Americanas conclui venda de jatinho e vai leiloar carros para pagar salários

Varejista em recuperação judicial, que tinha R$ 1,4 bilhão em caixa ao fim de janeiro, transfere Phenom 300 para empresário; e terá que pagar R$ 107 milhões para comprar fatia do Grupo Uni.co

Modelo do jato Phenom 300, semelhante ao vendido pela Americanas para empresário para levantar recursos que vão reforçar o caixa
02 de Março, 2024 | 04:18 PM

Bloomberg Línea — A Americanas (AMER3) tem reforçado o caixa com a venda de ativos enquanto se prepara para iniciar o pagamento a pequenos credores (com até R$ 12 mil a receber) a partir de 1⁰ de abril, após a Justiça do Rio de Janeiro homologar o seu plano de recuperação judicial no último dia 27 de fevereiro.

A empresa varejista concluiu a venda de seu jatinho Phenom 300 e acabou de transferir a propriedade da aeronave fabricada pela Embraer (EMBR3) em 2014, de 10 assentos, para o empresário Beto Studart, ex-vice-presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria).

O avião consta da lista de bens indicados para venda na primeira versão do plano de reestruturação, divulgada em março do ano passado.

Em janeiro, a companhia “finalizou os trâmites da alienação da aeronave”, segundo o 12º RMA (Relatório Mensal de Atividades) enviado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) na noite da última quinta-feira (29).

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O RAB (Registro Aeronáutico Brasileiro), consultado pela Bloomberg Línea, confirma que a transferência do modelo EMB-505 para Jorge Alberto Vieira Studart Gomes se deu em 23 de janeiro.

O empresário de 77 anos é considerado um dos principais milionários do estado do Ceará e comanda o grupo BSPAR, com atuação principalmente no segmento da construção civil e da incorporação imobiliária. A Bloomberg Línea não conseguiu entrar em contato com Studart.

Em abril de 2014, a Americanas havia desembolsado R$ 25,6 milhões pelo Phenom 300, um dos bimotores da Embraer preferidos pela elite brasileira, como o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, sendo o modelo de jato leve mais vendido no mundo. No ano passado, a Embraer entregou 63 aeronaves da série Phenom 300 a clientes - tendo acumulado mais de 730 entregas em dez anos, operando em 40 países.

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No relatório enviado à CVM, a Americanas não informa o valor pago por Beto Studart, mas o plano de recuperação apresentado em março indicava R$ 47 milhões como um valor justo para a aeronave. O jornal O Globo noticiou em novembro, sem revelar a fonte, que o empresário tinha arrematado o bem por US$ 9 milhões. Segundo o RAB, a aeronave não poderá ser usado para táxi aéreo.

Oficialmente, a Americanas só assumiu a propriedade do jato em setembro - antes o Phenom 300 estava no nome do Itaú Unibanco (ITUB4), um dos seus principais credores, que concedeu o financiamento de leasing à varejista em 2014. Quando entrou em recuperação judicial (RJ) em 19 de janeiro do ano passado, a companhia não havia ainda quitado o empréstimo com o banco.

Leilão de carros

Depois de ter vendido seu jatinho, a Americanas pretende se desfazer de veículos para levantar mais recursos para ajudar a manter suas operações. A companhia informou ter conseguido autorização judicial para realizar um leilão de automóveis, cujos recursos serão destinados para o pagamento de salários.

O relatório mensal detalha que serão vendidos um Tiguan 2.0, um Passat 2.0, ambos da Volkswagen, e um Volvo XC40 t5 momentum. Além desses veículos, a companhia pretende se desfazer de 28.859 porta-pallets e 5.829 estruturas de drive-in. O documento não estima quanto a companhia espera arrecadar.

A venda desses bens deve ajudar a melhorar o caixa disponível da companhia, que fechou o mês de janeiro em R$ 1,424 bilhão, abaixo da posição de dezembro (R$ 1,581 bilhão), mas acima do total de novembro (R$ 1,351 bilhão) e outubro (R$ 1,104 bilhão). A companhia informou ter recursos bloqueados por três credores: Safra (R$ 98 milhões), Votorantim (R$ 366 milhões) e BTG Pactual (R$ 1,220 bilhão).

A redução de caixa da companhia se dá em momento em que a rede fecha lojas deficitárias. A Americanas encerrou janeiro com 1.751 lojas, três a menos que em dezembro. A varejista informou que, no final do primeiro mês de 2024, seu parque de lojas representava 93,05% do período anterior à RJ. Desde o início da crise, já foram fechadas 129 unidades. Em janeiro de 2023, eram 1.880 unidades.

Na última segunda-feira (26), quando divulgou um prejuízo acumulado de R$ 4,6 bilhões nos três primeiros trimestres de 2023, o CEO Leonardo Coelho sinalizou o plano de fechar cerca de 80 lojas neste ano.

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O número de clientes também tem diminuído. No final de janeiro, somavam 41,144 milhões, abaixo dos 41,258 milhões de dezembro e dos 47,436 milhões de fevereiro do ano passado. A companhia registrava 32.296 empregados sob regime CLT (com carteira assinada) no final de janeiro. Já houve um corte de 25% da força de trabalho. Antes da entrar em proteção judicial, eram 43.123 funcionários.

A varejista tem terceirizado algumas operações das lojas físicas, como serviços de limpeza, manutenção e segurança, com a contratação de 112 PJs (pessoas jurídicas) no fim de janeiro. Segundo o relatório mensal, os prestadores de serviços estão sendo aproveitados também na logística dos centros de distribuição.

Pagamento de R$ 107 mi a minoritários do Uni.co

Além do jatinho, o plano de restruturação da Americanas prevê possibilidade de venda da Natural da Terra, da Vem Conveniência, do grupo Uni.co, rede de franquias das marcas Imaginarium (artigos de presente geek) e Puket (roupas infantis e acessórios), e a Ame, plataforma digital de pagamentos e cashback.

A HNT (Hortifruti Natural da Terra), adquirida em 2021 por R$ 2,1 bilhões, é alvo, por exemplo, da rede de supermercados St. Marche, controlada por fundos da gestora americana L Catterton.

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Na última segunda-feira (26), a CFO da Americanas, Camila Faria, disse à Bloomberg Línea que o processo de venda desses ativos (ou parte deles) não tem uma previsão de retomada no curto prazo, pois o foco é maximizar o valor das unidades de negócios.

Na noite de ontem (1º de março), em fato relevante, a companhia informou ter sido notificada pela gestora Squadra de que acionistas minoritários do Grupo Uni.co, representando 30% do capital, decidiram exercer o direito de venda de sua participação por um valor corrigido de R$ 106,941 milhões, como indicava o contrato do negócio de aquisição da rede de franquias em julho de 2021.

A CFO da Americanas disse que está avaliando os termos da notificação, ou seja, não há uma decisão oficial da compra das ações e o consequente impacto em seu caixa. Em outubro, a companhia suspendeu a busca de potenciais compradores para o grupo Uni.co, citando propostas abaixo das expectativas.

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Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.