Há demanda crescente do investidor por ativos em Brasil e México, diz BlackRock

Em entrevista à Bloomberg Línea, Aitor Jauregui, head para América Latina da maior gestora do mundo, destaca o apetite estrangeiro a produtos relacionados a temas como clima e infraestrutura

A BlackRock tinha cerca de US$ 9,1 trilhões em ativos sob gestão no mundo ao fim do terceiro trimestre (Foto: Michael Nagle/Bloomberg)
30 de Novembro, 2023 | 04:45 AM

Bloomberg Línea — Brasil e México estão diante de oportunidade rara de atração de capital estrangeiro com a demanda de investidores por ativos em áreas como infraestrutura, transição energética e sustentabilidade, que ajudam a proteger portfólios contra a inflação e atendem a critérios de alocação em temas ESG. Foi o que apontou a BlackRock, maior gestora do mundo com mais de US$ 9 trilhões em ativos, em entrevista à Bloomberg Línea de duas de suas lideranças executivas para a América Latina e o Brasil.

“A América Latina tem uma oportunidade fantástica para capitalizar em cima disso [de mega tendências]. Acredito que haverá mais investimentos não apenas dos Estados Unidos mas de empresas chinesas que querem apostar na América Latina. Há muitos benefícios: recursos naturais, geografia, proximidade com os EUA e também com o Canadá”, disse Aitor Jauregui, Head para a América Latina da BlackRock, em entrevista à Bloomberg Línea em viagem a São Paulo neste mês.

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O executivo espanhol assumiu o comando das operações para a região em março. Anteriormente, ele liderava a área de gestão de fundos globais para Espanha, Portugal e Andorra.

“Recebemos uma demanda crescente de interesse por parte dos clientes para investir em países em desenvolvimento. Países que estarão na vanguarda da infraestrutura climática, essencialmente, e em tecnologias climáticas que vão acelerar a transição”, disse Jauregui.

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Como exemplo da demanda, a BlackRock anunciou há poucas semanas o seu primeiro investimento em uma empresa na América Latina por meio da Climate Finance Partnership, uma parceria da gestora com os governos de Alemanha, Japão e França para projetos sustentáveis em emergentes.

O investimento de valor não revelado se deu na empresa brasileira Brasol, que atua com a geração de energia solar para clientes empresariais.

“Foi o primeiro investimento de um de nossos fundos estrangeiros, com capital e tecnologia também estrangeiros, que estão tornando o Brasil e a América Latina mais sustentáveis. Vemos uma grande demanda de investidores globais para esse tipo de projeto”, disse Karina Saade, Country Manager da BlackRock para o Brasil, na mesma entrevista à Bloomberg Línea.

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Leia a seguir a entrevista com Aitor Jauregui e Karina Saade, da BlackRock, editada para fins de clareza:

Bloomberg Línea: Quais as oportunidades que a BlackRock identifica para a América Latina? Em quais mercados?

Aitor Jauregui: Eu pensaria nessa estratégia em três pilares ou verticais diferentes. Um em iniciativas comerciais, orientadas para negócios. O outro está mais relacionado ao talento e a como apoiamos nossa equipe e promovemos esse crescimento. E o terceiro é o ecossistema, a promoção de diferentes iniciativas para nos tornarmos ainda mais relevantes nas comunidades em que atuamos.

Quando se trata de iniciativas relacionadas aos negócios, eu acredito que a região tem muitas oportunidades para promover investimentos em infraestrutura, infraestrutura climática e novas tecnologias que vão acelerar a transição para uma economia de baixo carbono, por exemplo.

Na região, houve muitos países altamente dependentes de hidrocarbonetos, mas vejo pontos positivos devido aos recursos naturais e a forma como a região está preservada.

Aitor Jauregui, Head of Latin America for BlackRock.dfd

Quais as oportunidades do ponto de vista de negócios na região?

Jauregui: Estamos presentes em diferentes países e temos operações significativas no México. Temos 225 pessoas lá, cobrindo tanto a área de gestão de patrimônio quanto de negócios institucionais. Algo interessante está acontecendo no país: as contribuições no sistema de pensões estão aumentando, ao contrário do que acontece talvez no resto da região, não necessariamente aqui.

