Bloomberg Línea — O segundo semestre de 2026 deve marcar uma mudança de cenário para as moedas da América Latina. Depois de uma primeira metade do ano favorável para diversas divisas, o fortalecimento do dólar e as incertezas em torno da política monetária dos Estados Unidos voltarão a testar a resiliência da região.
Bancos como BBVA e Citi concordam que a América Latina continuará a contar com fatores de sustentação, como os diferenciais de juros e o desempenho de algumas commodities.
Ao mesmo tempo, alertam que o comportamento das moedas dependerá cada vez mais de fatores específicos de cada país, desde a disciplina fiscal até os processos eleitorais e a evolução de setores estratégicos, como mineração e energia.
Os analistas do BBVA avaliam que “os Estados Unidos são agora percebidos como uma economia mais resiliente e mais dinâmica, apoiada pela força de suas empresas de tecnologia”. Essa mudança de percepção levou o banco a revisar para cima suas projeções para o dólar.
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Ainda assim, os bancos mantêm uma visão favorável para a região. “Continuamos construtivos, diante da resiliência do crescimento global, dos preços elevados das commodities, da diversificação das carteiras e do comércio, somados ao diferencial de juros (carry)”, destacaram os analistas.
Ao mesmo tempo, alertam que as diferenças entre os países devem ficar cada vez mais evidentes ao longo do segundo semestre.
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Brasil e México: política e juros
O Brasil deve continuar entre as moedas mais sensíveis à combinação entre cenário político e contas públicas. O BBVA avalia que o elevado patamar dos juros e a condição do país como exportador de commodities seguem favorecendo o real, embora as eleições presidenciais e a deterioração fiscal possam reduzir parte do impulso observado na primeira metade do ano.
Nesse contexto, os analistas do banco afirmam que “as eleições de outubro serão um fator-chave”, enquanto a evolução das contas públicas continuará a exigir um prêmio de risco elevado. O BBVA projeta uma taxa de câmbio de R$ 5,40 por dólar no fim de 2026, estimativa mais conservadora do que o consenso compilado pela Bloomberg.
O Citi também aponta a inflação e a política fiscal como os principais fatores para o desempenho do real. Embora os juros elevados favoreçam as operações de carry trade e os preços mais altos do petróleo continuem dando suporte temporário à moeda, por meio de um maior superávit comercial, o banco avalia que esse efeito deve perder força.
O México enfrenta um conjunto diferente de desafios. O suporte ainda proporcionado pelos juros do Banco do México (Banxico) e pela integração comercial com os Estados Unidos passa a conviver com as incertezas em torno da renegociação do Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (T-MEC) e com uma recuperação econômica que ainda mostra sinais de fragilidade.
“A divergência entre a precificação do mercado e os fundamentos sugere uma assimetria: o potencial adicional de valorização parece limitado, enquanto o risco de desvalorização pode ser mais significativo caso algum desses riscos se concretize.”
Analistas do BBVA
O BBVA projeta que o peso mexicano encerrará o ano em torno de MXN$ 17,80 por dólar. No Citi, Felipe Juncal avalia que a moeda continua sustentada pelo elevado nível dos juros do Banxico, mas aponta como principais riscos a renegociação do T-MEC, uma postura mais restritiva do Federal Reserve e um ambiente fiscal e político desafiador.
Seu cenário prevê uma taxa de câmbio de MXN$ 17,40 por dólar no fim do ano. O relatório do Citi acrescenta que “o cenário fiscal continua desafiador” e que “a consolidação fiscal exigirá disciplina nos gastos e uma melhora significativa da dinâmica de crescimento, que ainda não é visível”.
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O que esperar de Colômbia, Chile e Peru?
Na Colômbia, as atenções voltam a se concentrar na sustentabilidade das contas públicas. Os analistas avaliam que a confiança dos investidores dependerá da capacidade do governo de Abelardo de la Espriella de consolidar uma estratégia fiscal crível, enquanto o comportamento do petróleo continuará a influenciar o desempenho do peso.
O BBVA afirma que a vitória de De la Espriella “e as expectativas de maior crescimento e investimento podem abrir espaço para uma última rodada de valorização”, embora reconheça que boa parte desse otimismo já estaria precificada pelo mercado. O banco projeta o peso colombiano em COP$ 3.550 no fim de 2026.
O Citi prevê que o dólar avance de COP$ 3.431 para COP$ 3.584 no primeiro trimestre de 2027, refletindo os riscos fiscais e financeiros. Germán Cristancho, gerente de Pesquisa Econômica e Estratégia da Davivienda Corredores, também avalia que o peso pode continuar a se fortalecer no início do segundo semestre.
Segundo ele, esse movimento seria impulsionado pelo fluxo de recursos para ativos locais. Ainda assim, Cristancho projeta uma desvalorização posterior da moeda, em razão da deterioração fiscal, da queda do petróleo, do déficit comercial e do desalinhamento da taxa de câmbio em relação ao seu nível de equilíbrio. Sua estimativa aponta o dólar próximo de COP$ 3.600 no fim do ano.
