Como turismo e indústria se tornaram chave para diversificar a economia saudita

Ministro do Turismo, Ahmed Al-Khateeb, disse na abertura da Global Labor Market Conference que o país aposta em tais setores para criar até 600 mil empregos e renovar o mercado de trabalho, com foco em jovens e mulheres

Ministro do Turismo da Arábia Saudita
Por Alan Blanco - Naiara Albuquerque
26 de Janeiro, 2026 | 03:54 PM

Bloomberg Línea — Do palco da Global Labor Market Conference, cuja abertura se deu nesta segunda-feira (26) em Riad, capital da Arábia Saudita, duas mulheres comandavam a abertura do evento: uma cena que, até poucos anos atrás, pareceria improvável em um país que, por exemplo, só em 2018 passou a permitir que mulheres dirigissem.

Mas foi justamente ali que setores como turismo e indústria se mostraram no centro de estratégias de geração de empregos, como parte do Vision 2030, segundo autoridades governamentais da Arábia Saudita presentes.

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O ministro do Turismo, Ahmed Al-Khateeb, disse que o setor se tornou um dos maiores motores de emprego, respondendo por cerca de 10% do PIB mundial e por aproximadamente 370 milhões de postos de trabalho.

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Desse total, mulheres ocupam cerca de 45% das vagas no setor, enquanto os jovens representam aproximadamente 80% do total, de acordo com o ministro.

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A participação de mulheres sauditas na economia também aumenta gradualmente, após um longo período de restrições.

Segundo os dados mais recentes do World Bank, de 2023, a taxa média de participação feminina no mercado de trabalho no Oriente Médio e no Norte da África (MENA) é de apenas 19%, em comparação com 71% entre os homens. O percentual também está abaixo da média global, de 47%.

Na Arábia Saudita, o programa Vision 2030 lançado em 2016 tem buscado identificar os principais pilares de desenvolvimento de novos segmentos, como o turismo educacional e cultural, apoiados por investimentos em capacitação, disse Al‑Khateeb.

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O país pretende criar entre 400 mil e 600 mil empregos em hotelaria nos próximos seis anos, com foco na qualificação e na melhoria do desempenho profissional de jovens sauditas.

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Na indústria, governos têm desempenhado um papel central para fomentar mercados de trabalho mais resilientes, ao estabelecer marcos regulatórios considerados mais adequados, incentivar a adoção de novas tecnologias e garantir sistemas educacionais orientados à requalificação contínua, segundo disse o ministro da Indústria e Recursos Minerais, Bandar Al‑Khorayef, que também participou do painel inaugural na capital saudita.

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Ele citou, por exemplo, o lançamento de um marco ocupacional e de habilidades para os setores de mineração e indústria na Arábia Saudita, responsável por mapear mais de 500 ocupações e detalhar as competências exigidas para cada função.

Essa discussão ocorre em um contexto de descompasso entre a oferta e a demanda de trabalho no mundo.

O presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, disse durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, na semana passada que o mundo deve demandar cerca de 1,2 bilhão de novos postos de trabalho na próxima década, enquanto a economia global deve criar apenas cerca de 400 milhões de vagas no mesmo período.

A projeção foi citada na abertura do evento em Riad pelo presidente do Islamic Development Bank Group, Muhammad Sulaiman Al Jasser, como uma das justificativas para as iniciativas adotadas por países do Oriente Médio para renovar seus mercados de trabalho e ampliar oportunidades de emprego.

“Nossa estimativa é que cada US$ 1 milhão investido em um projeto possa gerar entre 13 e 30 empregos permanentes. Temos desde projetos de US$ 1 bilhão e de US$ 800 milhões até iniciativas de menor porte”, disse o executivo.

Ainda do lado da indústria, a infraestrutura aparece como um dos principais efeitos multiplicadores que sustentam essa estratégia, segundo Al-Khorayef.

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“O efeito multiplicador é fundamental, sobretudo porque aumenta a produtividade da sociedade como um todo. E essa sociedade é formada pelos trabalhadores. Quando focamos em projetos que reforçam a dignidade de quem trabalha, reacendemos a esperança”, disse.

Fluxos migratórios

Segundo o ministro, a falta de oportunidades ajuda a explicar fluxos migratórios extremos.

“Basta imaginar jovens atravessando o Saara e cruzando o Mediterrâneo, sem sequer saber se vão sobreviver, apenas para chegar à Europa. Eles não fazem isso por aventura, mas porque buscam oportunidades”, acrescentou.

“A infraestrutura tem um enorme papel como mecanismo de transmissão de qualquer política pública adotada por um governo em qualquer sociedade.”

Para ele, cada emprego direto criado em uma fábrica pode gerar de quatro a cinco vagas adicionais ao longo da cadeia produtiva, seja em logística, transporte, manutenção, tecnologia, serviços e comércio local, um movimento relevante que deve ser acompanhado.

Esse efeito seria difícil de replicar em outros setores. Diferentemente de serviços altamente digitalizados ou plataformas tecnológicas, a indústria cria empregos em diferentes níveis de qualificação.

“Uma fábrica não gera só operadores de máquina. Ela demanda fornecedores, transporte, energia, tecnologia e serviços”, disse o ministro da Indústria e Recursos Minerais da Arábia Saudita.

Emprego como política de segurança

Mais do que crescimento econômico, o retorno da indústria para a geração de empregos reflete uma preocupação mais profunda: a criação de postos de trabalho também se tornou uma questão imperativa para o desenvolvimento dos países.

Falta de trabalho não gera apenas perda de renda mas também tensão social, informalidade, migração forçada e instabilidade política. Em países emergentes ou em reconstrução, garantir empregos dignos é visto como condição básica para preservar a paz social.

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Nesse contexto, a indústria oferece algo cada vez mais raro: escala, previsibilidade e impacto duradouro.

Porém a aposta atual de ambos os países promete não ser um retorno nostálgico às fábricas do século passado. A ideia por trás dos investimentos é criar uma indústria mais integrada à tecnologia, à sustentabilidade e às cadeias globais de valor, mas ainda capaz de empregar milhões.

Impacto da IA

No mesmo palco do evento, o CEO da Elm, empresa saudita de serviços de tecnologia para os setores público e privado, Mohammed Al-Amaya, defendeu o uso da inteligência artificial como um fator de aumento de produtividade e descartou impactos negativos relevantes sobre o nível de emprego.

“O funcionário humano deve aceitar a IA como um parceiro digital, trabalhando junto com ela e delegando tarefas repetitivas, sem dependência total ou conflito”, disse durante um painel sobre tendências do mercado de trabalho.

Segundo Al-Amaya, a IA também tende a impulsionar a criação de novas ocupações, sobretudo por meio de funções híbridas que combinam habilidades técnicas com competências sociais e de gestão.

A aposta é a de um ecossistema híbrido, no qual humanos e inteligência artificial atuam em conjunto - algo que já vem sendo apontado como realidade, segundo especialistas que participaram do primeiro dia de discussões do evento.

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