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No México, o sistema de previdência privada vai dobrar de tamanho devido a essas contribuições que vão passar de 6,5% para 15%. Há muita coisa acontecendo nesse espaço institucional.

Quando se trata do ecossistema de gestão de patrimônio, e acredito que isso é comum em toda a região, vemos muita demanda por modelos de portfólio e fee-based advisory.

Temos muitas conversas sobre o papel de uma visão de portfólio como um todo, olhando para os portfólios de maneira holística, não apenas com produtos mas também com assessoria para alocação de ativos, construção de portfólio, consultoria de portfólio, análises, tecnologia para gerenciar riscos. Isso está moldando e remodelando o ecossistema de gestão de patrimônio na região.

Quais as principais estratégias para a América Latina? E como elas se diferenciam daquelas para a Europa, por exemplo?

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Jauregui: Uma área diferente que definitivamente se destacou nos últimos anos foram os ativos alternativos em mercados privados. Mas isso mudou um pouco. Se você olhar para as subcategorias dentro do negócio de alternativos, o private equity dominava há alguns anos. Agora, com as taxas de inflação como estão, vemos mais demanda por crédito privado e infraestrutura. Eles também são proteções contra a inflação, ajudam a proteger efetivamente os portfólios. Isso é global.

Quando penso na América Latina em particular, acredito que haverá uma enorme demanda por infraestrutura. O governo brasileiro tem falado sobre isso. O mesmo acontece no México. Com as restrições que aumentaram na cadeia de suprimentos, haverá muito mais a ser construído no México em particular. Mas também na região como um todo.

E infraestrutura climática: em todos os lugares a que vamos, os clientes entendem que o risco climático é um risco de investimento mas também uma oportunidade. E nos perguntam como capitalizar isso e como obter acesso a estratégias de descarbonização.

Karina Saade: Acabamos de fazer o nosso primeiro investimento na América Latina. Foi no Brasil, em uma empresa chamada Brasol, de energia solar. Foi o primeiro investimento de um de nossos fundos estrangeiros com capital e tecnologia de fora que estão tornando o Brasil ou a América Latina mais sustentáveis. Vemos uma grande demanda de investidores estrangeiros para esse tipo de projeto.

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Isso significa que a BlackRock tem analisado outras empresas que podem receber investimento?

Saade: Sim. Temos diferentes tipos de investidores em toda a BlackRock que buscam diferentes estratégias e objetivos. Analisamos muitos tipos diferentes de ativos de acordo com diferentes conjuntos de critérios. Não temos uma visão única. Oferecemos muita autonomia aos nossos investidores e isso realmente nos permite buscar diferentes tipos de oportunidades. Observamos que há muito capital, pelo menos fora do Brasil, que busca esses tipos de oportunidades de investimento.

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Jauregui: O investimento ao qual Karina se referiu, na Brasol, faz parte de um portfólio que é chamado de Climate Finance Partnership (CFP). Trata-se de uma iniciativa conjunta público-privada liderada pelos governos da Alemanha, do Japão e da França.

Recebemos uma demanda crescente de interesse por parte dos clientes para investir em países em desenvolvimento. Países que estarão na vanguarda da infraestrutura climática, essencialmente, e em tecnologias climáticas que vão acelerar a transição. Portanto, investimos na Tailândia, no Quênia, nas Filipinas e agora no Brasil. Estamos construindo esse portfólio.

Karina Saade, Country Manager da BlackRock Brasil (Foto: Divulgação)dfd

São investimentos relacionados a mega tendências?

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Jauregui: Sim. Acreditamos que a América Latina tem um enorme potencial, assim como a Índia, que realmente recebe muita atenção em todo o mundo. Alguns países no Sudeste Asiático também. E acho que a América Latina tem uma oportunidade fantástica para capitalizar em cima disso. Acredito que haverá mais investimentos não apenas dos Estados Unidos mas de empresas chinesas que querem apostar na América Latina. Há muitos benefícios: recursos naturais, geografia, proximidade com os EUA e o Canadá.

