Fim da bolha? Saída da Oracle é sintoma de que a ‘febre’ por Austin está passando

Depois de rápida expansão com a chegada de mais de 60 empresas em 2022 na pandemia, capital do Texas perde atração e sofre com efeitos do mercado imobiliário inflacionado

Austin foi uma das cidades que mais atraíram empresas durante os anos de pandemia nos EUA (Foto: Rick Kern/Getty Images)
Por Shelly Hagan - Amanda Albright
27 de Abril, 2024 | 05:50 AM

Bloomberg — A Oracle (ORCL) vai transferir sua sede da cidade. A Tesla (TSLA) vai recuar após uma rápida expansão. Quase um quarto dos escritórios comerciais está vago, e em nenhum outro lugar dos Estados Unidos os preços dos imóveis residenciais estão tão longe do pico atingido durante a pandemia.

Austin, capital do Texas, que se tornou uma potência econômica da pandemia ao atrair Elon Musk e californianos atraídos por seus impostos baixos e clima ensolarado, estava acostumada a um ritmo constante de boas notícias. Mas ultimamente isso mudou.

Na terça-feira (23), Larry Ellison anunciou que sua empresa de software mudará sua sede da capital do Texas para Nashville, no estado do Tennessee. Foi um romance breve – a Oracle só chegou a Austin em 2020 –, mas ser rejeitado nunca é fácil.

“A prefeitura ficou tão surpresa quanto todo mundo”, disse o prefeito Kirk Watson em um comunicado.

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Mas talvez ele não devesse ter ficado tão chocado. Austin vai bem há tanto tempo que sua sorte estava fadada a mudar.

Depois de 12 anos como a região metropolitana de crescimento mais rápido nos EUA, Austin perdeu o posto em 2023.

Um excesso de escritórios aumentou a taxa de vacância em 5 pontos percentuais em relação à média dos EUA, de acordo com dados da Colliers.

Os preços das casas caíram 18% em relação às altas observadas em maio de 2022, a maior queda entre as 50 maiores áreas metropolitanas dos EUA, segundo dados da Redfin. Mesmo assim, a cidade é classificada como um dos mercados imobiliários menos acessíveis.

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O fato de a Oracle ter se mudado para Nashville é particularmente doloroso para os moradores de Austin. As duas cidades competem quanto à cena musical mais animada e quanto à prevalência de viagens para festas de despedida de solteiros - não importa o gênero.

Há debates acalorados sobre onde encontrar as melhores botas de caubói personalizadas. Mas, até recentemente, não havia muita controvérsia sobre qual delas estava melhor economicamente. No final de 2022, a economia de Austin, de US$ 222 bilhões, era quase 20% maior que a de Nashville.

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Para ter certeza, mesmo com a desaceleração da economia de Austin, ela ainda está aquecida o suficiente para causar inveja em muitos outros lugares. A taxa de desemprego de 3,5% está abaixo da média do país, e o centro da cidade está repleto de guindastes de construção.

A Samsung vai abrir uma fábrica de US$ 17 bilhões na região suburbana de Taylor e planeja investir US$ 40 bilhões na região à medida que aumenta a produção de chips.

A cidade também abriga operações de Meta, Apple e Google. A Henley & Partners prevê que, na próxima década, Austin será a principal cidade dos EUA em termos de crescimento do número de centi-milionários, ou seja, pessoas com um patrimônio líquido de US$ 100 milhões ou mais.

Ainda nesta semana, o CEO do JPMorgan Chase (JPM) Jamie Dimon declarou que Austin se tornou uma concorrente da cidade de Nova York.

Mas ele também falou o mesmo de Nashville.

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Debandada de empresas

Austin teve um boom em realocações corporativas durante a pandemia, algo que, desde então, diminuiu. Em 2022, 64 empresas mudaram suas sedes ou operações significativas para Austin, de acordo com um grupo de desenvolvimento local. Esse número caiu para 37 em 2023. Neste ano, Austin registrou 11 mudanças desse tipo.

E algumas das principais empresas estão reduzindo sua presença. A Meta decidiu não se mudar para um novo espaço de escritórios no centro de Austin e, em vez disso, procurou sublocar 55.000 metros quadrados.

O Austin American-Statesman informou que o Google ainda não se mudou para um prédio de 35 andares em forma de vela que alugou e que tem vista para o Lady Bird Lake, no centro da cidade.

Neste mês, a Tesla, cuja sede fica em Austin, disse que demitirá 2.688 funcionários na cidade como parte de um plano para cortar mais de 10% de sua força de trabalho global.

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O aumento do custo de vida em Austin nos últimos anos, com o crescimento dos preços dos imóveis, diminuiu a atratividade da cidade para as realocações, de acordo com Steve Triolet, vice-presidente sênior da Partners Real Estate, que tem um escritório na cidade.

Mas ele observou que Austin ainda é mais barata do que localidades na costa, como Nova York, e muito mais moderna do que outras cidades do Texas, como Dallas e Houston.

Austin se tornou um dos mercados imobiliários mais supervalorizados porque a renda não acompanhou a alta dos preços, de acordo com a Moody’s.

“Os valuations simplesmente subiram a um nível insustentável”, disse Matthew Walsh, economista da empresa. Ele espera que os preços dos imóveis residenciais em Austin permaneçam sob pressão nos próximos dois anos, à medida que os preços caírem para ficarem mais alinhados com os níveis de renda.

A Oracle tinha 4.200 funcionários em Austin em setembro de 2023, de acordo com o Opportunity Austin, e não está claro quantos poderão ir para Nashville. Um porta-voz da Oracle não respondeu a uma pergunta sobre o que a mudança significa para sua presença no Texas.

Em um evento em Nashville nesta semana, Ellison revelou que a empresa está construindo uma sede na cidade do Tennessee, aproximando-a de um importante centro de saúde para se alinhar com as ambições da gigante do software no setor.

“É o centro do nosso futuro”, disse ele.

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