Opinión - Bloomberg

Sinal dos novos tempos: bilionários europeus perdem lugar para os grandes barões da IA

Bernard Arnault, o bilionário francês do luxo, deixou recentemente o ranking das 10 pessoas mais ricas do mundo. Ranking de bilionários da Bloomberg atualmente está dominado por americanos do setor de tecnologia, como Elon Musk e Jensen Huang, da Nvidia

Tech, AI Leaders Join Trump For Launch Of Government Website
Tempo de leitura: 5 minutos

Bloomberg Opinion — Tchau, Bernard Arnault. O bilionário francês do setor de luxo saiu recentemente do ranking da Bloomberg das 10 pessoas mais ricas do mundo, consequência previsível de uma queda de 40% no preço das ações da LVMH Moët Hennessy Louis Vuitton neste ano. Ninguém vai derramar uma lágrima; ele ainda possui um patrimônio de US$ 131,2 bilhões. Mas, como o último europeu remanescente em uma lista agora ocupada exclusivamente por americanos, parece o início de uma nova era.

A queda de Arnault do pódio foi, é claro, impulsionada pelos reveses do setor de luxo na China e pela guerra no Oriente Médio. Mas também é uma história sobre o patrimônio líquido em expansão daqueles em ascensão: ou seja, o grupo da inteligência artificial.

Com a única exceção de Warren Buffett, o atual top 10 é dominado integralmente por executivos de tecnologia dos Estados Unidos, desde o número 1 do mundo, Elon Musk, até Jensen Huang, da Nvidia (NVDA), com sua jaqueta de couro.

Até agora, este ano tem sido o melhor de todos para as cerca de 100 fortunas do setor de tecnologia entre os 500 maiores, com sua riqueza aumentando em US$ 845 bilhões, de acordo com dados da Bloomberg.

PUBLICIDADE

⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


E, infelizmente para Arnault, eles parecem preferir camisetas casuais e se preparar para o apocalipse a comprar roupas de grife.

As listas dos mais ricos podem ser voláteis e sujeitas a bolhas, assim como o mercado de ações. Mas, ao analisar os últimos 14 anos, eu diria que isso reflete uma mudança mais fundamental na economia global.

PUBLICIDADE

Em 2012, quando a Meta Platforms era uma empresa recém-aberta ao mercado chamada Facebook, entre os 10 mais ricos estavam europeus como Amancio Ortega, da Zara, e Ingvar Kamprad, da IKEA, ao lado de Bill Gates, da Microsoft (MSFT), e Larry Ellison, da Oracle (ORCL).

Leia também: IA amplia concentração de riqueza e leva fortunas de bilionários de tech a US$ 4,6 tri

Mesmo com a taxa de desemprego recorde na Europa deixando marcas da crise, os magnatas do varejo e do setor de luxo aproveitaram a onda da demanda global dos consumidores e da baixa inflação.

Desde então, a tecnologia tornou-se cada vez mais dominante economicamente, enquanto o comércio globalizado sofreu uma reversão — de forma mais evidente no setor de luxo, onde a arte de criar escassez e preços eternamente inacessíveis se deparou com tarifas, cansaço geracional e um consumidor chinês que está reduzindo seus gastos.

PUBLICIDADE
Gráfico

De acordo com estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o setor de tecnologia da informação e comunicação cresceu quase três vezes mais rápido do que a economia em geral entre 2013 e 2023, período em que as 10 maiores empresas passaram a ser quase inteiramente centradas na tecnologia dos Estados Unidos.

E, como qualquer leitor do Relatório Draghi sabe, a tecnologia é o ponto fraco da Europa, desde os orçamentos de pesquisa até o financiamento para expansão e a abertura de capital na bolsa de valores, apesar da ASML.

É certo que a velocidade e a escala do atual boom de riqueza impulsionado pela IA vão além dos fundamentos econômicos. Se a GPU mais cara da Nvidia custa mais do que uma bolsa Birkin, é também porque a empresa detém uma participação de mercado de 85% e margens de 75% — o tipo de vantagem competitiva com a qual a LVMH só poderia sonhar.

PUBLICIDADE

Leia também: Como Ken Griffin planeja fazer de Miami mais do que um reduto de super-ricos

O simples consumo de capital das startups de tecnologia de hoje, com a SpaceX gastando US$ 40 bilhões em chips de IA, indica um capitalismo ou desenfreado ou doente.

O ex-assessor presidencial francês Alain Minc descreve em um novo livro como as riquezas da IA são alimentadas pelo controle de insumos críticos, pelos efeitos de rede dos modelos de linguagem de grande escala, pelo entusiasmo do mercado de ações e pela má governança.

No entanto, o surto de riqueza da IA também é impulsionado por uma busca desesperada por ganhos de produtividade. As taxas de natalidade caíram em todo o mundo, transformando um mercado onde há abundância de trabalhadores e escassez de empregos em um mercado onde a mão de obra é escassa. Isso significa menos crescimento e mais pressão para acionar a alavanca da automação.

A OCDE estima que, sem um aumento na produtividade, o crescimento do PIB per capita poderia ser reduzido quase pela metade — passando de 1% no período de 2006 a 2019 para 0,6% em média nas próximas décadas.

É por isso que a lacuna tecnológica entre os Estados Unidos e a Europa é também uma lacuna econômica. Um estudo do Banco da França no ano passado constatou que quase toda a diferença de produtividade entre a França e os Estados Unidos nas últimas duas décadas poderia ser explicada por um atraso no setor de tecnologia.

Nem tudo é ruim. Ainda surgem bilionários com raízes europeias, como os três fundadores franceses da Hugging Face. Mas isso geralmente ocorre somente depois de um período trabalhando e levantando fundos nos EUA. E se os profissionais de tecnologia americanos estão ficando mais ricos, é com a ajuda dos europeus.

Leia também: Fortuna de André Esteves cresce em US$ 2,7 bilhões com rali do mercado

É na Europa que empresas americanas de nuvem, como a Amazon (AMZN), detêm 70% do mercado e onde aproximadamente € 300 bilhões em economias a cada ano fluem para os Estados Unidos, em vez de financiar o crescimento interno. (Pelo menos, de vez em quando, eles retribuem o favor: o iate de Jeff Bezos foi construído na Holanda e seu casamento, no ano passado, foi em Veneza.)

Em um mundo onde os ricos estão ficando mais ricos, e os muito, muito ricos ainda mais, haverá muitas pessoas deixadas para trás, desde trabalhadores cujos empregos serão substituídos até autoridades fiscais que lutam para acompanhar uma nova classe de trilionários.

O resultado pode ser caótico, desde reações políticas adversas até uma correção brutal do mercado. Mas o fato de os barões da era dourada da IA terem ultrapassado os mais ricos da Europa também aponta para regiões inteiras ficando para trás devido à sua dependência de tecnologia estrangeira.

Com a passagem do bastão dos bilionários de um setor que extrai rendimentos para outro, fica claro que a tecnologia é o novo bem de luxo.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Lionel Laurent é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre o futuro das finanças e da Europa. Já trabalhou para a Reuters e a Forbes.

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

NBA muda o jogo no varejo e usa o Brasil como laboratório de inovação na América Latina