Saade: E demografia. Muitos países desenvolvidos enfrentam taxas negativas de crescimento da população. Muitas pessoas olham para a América Latina e dizem: “Bem, estou pensando em mercados emergentes, ex-China, e a América Latina realmente parece interessante em uma perspectiva relativa”.

A Índia também é um mercado muito promissor, mas, na verdade, é bastante cara do ponto de vista de valuation. Em termos de valuation, México e Brasil parecem muito mais favoráveis e têm muitas tendências semelhantes do ponto de vista de fundamentos. Vemos muitos investidores olhando México e Brasil em uma base relativa dentro de um portfólio de investimentos em mercados emergentes.

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Ventos contrários do cenário externo, como as taxas de juros mais altas nos EUA, não podem afetar esse fluxo de investimento para LatAm?

Saade: Definitivamente, sim. Acredito que o que o Fed faz vai impactar tudo. E, definitivamente, à medida que o Fed mantém as taxas de juros altas, o que acreditamos que vai acontecer por um período mais longo, isso vai impactar políticas monetárias resilientes e também moedas resilientes.

Acho que os investidores estrangeiros, falando de forma mais ampla, precisam de mais visibilidade sobre o que o Fed vai fazer para poder aumentar significativamente a alocação em mercados emergentes. Uma vez que essa visibilidade for alcançada, acredito que o Brasil e o México serão beneficiários relativos. Mas acho que estamos em um momento em que eles precisam entender a segunda derivada.

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Jauregui: O Brasil tem estado na vanguarda dos bancos centrais que realmente estão reduzindo as taxas de juros. E a inflação está muito mais restrita.

O controle da inflação é uma lição de casa necessária para o Brasil para conseguir atrair de fato esse investimento estrangeiro? Incluindo a questão fiscal?

Jauregui: É algo necessário, mas isso em todo lugar, eu diria, não apenas no Brasil. Eu acho que do ponto de vista fiscal, os EUA precisam aplicar isso também. Em todos os lugares que vamos nós vemos a mesma tendência. Portanto, sim, para o ponto levantado pela Karina anteriormente, achamos que a inflação vai permanecer por mais tempo, se considerarmos a meta dos bancos centrais de 2%.

Mas, dito isso, acredito que os investidores estão reconhecendo e convivendo com isso. E, como sempre, tudo é relativo. Por isso, os investidores estão procurando oportunidades específicas. E, quanto ao ponto levantado pela Karina, acredito que o Brasil e o México, especialmente na região, são muito adequados para atrair capital internacional porque desempenham esse papel duplo de apoiar o ecossistema local para investir internacionalmente, diversificar o portfólio e assim por diante.

Por outro lado, tentam atrair capital internacional para ser investido aqui no Brasil, com o exemplo que a Karina mencionou e outros também. Temos uma ampla variedade de soluções de investimento, não apenas em gestão ativa tradicional, em indexação, mercados privados e por aí vai.

Do ponto de vista de alocação de ativos, o quanto o começo do ciclo de relaxamento monetário no Brasil ajuda nesse movimento?

Jauregui: Isso é um movimento cíclico e nossa visão é para o longo prazo. Houve três cortes consecutivos de juros no Brasil, a taxa passou para 12,25% ao ano e, muito provavelmente, essa tendência continuará em 2024.

Mas não estamos pensando apenas em 2024. Independentemente dos obstáculos que nós, como indústria de investimentos, enfrentamos, é nossa responsabilidade continuar a educar as pessoas sobre de que forma carteiras devem ser diversificadas para alcançar diferentes objetivos.

Há muita coisa acontecendo quando se trata de investimento com base em metas pensando no longo prazo. Eu preciso investir para a aposentadoria? Ou para financiar a educação dos meus filhos? Ou para comprar um carro novo daqui a três anos? A depender da meta, a gestão obviamente muda.

Cerca de 60% dos nossos ativos, aqueles que gerenciamos em nome dos clientes, são dedicados ao longo prazo. Precisamos educar sobre isso. Vou dar um exemplo. Em 2020, de meados de fevereiro a meados de março [no primeiro mês da pandemia], os mercados de ações caíram cerca de 30%, certo? Nos EUA, cerca de 35%.

