Bloomberg Línea — Uma possível retomada econômica na Venezuela após a queda de Nicolás Maduro tende a beneficiar as transações do país sul-americano com o Brasil, na visão de especialistas em comércio exterior que falaram com a Bloomberg Línea.
Entretanto a abertura de mercado para empresas brasileiras enfrentará desafios e dependerá do relacionamento do governo brasileiro com os Estados Unidos de Donald Trump daqui em diante, além das medidas tomadas pelo novo governo venezuelano – o que torna o cenário ainda mais incerto.
Com uma população estimada em 28,4 milhões de pessoas e uma das maiores reservas de petróleo do mundo, a Venezuela chegou a ser o sexto destino das exportações brasileiras em 2007 e fez parte do Mercosul, antes de ser suspensa em 2017 por ruptura da ordem democrática.
Hoje a corrente de comércio do Brasil com o vizinho sul-americano soma menos de US$ 1,6 bilhão em exportações e importações, segundo dados de 2024 do governo brasileiro analisados pela Bloomberg Línea. É um valor menor do que as transações do Brasil com países como Bangladesh, no Sudeste Asiático, e Omã, no Oriente Médio.
A maior parte das exportações atuais à Venezuela é de açúcar, milho, arroz, soja, entre outros alimentos, enquanto a Venezuela fornece ureia (fertilizante), alumínio, produtos químicos e combustíveis, em volumes reduzidos.
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De acordo com Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil, seria de interesse do Brasil que a Venezuela tivesse um processo ordenado de recuperação econômica, por se tratar de um potencial mercado para o país.
“Poderia haver um aumento de exportação, principalmente alimentos e produtos de consumo, se o país regularizasse principalmente a parte macroeconômica e cambial”, disse Barral, que é sócio-fundador da consultoria BMJ.
Ele apontou que entre os setores com maior potencial está a indústria de produtos agrícolas e alimentos processados brasileira, que teria competitividade para ganhar espaço no mercado venezuelano, além de outros produtos industrializados, como eletrodomésticos.
Barral ressaltou, no entanto, que esse é um processo de reorganização que poderia levar anos e dificilmente ocorreria no curto prazo.
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“As dificuldades macroeconômicas e de desvalorização e de não confiabilidade da moeda e da liberdade cambial de pagamento hoje impedem a exportação mais consistente para a Venezuela”, afirmou.
De um pico de US$ 5,13 bilhões em 2008, as exportações do Brasil para a Venezuela caíram a apenas US$ 421 milhões em 2019 com a crise econômica e a hiperinflação no governo de Nicolás Maduro. Nos últimos anos, as vendas voltaram a subir, mas ainda representam cerca de 23% do que já foram em seu auge no passado.
O país era apenas o nono mercado de produtos brasileiros na América Latina em 2024, atrás da Bolívia, que tem um terço da população venezuelana e também enfrenta dificuldades econômicas.
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), avaliou que a mudança de governo na Venezuela traz uma expectativa positiva para os produtos brasileiros, mas a recuperação do comércio dependerá dos desdobramentos da ação militar dos Estados Unidos daqui em diante.
Neste momento, ele disse que o Brasil deveria buscar ter um bom relacionamento com o novo governo venezuelano e evitar atritos com os Estados Unidos para “abrir portas” no país em um futuro próximo.
Castro disse avaliar que alimentos são os produtos que podem ganhar mercado na Venezuela em um primeiro momento. Em uma segunda fase, a necessidade de reindustrialização e reconstrução do setor de petróleo tende a aumentar a demanda por equipamentos, máquinas e outros produtos industriais.
“As empresas exportadoras estão acompanhando e todas querem saber se vão ter alguma chance no futuro ou no presente de fazer negócio. Principalmente aquelas que no passado fizeram negócios na Venezuela”, afirmou.
A economista Lia Valls Pereira, do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV Ibre), lembrou que o setor petrolífero também oferece oportunidades para empresas do país, especialmente a Petrobras, que já atuou na Venezuela no passado.
Na eventual regularização do mercado venezuelano, a experiência de exploração em águas profundas seria uma vantagem competitiva da empresa brasileira, segundo ela.
De qualquer forma, o caminho para uma possível recuperação das trocas comerciais entre Brasil e Venezuela tende a ser longo e complexo.
O economista Livio Ribeiro, especializado em economia internacional, ressaltou que será preciso avaliar ainda como será a transição, quem administrará o país nesse processo, por quanto tempo os bloqueios e sanções dos Estados Unidos irão continuar e como será a relação do país com o Mercosul após Maduro.
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“Mesmo sem retomada e estabilização, a economia venezuelana tem problemas seríssimos de oferta e ela depende de importações”, afirmou Ribeiro, que é sócio-fundador da consultoria BRCG, em entrevista.
Além disso, ele lembrou que, mesmo em uma retomada da produção petrolífera, será preciso definir como ficam os pagamentos de indenizações a empresas do setor que sofreram processos de estatização e não foram ressarcidas pelo governo venezuelano.
Para o economista, ainda que a Venezuela consiga se estabilizar, ela dificilmente atingiria a relevância de um mercado como a Argentina, com a qual o Brasil tem uma intensa troca comercial.
“É uma economia que tem potencial para ter trocas comerciais com o Brasil do tamanho de uma Colômbia, mas é um caminho longo”, disse ele.
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