Opinión - Bloomberg

Por que a União Europeia não consegue diminuir sua dependência dos EUA

Apesar de os líderes europeus falarem sobre autonomia estratégica, a dependência da Europa em relação aos EUA, especialmente em defesa, tecnologia e energia, aumentou na última década

Donald Trump
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Opinion — Na semana passada, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em frente ao Partenon, declarou que o governo Trump buscava uma parceria com a Europa na defesa do “caráter distinto” da civilização ocidental. Talvez a intenção fosse servir de exortação.

Mas, para a Europa, pareceu uma ameaça. Os EUA, disse Rubio, haviam optado pela “busca descarada do poder nacional”. A implicação era que as nações europeias não haviam feito o mesmo e, portanto, se resignaram “a um futuro de atrofia, servidão e declínio”. No entanto, poucos no continente acharão que uma parceria com os EUA definida pelo tipo de obediência que Rubio e seu chefe esperam seria muito melhor do que a servidão.

A Casa Branca de Donald Trump não escondeu seu desejo de controlar as escolhas da Europa. A estratégia de segurança nacional divulgada no final do ano passado identificou como prioridade “cultivar a resistência à trajetória atual da Europa dentro dos países europeus”.

O governo também demonstrou que, se decidir empurrar esses países para uma direção diferente daquela que seus cidadãos poderiam escolher por si mesmos, possui os meios para fazê-lo.

PUBLICIDADE

⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Trump acionou um deles no início deste mês, quando ameaçou suspender as exportações de combustíveis fósseis, a menos que a Europa liberasse parte de suas reservas estratégicas de diesel.

Nessa ocasião, a preocupação do presidente era que os altos preços nos postos de combustível pudessem custar-lhe as eleições de meio de mandato. Mas quando tais ameaças se mostram eficazes, tendem a ser utilizadas repetidamente.

PUBLICIDADE

Leia também: Europa critica acordo de Trump com a Rússia sobre o diesel: ‘Não ajuda em nada’

Desde a invasão da Ucrânia pelo presidente Vladimir Putin, em 2022, os líderes europeus vêm tentando se livrar do gás russo. Agora, precisam encarar o fato de que esse esforço acabou de aumentar sua dependência de um Washington que fala sobre intervenção em sua política com a mesma ânsia que o Kremlin.

Nos últimos anos, os líderes europeus têm falado com frequência sobre sua busca por autonomia estratégica. Mas em todos os setores importantes para a independência europeia — defesa, tecnologia, energia — o continente tornou-se mais dependente dos EUA na última década, e não menos.

Considere o tão discutido rearmamento da Europa. Talvez, daqui a uma década, seu complexo militar-industrial tenha sido revitalizado.

PUBLICIDADE

O que sabemos com certeza, no entanto, é que o valor das vendas propostas de equipamentos dos EUA aos membros europeus da Otan, conforme registrado em programas oficiais, representou apenas 28% dos gastos desses países com equipamentos militares entre 2019 e 2021; entre 2022 e 2024, essa proporção subiu para mais da metade.

As forças armadas europeias dependem particularmente dos EUA no que diz respeito aos chamados facilitadores estratégicos — os sistemas, como os de transporte, comando e controle e comunicação, que são essenciais para a condução moderna das operações de guerra.

Leia também: UE vai limitar as importações de carros híbridos chineses a 350 mil por ano

PUBLICIDADE

O reconhecimento público de que essa situação não poderia continuar ocorreu no mês passado, quando a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, aproveitou seu discurso anual sobre políticas para anunciar uma proposta de um novo “instrumento europeu para facilitadores estratégicos”.

Depois, há a área de tecnologia, onde todos sabem que o continente está ficando para trás. O relatório de Mario Draghi de 2024 sobre a competitividade europeia destacou que, se excluirmos o setor de tecnologia, o crescimento da produtividade da União Europeia nos últimos 20 anos foi igual ao dos EUA.

No mesmo período, a tecnologia americana tornou-se mais essencial para o crescimento, a segurança e a sobrevivência da Europa — 41% das empresas da UE são, segundo estatísticas oficiais, “altamente dependentes” de serviços em nuvem, 70% dos quais são controlados por empresas americanas.

Isso deixou a política europeia cada vez mais agitada e vulnerável à manipulação. Os líderes falam com frequência sobre a infiltração russa na economia da informação do continente, mas Elon Musk e outros bilionários da tecnologia dos EUA têm permissão para moldá-la de forma muito mais aberta.

O primeiro-ministro britânico pode reclamar que Moscou tentou interferir no referendo do Brexit de 2016; no entanto, nos anos que se seguiram, foi o vice-presidente dos EUA quem interveio em apoio a forças de direita pró-Rússia na Hungria e na Romênia, além de ter apoiado abertamente o AfD na Alemanha.

Leia também: De Meta a Nvidia: Trump amplia investimento em grandes empresas com aportes milionários

Nesta semana, a UE anunciou um acordo com Pequim que, segundo espera, dará à sua indústria automotiva algum fôlego. Esse é apenas o exemplo mais recente do enorme tempo e esforço que o bloco tem dedicado ao planejamento de contramedidas contra a China e a Rússia.

Talvez parte dessa energia devesse ser direcionada para descobrir o que fazer em relação aos EUA. A Europa não precisa que os Estados Unidos lhe digam como defender sua civilização. Ela precisa encontrar uma maneira de garantir que Washington não tenha o poder de decidir como essa civilização deve ser.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Mihir Sharma é colunista da Bloomberg Opinion. É membro sênior da Observer Research Foundation em Nova Délhi e autor de “Restart: The Last Chance for the Indian Economy”.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Como a fragilidade fiscal ameaça planos de Flávio e Lula para destravar a infraestrutura