Ouro supera US$ 5.000 pela primeira vez com temores sobre o cenário global

Fuga de investidores de títulos soberanos e moedas ajuda a estender o rali do metal, que já avança 18% em 2026; investidores reagem a mudanças geopolíticas promovidas por Trump

Ganhos do ouro reforçam o papel histórico do metal como termômetro do medo nos mercados. (Foto: Matt Jelonek/Bloomberg)
Por Yihui Xie - Jack Ryan
26 de Janeiro, 2026 | 01:43 PM

Bloomberg — O ouro ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 5.000 a onça, ampliando um rali impulsionado pela reconfiguração das relações internacionais promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pela fuga de investidores de títulos soberanos e moedas.

O metal precioso chegou a avançar até 2,5%, para mais de US$ 5.111, nesta segunda-feira (26), com a fraqueza do dólar reforçando a demanda.

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Um índice da moeda americana recuou quase 2% em seis sessões, em meio a especulações de que os EUA possam ajudar o Japão nos esforços para fortalecer o iene — o que elevou as preocupações com a independência do Federal Reserve e com a condução errática das políticas de Trump.

A prata também disparou, alcançando um recorde acima de US$ 110 a onça.

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Os ganhos do ouro reforçam o papel histórico do metal como termômetro do medo nos mercados. Depois de registrar em 2025 seu melhor desempenho anual desde 1979, o ouro acumula alta de cerca de 18% neste ano, em grande parte por causa da chamada “operação de desvalorização”, na qual investidores se afastam de moedas e dos Treasuries.

A liquidação em larga escala no mercado de títulos do Japão na semana passada é o exemplo mais recente da rejeição dos investidores ao elevado gasto fiscal.

Nas últimas semanas, as iniciativas do governo Trump — ataques ao Fed, ameaças de anexar a Groenlândia e intervenção militar na Venezuela — também assustaram os mercados.

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“O ouro é o inverso da confiança”, disse Max Belmont, gestor de portfólio da First Eagle Investment Management, que detém bilhões de dólares em ouro. “Ele funciona como proteção contra surtos inesperados de inflação, quedas imprevistas do mercado e episódios de agravamento do risco geopolítico.”

O aumento da dívida pública nas economias avançadas tornou-se outro pilar importante da alta do ouro. Alguns investidores de longo prazo, convencidos de que a inflação acabará sendo o único caminho para a solvência dos Estados, têm ampliado posições no metal como forma de preservar o poder de compra.

“As pessoas passaram a se preocupar muito mais com a trajetória da dívida no longo prazo nos últimos três anos”, afirmou John Reade, estrategista-chefe do World Gold Council. “Onde mais encontrei os argumentos de desvalorização e dívida foi entre os family offices. Eles pensam na proteção do patrimônio entre gerações, e não no curto prazo.”

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Ainda assim, a velocidade dos ganhos do ouro foi suficiente para levar alguns investidores a refletir. A maioria dos gestores considerava o ouro a operação mais congestionada em uma pesquisa do Bank of America realizada antes da escalada das tensões envolvendo a Groenlândia no início deste mês.

Cerca de 45% dos entrevistados avaliaram o ouro como sobrevalorizado, empatando com maio de 2025 como a maior proporção já registrada.

A prata apresentou uma valorização ainda mais rápida, sustentada por forte demanda por investimento, inclusive de investidores de varejo, de Xangai a Istambul.

Essa operação de desvalorização atingiu o auge no fim de 2025, quando investidores de destaque, como o CEO da Citadel, Ken Griffin, e o fundador da Bridgewater Associates, Ray Dalio, apontaram a alta do ouro como um sinal de alerta.

Os investidores agora aguardam a escolha de Trump para o próximo presidente do Fed, depois de o presidente americano afirmar que concluiu as entrevistas com os candidatos e reiterar que já tem um nome em mente.

Um presidente do Fed mais dovish aumentaria as apostas em novos cortes de juros neste ano — um fator positivo para o ouro, que não rende juros — após três reduções consecutivas.

As compras de bancos centrais que ajudaram a impulsionar a alta do ouro também devem continuar. O Goldman Sachs projeta aquisições de cerca de 60 toneladas por mês neste ano, volume de metal avaliado em quase US$ 10 bilhões aos preços atuais. Grande parte dessas compras não é declarada e não aparece nas estatísticas econômicas.

O banco central da Polônia, o maior comprador declarado do mundo, aprovou recentemente planos para adquirir mais 150 toneladas. Isso supera todo o volume de reservas de grandes economias como México ou Brasil.

“Nosso objetivo principal é construir um portfólio adequado para estes tempos geopolíticos instáveis, que garanta à Polônia estabilidade, segurança e credibilidade”, disse à Bloomberg News o membro do conselho de administração Artur Sobon. “O preço não é uma consideração primordial para nós.”

A atratividade do ouro também aparece nos dados de posicionamento de especuladores, enquanto operadores de opções se preparam para novas altas em um mercado superaquecido, no qual poucos desejam ir contra a tendência. A reversão de risco de um mês, indicador de sentimento e posicionamento, saltou para o nível mais alto desde abril de 2024.

“Embora as reversões de risco geralmente fiquem positivas durante fortes ralis do ouro, o movimento atual se destaca pela magnitude e persistência”, disse Christopher Wong, estrategista do Oversea-Chinese Banking Corp. Isso indica que o mercado de opções “se posiciona para algo além de um salto de preços de curto prazo, em linha com o ouro incorporando um prêmio geopolítico e de confiança”, afirmou.

O ouro avançava 2%, para US$ 5.087,99 a onça, às 11h15 em Londres. A prata subia 5,8%, para US$ 109,16. A platina alcançou um recorde, e o paládio também registrou alta. O índice Bloomberg Dollar Spot caía 0,4%, após ter recuado 1,6% na semana passada.

-- Com colaboração de Alex Longley e Josh Xiao.

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