Briga de titãs: Dubai e Abu Dhabi buscam status de novo hub global de family offices

Destinos do Oriente Médio competem para se tornar um centro financeiro e um destino atrativo para que famílias ricas e investidores de todo o mundo invistam e aumentem suas fortunas

Prédios comerciais em Abu Dhabi
Por Devon Pendleton
07 de Julho, 2024 | 03:38 PM

Bloomberg — No saguão do Four Seasons de Abu Dhabi, a poucos passos dos escritórios dos bilionários Ray Dalio e Changpeng “CZ” Zhao, homens com togas brancas e ternos sob medida se aglomeram em conversas silenciosas em torno de mesas repletas de pequenas xícaras de café árabe. Os lugares no lounge do hotel são limitados, e por um bom motivo: ele se tornou o centro para o mundo do capital privado.

“Todos estão tentando vir para cá”, disse Ryan Lemand, cofundador e CEO da Neovision Wealth Management, com sede em Abu Dhabi. “É como a corrida do ouro”.

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A cerca de 138 quilômetros dali, em Dubai, o cenário não poderia ser mais diferente.

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Os lobbies dos hotéis são agitados, com uma mistura de participantes de conferências e turistas. Apesar de todas as suas mansões e muito ouro, Dubai tem pouco petróleo e pequenos fundos soberanos e teve que ser socorrida pela cidade vizinha mais rica durante a crise financeira. É a capital da ostentação exagerada – ao passo que Abu Dhabi é a capital do dinheiro, como os investidores gostam de dizer.

“Onde há dinheiro, há aspirantes. E há muitos aspirantes em Dubai”, disse Tobias Prestel, morador de Dubai que dirige a Prestel & Partner, uma rede de family offices que organiza conferências em todo o mundo.

Essa pergunta – Abu Dhabi ou Dubai? – é comum entre bilionários, gestores de fundos, startups, advogados fiduciários e até mesmo fraudadores que estão no mundo dos family offices ou que buscam uma fatia dele.

A resposta dá uma pista sobre as origens e as intenções de um grupo variado e global, unido em seu interesse por uma riqueza significativa. Foram realizadas 17 entrevistas nas duas cidades nas últimas semanas para oferecer uma ideia de como as fortunas privadas estão incorporadas nos Emirados Árabes Unidos, possivelmente a economia mais rica e ambiciosa da história.

Em 2023, o número de registros de fundações – um veículo frequentemente usado por famílias ricas – em Dubai aumentou em 53%. Na rival Abu Dhabi, com seus US$ 1,5 trilhão em fundos soberanos, o número aumentou em 35%, de acordo com a empresa de consultoria patrimonial M/HQ.

O objetivo de ambos os emirados é criar um ecossistema concentrado no qual famílias ricas de todo o mundo possam se relacionar, coinvestir e encontrar formar de tornar suas vastas fortunas ainda maiores.

No entanto, realizar esse objetivo esbarra em questões que vão desde a contratação de pessoal até conflitos culturais. Além disso, há a tarefa de separar os fatos – riqueza genuína – da ficção.

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Gráfico

Dubai vs. Abu Dhabi

Como sugerem visitantes recentes como Dan Loeb e Nelson Peltz, a riqueza em Abu Dhabi é muito real e atrai investidores de todas as partes.

É a sede do Royal Group, o império pessoal de US$ 300 bilhões do conselheiro de Segurança Nacional dos Emirados Árabes Unidos, Sheikh Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, membro da família mais rica do mundo. Isso é separado dos quase US$ 1 trilhão da Abu Dhabi Investment Authority, que ele preside, e da Al Reem Investments, o family office de uma de suas esposas.

Seu centro financeiro, o Abu Dhabi Global Market (ADGM), ganhou reputação ao oferecer uma infinidade de estruturas flexíveis e discretas para entidades de investimento de bilionários. Algumas são projetadas para minimizar a divulgação em registros públicos e apresentam “requisitos de conformidade mais leves”, de acordo com o ADGM.

O sigilo extra se encaixa na forma como os ricos locais preferem operar.

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“Eles são muito privados”, disse Christina Wing, fundadora da Wingspan Legacy Partners, consultora de family offices em todo o mundo.

“Não sabemos nem mesmo seus nomes. Conversamos com um deles e, além de termos que assinar contratos de confidencialidade, tivemos que fazer isso por mais de um ano antes mesmo de sabermos o nome do cliente. Nos Estados Unidos, isso leva um dia.”

Em Dubai, a atração tem menos a ver com o patrimônio e mais com o estilo de vida – restaurantes, casas noturnas e campos golfe – e uma atmosfera descontraída, mas com baixo índice de criminalidade, que acolhe bem os recém-chegados (endinheirados).

Isso a torna ideal para networking, com uma população de milionários que cresceu 78% na última década, de acordo com a consultoria de migração Henley & Partners.

Trânsito

A reputação de Dubai como destino de escolha para famílias ricas que fogem de regimes hostis ou de guerras aumentou nos últimos anos, a exemplo do dinheiro russo que entrou no país após a invasão da Ucrânia.

Os Emirados Árabes Unidos não publicam dados detalhados sobre emigrantes por país, mas a Henley estima que cerca de 3.100 russos de alto patrimônio líquido tenham se mudado para o país desde o início da guerra (embora o ritmo de novas chegadas tenha diminuído).

