Family offices querem priorizar IA, mas peso no portfólio é limitado, diz J.P. Morgan

Segundo estudo do J.P. Morgan Private Bank com 333 family offices globais, ao qual a Bloomberg Línea teve acesso, a maior parte das famílias ainda direciona um percentual baixo do portfólio a venture capital e infraestrutura em IA

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02 de Fevereiro, 2026 | 01:08 PM

Bloomberg Línea — Apesar do entusiasmo em torno do tema de inteligência artificial (IA) entre investidores, a maior parte dos family offices globais ainda não direcionou um percentual significativo de seu capital para os segmentos que tendem a capturar os maiores ganhos desse avanço tecnológico.

É o que mostra a pesquisa “2026 Global Family Office Report”, do J.P. Morgan Private Bank, divulgado nesta segunda-feira (2), com base em uma pesquisa com 333 family offices em 30 países, responsáveis por cerca de US$ 518 bilhões em patrimônio combinado.

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Segundo o levantamento, ao qual a Bloomberg Línea teve acesso antecipado, 65% dos family offices afirmam que pretendem priorizar investimentos ligados à inteligência artificial.

Por outro lado, mais da metade (57%) não tem nenhuma alocação em growth equity ou venture capital – o tipo de investimento normalmente direcionado a startups com potencial de desenvolver as tecnologias e os negócios mais transformadores.

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O descompasso é maior em áreas de infraestrutura: 79% dos family offices globais têm alocação zero nesse segmento, apesar de ele ser considerado a espinha dorsal da IA, envolvendo desde energia e data centers até redes.

O contraste chama atenção porque a IA é citada por 65% dos family offices como uma das áreas prioritárias de investimento para o futuro, à frente de inovação em saúde (50%), infraestrutura (41%) e cibersegurança (34%), entre outros.

A fotografia atual dos portfólios reforça que, na prática, os family offices concentram recursos em classes de ativos mais tradicionais.

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Em média, 38,4% do patrimônio está alocado em ações listadas, e outros 30,8%, em investimentos privados – o que inclui desde participações em empresas de capital fechado a imóveis e fundos multimercados.

Juntas, essas duas categorias representam mais de dois terços dos ativos sob supervisão.

A renda fixa responde por 14,8% do patrimônio, e recursos em caixa, por 7,8%, em um contexto em que muitos family offices ainda mantêm uma liquidez elevada diante do ciclo recente de juros altos.

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Cenário na América Latina

No caso da América Latina, os family offices continuam a priorizar estabilidade e preservação de capital, o que se reflete na liderança da região na alocação em renda fixa, segundo Natacha Minniti, co-head global da prática de family office no JP Morgan Private Bank.

Do total de family offices participantes da pesquisa, 197 estão nos Estados Unidos, e 136 em outras regiões, incluindo 54 da América Latina.

“Diante da volatilidade macroeconômica e do cenário regulatório em evolução, as famílias [latino-americanas] buscam estratégias resilientes que possam enfrentar a incerteza, ao mesmo tempo em que capturam oportunidades seletivas de crescimento”, disse Minniti em comentário à Bloomberg Línea por escrito.

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Em média, cada family office da pesquisa administra cerca de US$ 1,16 bilhão, e o patrimônio médio das famílias participantes é de US$ 1,6 bilhão.

Dentro de investimentos privados, o private equity lidera, com uma alocação média de 9,8%, seguido por real estate (7,4%) e investimentos de controle em empresas de capital fechado (6,1%).

Fundos multimercados aparecem com peso relativamente modesto, em torno de 4,7%, mesmo sendo vistos pelo JP Morgan como instrumentos importantes de diversificação em ambientes de maior volatilidade.

Ativos que têm sido destaque no noticiário financeiro recebem pouco espaço nos portfólios das famílias de alto patrimônio: sete em cada dez (72%) family offices globais não têm nenhuma exposição a ouro, e 89% não investem em criptoativos.

Entre os que investem, as alocações são residuais: em média, o ouro representa apenas 0,9% do portfólio global, e criptoativos, 0,4%.

O dado é especialmente relevante em um momento de elevada incerteza geopolítica e reforça que, ao menos para esse público, ouro e cripto não se consolidaram como proteções.

No plano geográfico, os investimentos seguem concentrados nos Estados Unidos. As ações de large caps americanas dominam a maior parcela de renda variável, tanto para family offices sediados no país quanto para os internacionais.

E isso mostra o desafio de redução da exposição de portfólios a ativos nos EUA em momento de aumento das incertezas que envolvem o país.

Fora dos EUA, os mercados desenvolvidos da Europa e do Reino Unido aparecem como o principal destino. Cerca de um terço dos family offices globais planejam aumentar exposição a esses mercados nos próximos 12 a 18 meses, impulsionados por temas como defesa, energia e infraestrutura.

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Já os mercados emergentes têm participação bem mais limitada. Mais da metade dos family offices não investe em ações de emergentes, incluindo a China, e a presença da América Latina é reduzida.

Entre os family offices pesquisados, 80% dizem que não investem na América Latina, e 17% dizem investir apenas entre 1% e 9% do seu portfólio na região.

O quadro é semelhante para outros mercados emergentes, que recebem um percentual limitado dos investimentos dos family offices.

Risco geopolítico

Quando questionados sobre os principais riscos para seus portfólios, a geopolítica aparece como o fator mais citado globalmente, à frente de juros, inflação, crescimento econômico e política comercial.

Aproximadamente 60% apontam a inflação como um dos principais riscos. Ainda assim, a resposta a esses riscos passa menos por ativos defensivos clássicos, como o ouro, e mais por uma ampliação da exposição a investimentos alternativos.

Entre os family offices que veem a inflação como o principal risco, a alocação média em ativos alternativos chega a quase 60%, cerca de 20 pontos percentuais acima da média global, segundo o JP Morgan.

O movimento reforça a visão de que, para essas famílias, o private equity, o crédito privado e o real estate são vistos como instrumentos mais eficazes de preservação de valor no longo prazo do que ouro ou criptoativos.

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