Como economistas do mercado avaliaram a expansão do PIB no 3º trimestre

Crescimento de 0,1% no trimestre medido pelo IBGE ficou acima do consenso do mercado, que apontava retração de -0,2%; consumo das famílias e exportações sustentaram a alta

Navios e contêineres em terminal no Porto de Santos, o maior da América Latina (Foto: Jonne Roriz/Bloomberg)
05 de Dezembro, 2023 | 01:58 PM

Bloomberg Línea — Apesar da surpresa positiva no Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, economistas e analistas do mercado financeiro mantêm a interpretação de que a atividade econômica passa por um enfraquecimento.

A queda de 2,5% nos investimentos do trimestre (Formação Bruta de Capital Fixo) é o principal dado que demonstra a desaceleração. Na comparação anual, os investimentos caíram 6,8%. Essa retração, porém, foi compensada pelo consumo das famílias e pelas exportações, o que levou o PIB do terceiro trimestre a subir 0,1%, acima da projeção do mercado, de contração de 0,2%. Frente ao mesmo período de 2022, o PIB cresceu 2,0% no trimestre e 3,2% ao longo do ano.

Os investimentos, o consumo das famílias e as exportações fazem parte da decomposição dos dados do PIB pela perspectiva da demanda. O IBGE também acrescenta nesse cálculo o consumo do governo e subtrai as importações. As exportações subiram 3,0% e as importações caíram 2,1%. O consumo das famílias subiu 1,1% e o do governo, 0,5%.

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“Do lado da demanda, o consumo das famílias surpreendeu, mostrando crescimento robusto de 1,1%. Por outro lado, seguimos percebendo alguns contrapontos: a queda dos investimentos (-2,5%) sinaliza um tipo de abertura que não se espera de uma economia forte”, afirma Igor Cadilhac, do PicPay.

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A economista Rafaela Vitória, do Inter, destaca também a alta do consumo das famílias e os investimentos em queda. “A taxa de investimento caiu para 16,6% do PIB, o que é baixo para uma melhora do potencial crescimento à frente”, afirma.

Apesar de a queda das importações contribuir, por um lado, para o resultado, elas podem reforçar que a atividade econômica está em desaceleração. Esta é a visão de Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura: “O recuo dos investimentos e das importações, pela ótica da demanda, me fazem crer que os dados são mais condizentes com um cenário de PIB fraco”. De acordo com Borsoi, a alta das exportações e a baixa das importações foi o que levou o número para o positivo.

As exportações também foram destacadas por Sérgio Vale, da MB Associados. O economista aponta que a desaceleração da economia permanece, com a indústria e os investimentos sentindo com intensidade devido aos juros elevados.

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“Não fossem as commodities, a economia estaria desacelerando com mais força. Toda vez que tivemos forte alta de juros reais a economia desacelerou. Dessa vez, a alta de juros foi forte, mas a economia sofreu menos por causa justamente das commodities.”

Rodolfo Margato, economista da XP Investimentos, aponta que os investimentos mais fracos estão em linha com a política monetária contracionista em vigor. Por outro lado, o consumo das famílias ajudou o resultado, mesmo com o alto endividamento no país e as condições financeiras apertadas. “Nós observamos ao longo de 2023 uma melhora da inflação e da renda disponível. Isso forneceu sustentação ao consumo.”

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Indústria, agro e serviços

Além da ótica da demanda, o IBGE decompõe a alta de 0,1% do PIB pela oferta, com o desempenho da indústria, serviços e agropecuária. Por essa perspectiva, a surpresa positiva foi no crescimento da indústria (0,6%) e dos serviços (0,6%). Já a agropecuária (-3,3%) caiu sob efeito sazonal. Na comparação anual, a indústria sobe 1%, os serviços,1,8%, e a agropecuária, 8,8%.

“Os setores que performaram bem são setores que os analistas têm dificuldade de acompanhar, por isso não chega a ser tão surpreendente a surpresa. Pela indústria, o avanço foi puxado, principalmente, pelo setor de utilities (energia elétrica, saneamento e afins), que subiu 3,6%. Nos serviços, o avanço foi pautado por serviços financeiros, imobiliários, serviços de utilidade pública e outros”, afirma Nicolas Borsoi, da Nova Futura Investimentos.

Previsões

A alta de 0,1% do PIB no trimestre reforçou no mercado o entendimento de que a atividade econômica do Brasil deve encerrar este ano com crescimento de 3%. A revisão do PIB do segundo trimestre de 0,9% para 1% também contribui para a previsão.

Analistas já estavam revisando os dados do PIB para cima, mas alguns bancos e corretoras mantinham as previsões abaixo de 3%, na expectativa de desaceleração no terceiro trimestre. O último Boletim Focus do Banco Central, desta segunda-feira, mostrava que a mediana do mercado era de alta de 2,84%.

Com os dados de hoje, a XP Investimentos informou que deve elevar sua projeção de crescimento de 2,8% para 3%. A Ativa Investimentos elevou de 2,5% para 3%. A MB Associados, por outro lado, mantém em 2,7%.

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Victor Sena

Editor assistente na Bloomberg Línea. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Especializado em cobertura de economia.