O Chile mantém um perfil distinto. A evolução dos preços do cobre volta a ser o principal fator de sustentação do peso chileno, enquanto a política monetária dos Estados Unidos deve definir boa parte do comportamento do dólar nos próximos meses.
Os analistas do BBVA afirmam que ainda veem “potencial de valorização” para a moeda, apoiados pelos preços elevados do cobre e pela possibilidade de redução das posições vendidas acumuladas contra o peso. O banco projeta uma cotação de CLP$ 876 no fim de 2026.
O Citi também espera uma valorização gradual do peso chileno, impulsionada pelo processo de desinflação. Rodrigo Lama, CBO da Global66, aponta três variáveis decisivas para o segundo semestre: a trajetória da política monetária do Federal Reserve, a evolução dos preços do cobre e o comportamento do petróleo após a redução das tensões no Oriente Médio. Seu cenário-base prevê uma taxa de câmbio entre CLP$ 900 e CLP$ 920.
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O Peru continua a se destacar pela estabilidade do sol. A combinação entre exportações de minério, elevadas reservas internacionais e a atuação estabilizadora do banco central mantém a moeda em uma posição relativamente sólida em comparação com outras divisas da região.
O BBVA afirma que “o Banco Central de Reserva do Peru (BCRP) buscará suavizar, mas não impedir, a valorização dos ativos locais”, ao mesmo tempo em que projeta uma taxa de câmbio de S/ 3,30 no fim de 2026.
Fernando Ruiz, CEO da Kambista, também avalia que o mercado acompanhará de perto tanto as decisões do Federal Reserve quanto a condução da política econômica do novo governo peruano.
“Também será importante acompanhar a evolução da ameaça do fenômeno El Niño, previsto para o fim deste ano, e como ele poderá provocar interrupções nas cadeias produtivas, danos à infraestrutura e pressões inflacionárias.”
Fernando Ruiz, CEO de Kambista
Argentina e o resto da região
A Argentina continua sendo o caso mais singular da região. Os analistas reconhecem a melhora dos fundamentos macroeconômicos, mas avaliam que o peso deve continuar a se desvalorizar de forma gradual.
O BBVA estima que “é provável que o regime cambial administrado revisado seja mantido, sem novos ajustes até depois das eleições de 2027”. Com base nesse cenário, o banco projeta uma taxa de câmbio de ARS$ 1.760 no fim de 2026.
O Citi alerta que “o governo tem enfrentado uma queda na confiança da população em razão da turbulência política provocada por investigações judiciais envolvendo altos funcionários e pelos pedidos da oposição para a abertura de uma investigação no Congresso”, fator que aumenta as incertezas apesar da melhora do quadro fiscal.
Federico Filippini, diretor de Pesquisa e Estratégia da Adcap, avalia que o Banco Central tem permitido uma maior formação de preços pelo mercado cambial e não prevê um ajuste desordenado da taxa de câmbio.
O Citi também projeta que o peso uruguaio continuará a se desvalorizar, para uma cotação de UYU$ 44,24 por dólar no fim de 2027. Patrizio Drago, da Adcap Uruguai, avalia que a trajetória do dólar dependerá da política monetária dos Estados Unidos e da estabilidade do cenário internacional. Ainda assim, estima que o peso uruguaio continuará com desempenho inferior ao de outras moedas da região em razão de fatores domésticos.
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No Paraguai, Ingrid Herrera, gerente do Departamento de Economia da MF Inversiones, prevê um comportamento sazonal para a taxa de câmbio, diante da redução da entrada de divisas provenientes das exportações e do aumento da demanda por dólares para as importações de fim de ano. Suas estimativas apontam para uma cotação de Gs. 6.375 por dólar no encerramento do ano.
República Dominicana e Costa Rica compartilham um cenário de estabilidade cambial, com desvalorização moderada no fim do segundo semestre. O economista Juan Mejía atribui essa trajetória do peso dominicano ao comportamento das importações, aos preços do petróleo, à política monetária do Federal Reserve e do banco central local, além dos fluxos de turismo, remessas, investimento estrangeiro direto e exportações.
Na Costa Rica, o economista Daniel Suchar prevê um comportamento semelhante para o colón, mas alerta que a maior demanda sazonal por dólares por parte dos importadores pode provocar uma leve alta da taxa de câmbio, em um contexto no qual as decisões do Federal Reserve e a evolução dos preços das commodities também serão determinantes.
Apesar das diferenças entre as moedas, as projeções convergem para um mesmo ponto: o desempenho no segundo semestre será definido pela trajetória do dólar, pelas decisões do Federal Reserve, pelos preços das commodities e pela capacidade de cada economia de preservar a confiança dos investidores por meio de políticas fiscal e monetária críveis.
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