Agronegócio amplia pessimismo após vitória de Lula, com crédito caro e inadimplência

Resultado das eleições presidenciais aumentou a incerteza entre produtores que esperavam medidas mais amplas de renegociação de dívidas com Flávio Bolsonaro, enquanto a inadimplência rural atinge o maior nível em 15 anos e o custo elevado dos empréstimos limita a compra de máquinas

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Bloomberg — O setor agrícola brasileiro já enfrentava níveis recordes de inadimplência. O resultado da eleição da semana passada só aprofundou o pessimismo entre produtores que esperavam uma rápida recuperação.

A vitória surpreendente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um golpe para o agronegócio, que via no adversário Flávio Bolsonaro um aliado mais natural para seus interesses. O resultado aumenta a pressão sobre a economia agrícola, com poucas perspectivas de alívio diante da alta dos custos dos insumos e dos juros de dois dígitos, que alimentam a inadimplência.

“Milhares de produtores atravessam uma grave crise financeira,” afirmou Lucas Beber, presidente da Aprosoja Mato Grosso, em nota divulgada um dia depois da eleição. “Precisamos de uma solução estrutural para o endividamento rural, que vá além de simplesmente prorrogar vencimentos.”

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O cenário representa uma profunda mudança para a potência agrícola que viveu um período de forte expansão impulsionado por safras recordes e crédito barato durante a pandemia. A situação financeira dos produtores indica que há pouco alívio à vista para o país que é o maior fornecedor mundial de soja, café, carne bovina e açúcar.

Os produtores esperavam que Flávio adotasse medidas amplas de alívio das dívidas, e os mercados também o consideravam mais propenso a conduzir o ajuste fiscal necessário para reduzir os custos dos empréstimos.

O embate do setor agrícola com Lula também envolve divergências sobre regulamentação ambiental e direitos fundiários, mas o endividamento rural ganhou destaque porque limita a capacidade dos produtores de investir nas propriedades e desacelera o crescimento.

Embora uma maioria de parlamentares de direita tenha sido eleita para o Congresso, uma representação expressiva não garante que as demandas dos produtores sejam atendidas, já que os parlamentares ligados ao agronegócio frequentemente entraram em conflito com o governo.

Mesmo uma vitória de Flávio, porém, não traria uma recuperação imediata para os produtores. A inadimplência no crédito rural subiu ao maior nível desde o início da série de dados do Banco Central, há 15 anos. Além dos elevados custos dos empréstimos, os produtores enfrentam margens menores na produção de grãos e sucessivos choques climáticos, especialmente no Sul do Brasil.

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No Rio Grande do Sul, mais de 40 produtores rurais com dificuldades para pagar dívidas morreram por suicídio nos últimos dois anos, segundo Arlei Romeiro, dirigente de uma entidade regional do agronegócio que faz campanha contra práticas de crédito que considera injustas. Romeiro concorreu sem sucesso a uma vaga no Congresso com uma plataforma que buscava avançar uma legislação para aliviar as dívidas dos produtores.

O custo do crédito rural subiu porque o aumento do número de produtores que pediram recuperação judicial levou os bancos a reavaliar os riscos.

“Mesmo com a queda dos juros, os spreads bancários estão subindo por causa do aumento do prêmio de risco, e o crédito continua muito caro”, afirmou Manoel Pereira de Queiroz, agrônomo e sócio da Mapa Capital. “Temos um grande problema.”

Menos investimentos

A crise já restringe os investimentos na expansão das lavouras. O crescimento deve ser limitado nesta safra e na próxima em Mato Grosso, maior Estado produtor de soja do país, afirmou Cleiton Gauer, superintendente do IMEA, instituto de pesquisa apoiado por produtores rurais.

“O produtor hoje faz mil e uma contas antes de fazer um investimento em máquina ou comprar terra”, afirmou Gauer. “Aquela loucura de investimentos desenfreados, nós já não temos.”

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Parlamentares ligados ao agronegócio buscam formas de ampliar o alcance das medidas de alívio das dívidas depois que uma medida provisória recente assinada por Lula foi considerada insuficiente. A medida, que perde a validade em meados de Novembro se não for aprovada pelo Congresso, reservou apenas R$ 26 bilhões para dar suporte a empréstimos subsidiados. Grandes instituições financeiras ficaram de fora do esforço de renegociação, afirmou Romeiro.

O saldo total do crédito rural no Brasil era de R$ 885 bilhões em julho, dos quais um valor sem precedentes de R$ 208 bilhões estava classificado como “problemático” pelo Banco Central, categoria que inclui operações vencidas, em atraso ou renegociadas.

Lula respondeu às críticas à política agrícola do governo durante um debate eleitoral final, afirmando que a gestão liberou recursos significativos para pequenos produtores. Seu governo também se concentrou na abertura de novos mercados para as exportações agropecuárias brasileiras, com o recente início dos embarques de sorgo para a China e de carne bovina para o Vietnã.

Ainda assim, a falta de clareza sobre a dívida pública no governo Lula mantém o cenário de juros básicos ainda elevados, escreveram analistas da Oppenheimer liderados por Kristen Owen em 27 de outubro. “Custos de financiamento elevados por um período prolongado” podem adiar a recuperação dos investimentos em máquinas agrícolas, acrescentaram.

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio recuaram 5,5% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, segundo dados da Serasa Experian. As renegociações em curso com credores podem ter contribuído para o resultado, mas o custo do dinheiro continua preocupante.

“O problema é o que vem pela frente”, afirmou Marcelo Pimenta, diretor-executivo da Serasa Experian. “O que temos visto desde 2022 é uma série de choques, e o choque da alta dos juros não desapareceu, porque as taxas continuam muito elevadas.”

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