Bloomberg Línea — Quando a Azul entrou no processo de recuperação judicial americano, o Chapter 11, em 28 de maio de 2025, a narrativa dominante no mercado era de encolhimento. A frota seria cortada. As rotas, reduzidas. A empresa sairia menor.
John Rodgerson, que chegou ao Brasil em 2008 para ajudar a estruturar o plano de negócios original da companhia aérea e ocupa o cargo de CEO desde 2017, reconhece que essa percepção foi favorável à empresa no processo de reestruturação.
“Às vezes a imprensa gosta da nuvem negra. E essa nuvem nos ajudou a negociar melhor: pessoas achando que íamos ficar menores foi muito benéfico para nós”, disse o executivo nesta segunda-feira (23), em entrevista a jornalistas realizada após a conclusão formal do processo recuperação judicial na última sexta-feira.
“Isso [percepção negativa] ajudou a gente a negociar melhor com locadoras, fornecedores e credores”, explicou Rodgerson, que foi diretor financeiro e de relações com investidores antes de assumir o cargo de CEO em 2017 no lugar de Antonoaldo Neves, indicado por David Neeleman, então controlador da companhia.
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A lógica do executivo é simples: diante da perspectiva de colapso, credores fazem mais concessões, porque, do contrário, estimam que não receberão nada de volta. A Azul transformou essa assimetria em vantagem.
O resultado contrariou o cenário que o próprio mercado temia. A Azul encerrou a reestruturação com alavancagem de 2,4 vezes, o menor nível da história da empresa na relação dívida líquida/Ebitda. Segundo o próprio CEO, em 2019 a alavancagem chegava a 3,3 vezes, com o câmbio a R$ 3,80.
Com o dólar hoje cotado a R$ 5,20, abaixo da premissa de R$ 5,50 usada no plano da companhia, o índice efetivo tende a ser ainda melhor do que o projetado.
“É muito melhor do que a Azul era no nosso melhor momento histórico”, disse Rodgerson.

Os custos foram enxugados de forma estrutural, destacou o executivo. Os juros pagos sobre empréstimos e financiamentos caíram mais de 60%. O aluguel das aeronaves foi reduzido em mais de um terço. A dívida total de empréstimos e arrendamentos recuou aproximadamente US$ 2,5 bilhões. E a frota, que muitos esperavam que fosse devolvida em bloco, saiu do processo com 175 aeronaves em operação, ainda a maior do Brasil segundo o CEO.
“Estou voando o mesmo número de passageiros com um custo um terço menor”, afirmou Rodgerson.
“No ano passado, recebemos quatro ofertas para financiar nossas aeronaves. No mês passado, ainda dentro da recuperação judicial, recebemos 27. O mercado já viu que é uma Azul bem diferente.”
United e American como sócias
A entrada de dois novos sócios reforça essa leitura externa. A United Airlines, parceira há mais de 12 anos, aportou US$ 100 milhões ao final do processo e terá cerca de 8% do capital. A American Airlines formalizou compromisso de igual valor e participação, sujeito à aprovação do Cade, o órgão antitruste brasileiro.
Enquanto o processo regulatório não é concluído, os próprios credores da Azul adiantaram os US$ 100 milhões para garantir que a companhia saísse com caixa suficiente.
A presença simultânea de duas rivais diretas no capital da mesma companhia é inédita no setor aéreo global. Rodgerson minimizou conflitos: “Hoje não temos nenhuma rota concorrendo com United ou American. Elas não voam nessas cidades”.
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A análise do Cade deverá avaliar exatamente esse ponto. Do ponto de vista de governança, a reestruturação redesenhou o controle da empresa. A Azul passa a funcionar como uma corporation de capital disperso, sem acionista controlador definido. O fundador da companhia permanece no conselho, mas com participação descrita pelo CEO como “mínima”.
“O que foi protegido neste processo foi a Azul”, disse Rodgerson.
Novas aeronaves e Copa do Mundo
O crescimento a partir de agora será conservador por escolha. A empresa prevê receber entre 5 e 10 aeronaves por ano, ritmo muito inferior aos picos de mais de 20 registrados em anos anteriores. Treze aeronaves paradas por questões técnicas serão reativadas.
Dois novos A330neo chegarão de fábrica ainda em 2026, substituindo modelos devolvidos à locadora Avalon até julho ou agosto, quando as rotas internacionais voltam à capacidade plena. A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, já está no radar.
“Todos os nossos ativos estão olhando para os Estados Unidos, porque é onde vai estar a demanda. O brasileiro adora futebol”, disse o CEO, sinalizando foco no segundo semestre nas cidades-sede do torneio.
Rodgerson chegou ao Brasil em 2008, quando ajudou a fundar a Azul ao lado de Neeleman. Natural de Bridgeport, Connecticut, nos Estados Unidos, ele trouxe a família com expectativa de passar apenas três ou quatro anos no Brasil, mas acabou ficando permanentemente.
Antes da Azul, trabalhou na JetBlue e na IBM Global Services. Assumiu o comando como CEO em 2017 e desde então conduziu a empresa por seis anos de crises acumuladas, da pandemia ao colapso de Porto Alegre, da variante ômicron à desvalorização cambial.
Perguntado na entrevista se pretende deixar o cargo após concluir a reestruturação, como fizeram outros CEOs em processos similares no exterior, foi direto.
“Para mim, o início do pós-Chapter 11 é a melhor coisa que existe. Vou surfar isso, porque estou bem animado sobre o nosso futuro.”
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