Bloomberg — Alguns executivos e investidores moderaram o apoio ao candidato presidencial Flávio Bolsonaro enquanto ele busca respaldo no principal centro financeiro do país, dias depois de virem à tona detalhes sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-presidente do Banco Master.
Lideranças de ao menos cinco grandes empresas que falaram com a Bloomberg News manifestaram preocupação em ter o nome associado a Flávio depois que ele confirmou conversas com Vorcaro, que está no centro de uma investigação de fraude bilionária.
Embora alguns empresários ainda estejam dispostos a dialogar com a campanha, eles querem evitar aparecer em qualquer lista oficial de apoiadores até conseguirem avaliar melhor o impacto das revelações.
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O momento dificilmente poderia ser pior para o senador e filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, cujos esforços para conquistar a elite brasileira na Faria Lima parecem ter fracassado.
Na segunda-feira (18), membros da campanha de Bolsonaro disseram que ele viajaria para São Paulo nesta semana para dois dias de reuniões fechadas com empresários e investidores.
A viagem acabou sendo reduzida a uma única reunião na noite de quarta-feira (20) com uma empresa financeira não identificada, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falou com a Bloomberg News.
A campanha de Flávio não comentou.
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Os problemas de Flávio aumentaram quando áudios vazados publicados pelo The Intercept Brasil em 13 de maio mostraram o senador pedindo milhões de dólares a Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai.
A reportagem desencadeou uma disparada do dólar e uma forte queda da bolsa brasileira, em meio à preocupação de investidores de que o episódio ajude Lula a conquistar um quarto mandato.
Uma pesquisa AtlasIntel publicada em 19 de maio mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abrindo sete pontos de vantagem sobre Flávio, depois que levantamentos anteriores indicaram empate técnico entre os dois por semanas. As revelações chegaram a provocar discussões sobre se a direita precisa de um candidato mais forte à presidência.
Desde então, o senador discutiu com mais detalhes sua relação com Vorcaro, reconhecendo que visitou a casa do banqueiro após sua prisão.
Crescente desconforto
Flávio Bolsonaro não é alvo de investigação policial nem enfrenta acusações oficiais de irregularidade. Ainda assim, os detalhes de sua relação com Vorcaro também estão complicando suas relações com alguns aliados.
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Na quarta-feira, o chefe de comunicação da campanha de Bolsonaro deixou o cargo, afirmando que passaria a focar em negócios pessoais.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, outro aliado e favorito entre investidores, disse que havia sido convidado para acompanhar Flávio Bolsonaro durante reuniões na Faria Lima, mas que não participaria.
“Tenho uma agenda de governador de estado”, afirmou. “A gente vai deixar para tratar de eleição um pouquinho mais pra frente.”
Melhor aposta
Com as eleições a pouco mais de quatro meses de distância, há bastante tempo para que o choque causado pelas conexões com Vorcaro perca força, e muitos investidores ainda veem o filho de Bolsonaro como a melhor aposta para impedir uma nova vitória de Lula. Além disso, as pesquisas mostram outros nomes da direita muito atrás.
Ainda assim, a controvérsia enfraqueceu uma das principais linhas de ataque de Flávio Bolsonaro contra Lula: a corrupção. O líder de esquerda foi preso em 2018 sob acusações de corrupção antes de o Supremo Tribunal Federal anular as condenações em 2021.
Antes de os laços com Vorcaro virem a público, Flávio Bolsonaro apareceu publicamente vestindo uma camiseta com a frase “Master é do Lula”.
O caso agora tende a levá-lo a alterar a estratégia de campanha e também a definir melhor propostas em áreas-chave, como a economia, para se manter competitivo.
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