Muitos investidores que não tinham uma conta gerenciada, ou alguém que os aconselhasse sobre como investir, venderam as ações durante o período. Portanto, não se beneficiaram da recuperação do mercado. E isso ocorreu na maioria dos casos também devido à falta de educação financeira.

Quais os avanços vistos na frente de educação financeira?

Jauregui: Estamos falando agora de algo que aprendemos com a Europa, por exemplo, que é um novo conceito que são os planos de poupança em ETFs [fundos de índice, ou Exchange-Traded Funds]. É muito relevante o que está acontecendo, especialmente na Alemanha, embora eu diria em toda a Europa.

Há muitos bancos, muitas neocorretoras, players digitais em que, ao longo da pandemia, muitos investidores ou poupadores estavam basicamente especulando. Eu compro essa ação, depois vendo, eu compro bitcoin e depois vendo.

Por outro lado, esses players digitais oferecem algo que acho fascinante. É o conceito de investir. É muito simples investir de forma recorrente, regularmente todo primeiro dia do mês, US$ 80, US$ 100, em um ETF ou em um conjunto de ETFs para que eles comecem a investir internacionalmente e diversifiquem sua exposição.

Estão mostrando a eles por que investir de forma regular, a não depender do ambiente de mercado e como você pode se beneficiar dos juros compostos. São conceitos básicos.

Existem 8 milhões de novos clientes apenas na Alemanha que não tinham exposição a investimentos e estão fazendo isso todo mês com uma mentalidade clara de diversificação a longo prazo, com gerenciamento de riscos. Isso é fascinante. Há consultorias, não somos nós que estamos falando, que dizem que esses 8 milhões vão crescer para 25 milhões de investidores até 2028. É muita coisa.

No Brasil, é muito importante falar do impacto que podemos ter nas comunidades locais. A Karina e a equipe fizeram um trabalho fantástico quando se trata de educação financeira, por exemplo, com a inspiração para meninas, com o Junior Achievement e com algumas iniciativas que promovemos para incentivar a inclusão financeira. Com a nossa responsabilidade fiduciária, precisamos fazer mais.

Quanto mais ajudarmos os poupadores a se tornarem investidores e depois a pensarem a longo prazo sobre investimentos, melhor. Acredito que a sociedade vai economizar de uma maneira muito melhor e de forma sustentada a longo prazo. É um dos três pilares para a região.

Do ponto de vista de avanços do setor privado, o que pode estimular ainda mais a entrada do investidor estrangeiro?

Jauregui: Uma política pública clara para todos os setores. Novamente, não estamos falando apenas do Brasil. No setor privado, se as empresas também acreditarem fortemente que haverá crescimento, provavelmente criarão mais empregos. Elas investirão em tecnologia e adaptarão seus negócios para exportar ainda mais. Claro, também vão importar mais, como mencionamos com alguns dos clientes do campo. Mas a criação de empregos será fundamental para continuar a crescer.

E, quando se trata de digitalização, acredito que o Brasil está na vanguarda, na forma como todos aqui abraçam a tecnologia, que é bastante notável. Isso vai desde a adoção no varejo até o corporativo.

Saade: Para muitos investidores estrangeiros, o risco cambial é um elemento crucial, especialmente para aqueles com prazos mais longos que estão investindo no Brasil. Claramente, para investimentos com prazos mais curtos, não é tão grande problema. Você pode entrar e sair.

Portanto, qualquer estrutura que mitigue o risco cambial para o investidor estrangeiro geralmente é muito favorável para atrair esse capital. Às vezes, investidores estrangeiros escolhem empresas brasileiras exportadoras, que têm receitas em dólares, pois isso cria uma proteção natural contra o risco cambial. Mas, para empresas mais locais, existem diferentes tipos de soluções.

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Marcelo Sakate

Marcelo Sakate é editor-chefe da Bloomberg Línea no Brasil. Anteriormente, foi editor da EXAME e do CNN Brasil Business, repórter sênior da Veja e chefe de reportagem de economia da Folha de S. Paulo.

Mariana d'Ávila

Editora assistente na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.