Fim da euforia com Milei? Argentina fica de fora de alta de ações da América Latina

Resultados corporativos com lucros abaixo do esperado dissiparam empolgação dos mercados gerada pela chegada do presidente libertário ao poder. Índice de referência Merval se estabilizou e depois caiu 8% neste ano, enquanto o MSCI Latin America subiu mais de 20% no mesmo período

Investidores elogiaram Milei por cortar gastos fiscais e desacelerar a inflação galopante da Argentina, mas esses sucessos ainda não se traduziram em uma alta duradoura dos lucros (Foto: Anita Pouchard Serra/Bloomberg)
Por David Feliba
26 de Fevereiro, 2026 | 04:57 PM

Bloomberg — As ações argentinas ficaram de fora da alta das bolsas latino-americanas neste ano, à medida que a euforia anterior do mercado com as vitórias eleitorais do presidente Javier Milei se dissipa devido à preocupação com os fracos resultados corporativos.

Depois que as ações dispararam após o sucesso de Milei nas eleições legislativas em outubro, o índice de referência Merval se estabilizou e depois caiu 8% neste ano. Em contraste, o índice MSCI Latin America subiu mais de 20% no mesmo período — o melhor início de ano desde 1994.

PUBLICIDADE

Investidores elogiaram Milei por cortar gastos fiscais e desacelerar a inflação galopante da Argentina, mas esses sucessos ainda não se traduziram em uma alta duradoura dos lucros. Embora a economia tenha se recuperado da recessão de 2024, o crescimento não ganhou ímpeto suficiente para alimentar um ciclo robusto de resultados — um desafio para as ações, que já são negociadas a múltiplos elevados, dizem analistas.

“As ações precisam de evidência clara de uma segunda fase — crescimento econômico sustentado, recuperação dos lucros e maior previsibilidade regulatória”, disse Carolina Volman, chefe de pesquisa de ações e corporativa da corretora One618. “O mercado acionário ainda aguarda o surgimento de um ciclo de crescimento que possa sustentar uma expansão mais duradoura dos múltiplos”.

Leia também: Como o Peru superou a Argentina em exportações apesar da retomada com Milei

PUBLICIDADE
Ações da Argentina têm desempenho abaixo dos mercados emergentes

Até mesmo o bilionário Stanley Druckenmiller — que elogiou Milei na CNBC no início de seu mandato — saiu da posição de seu Duquesne Family Office em um dos principais fundos de índice negociados em bolsa da Argentina, após este ter atingido uma máxima recorde, realocando capital para o Brasil.

Resultados mistos

Os lucros corporativos foram atingidos pela volatilidade financeira na Argentina no ano passado, agravada pela queda nos preços das commodities.

A turbulência antes das eleições de outubro levou bancos listados em bolsa aos resultados mais fracos desde a pandemia, com grandes instituições financeiras como o Grupo Financiero Galicia e Macro registrando prejuízos no terceiro trimestre do ano. Ao mesmo tempo, a taxa de inadimplência de empréstimos no país subiu para o nível mais alto em pelo menos 15 anos, em meio a uma forte retração do crédito.

PUBLICIDADE

Até mesmo as empresas de energia — as principais beneficiadas com o novo modelo de crescimento focado em exportações de Milei — apresentaram resultados mistos. A estatal YPF registrou um pequeno prejuízo durante o terceiro trimestre devido à queda dos preços globais do petróleo, enquanto a Pampa Energía reportou uma queda de cerca de 50% nos lucros nos primeiros nove meses de 2025.

As ações do Mercado Livre, empresa fundada na Argentina, registraram a maior queda intradiária desde 2024 na quarta-feira, após o lucro líquido do quarto trimestre ter ficado abaixo das estimativas dos analistas.

As empresas que compõem o índice Merval são negociadas a uma relação preço/lucro projetada de 19,8, superior à do Ibovespa, de 13,4, à do IPSA, do Chile, de 15,6, e à do BMV, do México, de 15,9, segundo dados compilados pela Bloomberg.

PUBLICIDADE

Leia também: Na Argentina, alta da carne desafia esforço de Milei para controlar a inflação

A economia argentina deverá crescer 2% em 2026, abaixo da estimativa anterior de 3,2%, visto que a Argentina inicia o ano com um “momentum mais lento”, de acordo com a Bloomberg Economics. Esse pessimismo persistiu mesmo após a recuperação do crescimento em dezembro.

Fluxos estrangeiros

Mas também existem fatores específicos de mercado que pesam sobre as ações argentinas.

Os mercados emergentes atraíram mais de US$ 50 bilhões em fluxos de entrada no acumulado do ano, o período mais forte em anos, de acordo com Ola El-Shawarby, gestora de mercados emergentes da VanEck.

Grande parte desse capital fluiu para fundos negociados em bolsa que replicam as ponderações de índices de referência, beneficiando mercados maiores e mais líquidos, como o Brasil e o México.

O mercado de ações da Argentina permanece pequeno em comparação com seus pares regionais e relativamente ilíquido, o que limita sua capacidade de absorver grandes alocações passivas. Sua exclusão dos principais índices de referência agrava essa restrição.

Um possível catalisador seria a reclassificação pelo MSCI, o que provavelmente exigiria a remoção a longo prazo dos controles de capital e maior acesso para investidores estrangeiros.

As entradas líquidas no MSCI Argentina ETF atingiram cerca de US$ 630 milhões em 2024, o maior volume anual em mais de uma década, conforme o programa de estabilização de Milei alimentava um rali antecipado. No entanto, o ímpeto se mostrou difícil de sustentar. Cerca de US$ 200 milhões saíram em 2025, e as saídas não se reverteram imediatamente, mesmo após a vitória de Milei nas eleições legislativas ter estimulado os ganhos.

Investidores estrangeiros reduzem seus investimentos em ações argentinas em 2025

A remoção dos controles de capital — um passo fundamental para uma possível reentrada nos principais índices de mercados emergentes — ainda parece distante, segundo analistas.

Veja mais em bloomberg.com