Bloomberg Línea — Aos 10 anos, Daniel Papariello já tocou guitarra em tantos shows de rock, e com tanta desenvoltura, que seu pai, Bruno Papariello, certa vez ouviu que ele era “a alma da banda”.
“Todo mundo fica maluco de ver crianças tão novas tocando tão bem. A experiência de palco dele hoje é maior do que a minha quando tinha 25 anos e já tocava desde os 14”, disse o funcionário público e músico da Tubber Tintye à Bloomberg Línea.
“Fico impressionado com o que ele tem acesso hoje, algo que não existia nos anos 1990 e 2000.”
Essa experiência com o rock ‘n roll que Daniel alcançou tão cedo é parte da formação oferecida pela School of Rock, uma escola de música inspirada no sucesso de Hollywood estrelado por Jack Black que se espalhou pelo mundo.
A operação dedicada a Brasil, Portugal e Espanha faturou mais R$ 100 milhões no ano passado, com cerca de 10.000 alunos.
O modelo nasceu nos Estados Unidos e se popularizou em diferentes países a partir da metodologia de colocar alunos no palco desde cedo.
“O foco é o show”, disse Paulo Sérgio Portela Santos, CEO da School of Rock Brasil, Portugal e Espanha, em entrevista à Bloomberg Línea. “A School existe para dar shows e experiências de palco para os seus alunos.”
Esse desenho redefine o que é o produto. Por mais que também tenha aulas teóricas e apresente conteúdos de forma formal, a School of Rock funciona como uma estrutura de “turnê”, com rotina de ensaios, socialização e apresentação.
O modelo gira em torno de temporadas com repertórios e temas, que culminam em apresentações em casas de show.
“Todo aluno tem pelo menos três shows por ano”, explicou o executivo. “Faz parte da mensalidade que ele paga, e ele não paga mais nada para tocar.”
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A estratégia de inserir alunos em grandes eventos é tratada como parte do modelo, não como uma ação pontual de marketing.
Portela Santos citou iniciativas como cruzeiros temáticos e festivais nos quais bandas formadas por alunos abrem shows de artistas conhecidos.
A presença em grandes palcos reforça a proposta de valor para o aluno e aumenta o poder de atração do negócio para novos consumidores, ao mesmo tempo em que gera uma vitrine permanente para a marca em diferentes praças.
E isso tem apelo em particular entre os próprios alunos.
“As apresentações são a coisa mais legal da escola. É muito divertido”, disse Daniel, que estuda guitarra em uma franquia de Brasília.
“Nós queríamos que ele aprendesse e gostasse e se animasse a continuar na música”, explicou o pai, Bruno Papariello.
“Eu tenho mais de 40 anos e, quando comecei a tocar, não havia nada assim. A formação era muito teórica, não tocava com outras pessoas, e muita gente cansava de aprender música assim. Essa formação prática é fantástica.”

Com essa atração, os resultados financeiros também apareceram.
Somente no Brasil, a operação da rede de escolas faturou R$ 54,2 milhões em 2023, número que passou para R$ 72,1 milhões em 2024 e chegou a R$ 89 milhões em 2025, segundo dados fornecidos pela empresa.
Os preços das mensalidades se estendem em uma faixa que vai de R$ 500 a mais de R$ 1.000 a depender do programa, que inclui de aula individual e ensaio em grupo semanal até a participação nos shows de cada temporada.
A operação local inclui ainda a expansão em Portugal e na Espanha.
O Brasil foi o ponto de partida não apenas porque a rede ainda tinha pouca presença internacional no início da década passada mas também porque foi o mercado que consolidou o modelo de master franquia para o grupo, o que abriu caminho para a subsequente expansão para outros países.
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“Tudo começou no Brasil com escolas sem existir uma estrutura da School aqui”, disse Portela Santos.
