Bloomberg — O esforço da Argentina para avançar no controle da inflação enfrenta riscos nos próximos meses, depois de o presidente Javier Milei tê-la derrubado de patamares de três dígitos, afirmou o banco central em seu relatório mensal de política monetária.
Uma mudança de metodologia, os preços persistentemente elevados da carne bovina e os reajustes previstos nas contas de serviços públicos podem afetar os preços ao consumidor no curto prazo, segundo o relatório.
Custos de vestuário e educação também costumam subir de forma significativa em março, com o início do ano letivo.
A carne bovina, base da dieta argentina, subiu 17,3% entre outubro e dezembro.
“Durante o primeiro trimestre de 2026, o ritmo do processo de desinflação enfrenta riscos de natureza sazonal e, portanto, transitória”, afirmou o banco central em seu relatório de dezembro, publicado na quinta-feira (29).
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A autoridade acrescentou que os formuladores de política monetária também lidam com “incerteza” diante da nova metodologia introduzida pelo órgão nacional de estatísticas.
A nova avaliação surge depois que a inflação mensal — que Javier Milei prometeu reduzir para abaixo de 1% ainda neste ano — acelerou pelo quarto mês consecutivo em dezembro, chegando a 2,8%, puxada por transportes, serviços públicos e alimentos.
A inflação mais resistente também pode contaminar o câmbio, que flutua livremente dentro de um teto e um piso determinados, desde janeiro, pela inflação mensal. Ganhos de preços mais elevados fazem com que essas bandas se ampliem em ritmo mais rápido.
Na sexta-feira (30), o governo autorizou um reajuste parcial nos impostos sobre gasolina e diesel, além de aumentos nos preços do gás natural e da eletricidade, com vigência a partir de 1º de fevereiro.
Serviços, como utilidades e aluguel, passam a ter peso maior na nova metodologia de inflação, que entra em vigor neste mês.
O banco central também afirma que a Argentina terá de promover cortes orçamentários mais profundos em 2026 do que os previstos no orçamento recém-aprovado, porque o governo não conseguiu vetar aumentos de gastos com universidades e benefícios por incapacidade aprovados pelo Congresso no ano passado.
Segundo a autoridade monetária, o governo precisará reduzir ainda mais as despesas — o equivalente a cerca de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) — em áreas como salários, subsídios e assistência social.
A receita destinada à assistência social, por sua vez, deve cair se Milei aprovar a reforma trabalhista que deve avançar no Congresso no próximo mês, de acordo com o relatório.
A reforma pode ter um custo fiscal entre 0,7% e 0,8% do PIB, segundo uma nota de pesquisa separada publicada na quinta-feira pelo JPMorgan Chase.
A queda de arrecadação está associada a menores contribuições previdenciárias e a alguns cortes de impostos. A expectativa é que esse efeito seja revertido no médio prazo, à medida que o emprego formal — e, portanto, a base tributária — cresça.
Ainda assim, a inflação anual deve recuar para 20% neste ano, ante cerca de 32% atualmente, segundo economistas consultados pelo banco central.
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