi é um ativo de caráter único no portfólio global da GL Events.
“Não existe um equipamento no mesmo lugar que tenha pavilhão de exposições, centro de convenções de alto padrão, anfiteatro para 2.500 pessoas e sambódromo dedicado a entretenimento e cultura. E ao lado de um aeroporto.”
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O Anhembi programou quatro shows de grande porte para 2026 - de artistas ainda não revelados -, com capacidade para 30 mil pessoas no Sambódromo.
A etapa de São Paulo da Fórmula E, categoria mundial de monopostos totalmente elétricos, que realizou sua quinta edição no Sambódromo em dezembro de 2025, exemplifica o posicionamento em eventos internacionais, disse a executiva.
“A Fórmula E só acontece em circuitos urbanos, porque os organizadores querem mostrar que os carros elétricos são o futuro”, explicou. A corrida de carros elétricos, com naming rights do Google Cloud, tem sua largada no Sambódromo.
O São Paulo Expo, por sua vez, é considerada o maior centro de convenções da América Latina, com cerca de 100 mil metros quadrados de área climatizada. Abrigou feiras como a Expo Revestir, a Feicon, a Hospitalar, a CCXP e a Expert XP em 2025, com 2,5 milhões de visitantes, segundo Palumbo.
Expansão nacional
Além de São Paulo, a estratégia da GL Events no Brasil passa pelo fortalecimento de operações no Rio de Janeiro e em Salvador e outras capitais.
O RioCentro, na Barra da Tijuca, vai receber oito congressos internacionais inéditos até 2027, com projeção de atrair 48.000 participantes, dos quais 55% estrangeiros, e injetar US$ 79 milhões na economia carioca, segundo o VisitRio.
O Congresso Internacional de Ortodontia, em outubro de 2025, reuniu 10.000 pessoas, sendo 90% de fora do país.
“É dinheiro novo que não existe em lugar nenhum”, afirmou a CEO.
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A Bienal do Livro Rio recebeu 740 mil pessoas e gerou impacto estimado em R$ 1,8 bilhão, com 6,8 milhões de livros vendidos em 2025.
Em Salvador, o investimento no Centro de Convenções recolocou a cidade no mapa de eventos, segundo a executiva. A cidade receberá a Conferência Nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em 2026 após 24 anos.
Desde a inauguração do Centro de Convenções em 2020, foram mais de 450 agendas, 1,2 milhão de visitantes e impacto superior a R$ 1 bilhão.
A captação de congressos internacionais funciona com horizontes de dez anos, explicou Palumbo. “Você fica cinco anos prospectando e fazendo o bid [a proposta na disputa]. É um trabalho extremamente complexo.”
Outros países
A GL Events tem uma atuação considerada relevante também em infraestrutura temporária, por meio de sua divisão Live, que inclui da montagem de estandes até a estrutura para os Jogos Olímpicos, a maior competição esportiva do mundo.
“A GL montou 70% de tudo o que você viu nos Jogos Olímpicos de Paris em 2024”, contou Palumbo. O grupo vai atuar também na Olimpíada de Inverno de Milão-Cortina, na Itália, em fevereiro de 2026.
No Chile, onde está há nove anos e já investiu R$ 372 milhões, o grupo se tornou o principal produtor de eventos: são 15 feiras proprietárias, incluindo a Expomin, segunda maior feira de mineração do mundo, e a AquaSur, segunda maior de salmão e aquicultura.
Para 2026, Palumbo disse que o grupo planeja acelerar a expansão na América Latina por meio de novas concessões e M&As (fusões e aquisições), embora classifique México e Argentina como dois “mercados difíceis” para operar.
A executiva enfatizou que os investimentos privados só acontecem quando há parceria com o poder público. “Fazemos capex enormes desde que as cidades sejam nossas parceiras no desenvolvimento do destino”, afirmou.
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