Ele e Nando Guto, CEO da School of Rock Ibéria, foram os primeiros executivos a abrir unidades no país, em São Paulo, assinando o contrato diretamente com a empresa americana antes de obterem o direito de franquia.
Em Portugal e na Espanha, o faturamento bruto avançou de € 1,02 milhão em 2023 para € 1,72 milhão em 2024 e € 2,44 milhões em 2025.
A rede planeja abrir mais seis unidades na região ibérica nos próximos 12 a 24 meses e atingir 1.500 alunos, quase dobrando a operação atual.
Criação de um novo mercado
O que sustentou a tração no Brasil, segundo os executivos, foi a capacidade de capturar demanda fora do público que tradicionalmente busca aulas de música.
A empresa defende que ocupa um nicho próprio e, em vez de disputar alunos com conservatórios e escolas tradicionais, cria um mercado novo.
“A School of Rock cria mercado nessa área que ela atua”, disse Portela Santos. Uma amostra disso é o fato de quem o público não é apenas de jovens e crianças que entram no mundo da música mas também de adultos.
“Um terço dos nossos alunos são executivos e empreendedores que querem relaxar, fugir do burnout”, disse.
A lógica seria semelhante a de um clube esportivo para amadores, disse o executivo, ao explicar por que considera que a tecnologia e o ensino remoto não representam um risco relevante para a rede.
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“A nossa prerrogativa é aglomerar”, afirmou. “A magia da música está em tocar junto.”
Para ele, mesmo com o advento de aplicativos e soluções digitais, a experiência de estar em grupo segue como núcleo imbatível do produto.
“Jogar bola sozinho não tem graça. Jogar Fifa é legal, mas não é a mesma coisa”, disse, comparando o ensino musical digital com jogos.
A combinação de experiência presencial intensa com ferramentas digitais de acompanhamento ajuda a explicar a retenção e o engajamento, que são vitais para um negócio de recorrência.
Também amplia o apelo para as famílias, algo fundamental, dado que a compra não é só do aluno criança ou adolescente mas do responsável financeiro.
O executivo afirmou que, no público jovem, a motivação não passa apenas por “virar músico”.
“No caso dos menores, adolescentes e crianças, existe a busca por uma atividade cultural, com socialização, autoestima e saúde mental”, disse Portela Santos.
No fim do dia, o aprendizado formal aparece como consequência. “A escola conquista primeiro o coração do aluno”, disse Portela Santos. “Faz ele aprender a gostar de música e, a partir daí, ele mesmo quer se aprofundar.”
O executivo afirmou que, conforme a evolução do aluno acontece, cresce a demanda por teoria musical. O modelo se apoia nessa inversão, em oposição ao ensino tradicional que começa por leitura e solfejo.
“O dia mais bonito da School é o dia seguinte ao primeiro show de temporada”, disse Guto na mesma entrevista.
“É o momento em que provamos o nosso conceito: mesmo quem chega sem tocar nada em três meses estará em cima de um palco fazendo um show.”
Planos de expansão: 260 escolas
O plano de longo prazo é ambicioso.
Portela Santos afirmou que o objetivo é chegar a 200 unidades no Brasil até 2033 e 60 na Ibéria, totalizando 260 escolas sob o guarda-chuva do grupo nessa operação.
Ele projeta que a rede deve sair do patamar atual de mais de 10.000 estudantes para 35.000 ou 36.000 com esse número de unidades.
Há ainda um plano adicional, tratado como uma segunda fase de crescimento.
Portela Santos disse que o custo atual é alto “by design”, por exigir muitas horas presenciais, e que a empresa trabalha em um projeto para ampliar acesso e atingir outro público.
“Trabalhamos para ampliar o acesso da School of Rock e torná-la mais acessível para outras classes sociais”, disse. Ele afirmou que essa iniciativa estaria prevista para 2027 e poderia abrir espaço para um projeto muito maior. “A ideia é ter mil escolas desse tipo no Brasil”, afirmou.
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