Assim como Abu Dhabi, Dubai recentemente fez esforços mais formais para atrair os mais ricos, embora, em geral, a riqueza atraída seja de menor escala e mais transitória.

É provável que os recém-chegados tenham bases em várias jurisdições e vejam Dubai como um lugar para passar o tempo enquanto esperam a turbulência em seus países de origem passar. Várias pessoas compararam a atmosfera da cidade à de uma sala de embarque da classe executiva de um aeroporto.

No ano passado, seu centro financeiro, o Dubai International Financial Centre (DIFC), inaugurou o DIFC Family Wealth Centre, um registro para family offices (com patrimônio líquido mínimo de US$ 50 milhões) que também oferece serviços de consultoria, workshops, resolução de disputas e certificação com base na “estruturação” de sua governança.

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O DIFC, que afirma que Dubai abriga famílias que valem juntas mais de US$ 1 trilhão, também promete facilitar o “networking de alto nível” entre os mais de 600 grupos familiares registrados. As famílias também podem optar por um registro privado, que o CEO da autoridade do DIFC, Arif Amiri, chama de “os mais altos níveis de privacidade e confidencialidade”.

As autoridades de Dubai esperam que o impulso dos family offices também seja instrutivo para os ricos locais, de acordo com consultores de patrimônio na região. Os riscos são altos: os negócios familiares representam cerca de 90% das empresas dos Emirados Árabes Unidos, de acordo com o Ministério da Economia do país, e muitos deles têm patriarcas idosos e enfrentam seu primeiro processo de sucessão.

As transferências problemáticas podem repercutir na economia. Quando o magnata dos shopping centers Majid Al Futtaim – o bilionário que lançou o esqui indoor em Dubai – morreu em 2021 com seu testamento não resolvido, isso desencadeou uma transição geracional confusa com 10 herdeiros, incluindo sete filhos e três esposas.

O espetáculo abalou as famílias empresárias do país, que ainda comentam as repercussões do fato. Com US$ 16,5 bilhões em ativos, o império imobiliário de Al Futtaim era tão importante que o governante de Dubai convocou um comitê judicial especial para supervisionar a herança.

Outros países ricos

Tanto o ADGM quanto o DIFC divulgam seus centros como regimes de baixa ou nenhuma tributação que operam sob a lei comum do Reino Unido em um fuso horário conveniente.

Isso tem atraído uma gama cada vez mais diversificada de famílias da Índia e do Oriente Médio em geral, mas também da Rússia, do leste da Ásia, da África, da Europa e até mesmo dos EUA.

O resultado é um caldeirão de dinheiro mais diversificado até mesmo do que Londres e Singapura, que também tentam atrair family offices. Mas romper as fronteiras entre os grupos pode ser um desafio.

“O ponto positivo da região é também o ponto negativo”, disse Wing. “Há uma grande diversidade na origem do dinheiro, mas isso significa que não há muita coesão ou grupos que confiem uns nos outros.”

Embora existam muitos profissionais de finanças especializados em aspectos técnicos de grandes fortunas, as pessoas mais especfícias na gestão de um family office – a que supervisiona os advogados do trust e gerencia as relações com a família, por exemplo – são mais escassas, dizem pessoas familiarizadas com o setor.

O que ambas as cidades têm a seu favor é a facilidade. O registro de um family office em Dubai envolve um pedido simples, análise financeira e taxas que totalizam US$ 22.430.

Em Abu Dhabi, as entidades podem ser de propriedade de um único membro da família (contra um mínimo de dois em Dubai), com taxas de registro que chegam a apenas US$ 500. Em contrapartida, a constituição em Singapura normalmente envolve várias estruturas e vem com valores mínimos que os family offices precisam investir e gastar localmente.

Os investidores dos Emirados Árabes Unidos também gostam do fato de os governantes dos Emirados apoiarem totalmente as políticas pró-riqueza. “Quantos lugares no mundo têm estabilidade, apoio a empreendedores e donos de riquezas, e não mudam as metas o tempo todo?”, disse Prestel. “Falar de política não é apenas mal visto, é proibido. Isso ajuda.”

Os Emirados Árabes Unidos estavam entre os 20 principais países para investimento estrangeiro direto em 2022, com quase US$ 23 bilhões em entradas, de acordo com dados das Nações Unidas. Isso forneceu amplo material para o setor de conferências em expansão de Dubai e gerou várias redes de family offices.

No extremo da elite está o Private Investment Circle, um grupo de famílias que representa os clãs bilionários mais ricos e estabelecidos da região, incluindo os Olayans da Arábia Saudita e os Al Ghurairs, dos Emirados Árabes Unidos.

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Fundado por duas proeminentes dinastias dos Emirados Árabes Unidos, o número de membros é limitado a 99 famílias e as discussões acontecem principalmente pelo WhatsApp, com oportunidades de reuniões com grupos aprovados, como o recente palestrante Golub Capital.

“No final das contas, essas famílias se baseiam no boca a boca”, disse Adam Ladjadj, que fundou a Emirates Family Office Association depois de trabalhar como diretor de investimentos no escritório particular de um membro da realeza dos Emirados.

“Muitas dessas famílias não buscam o grande capital, mas os parceiros certos. Isso nem sempre está atrelado a um tamanho determinado de cheque.”

Seu grupo, com sede em Abu Dhabi, promove encontros entre os locais e também ajuda a apresentar famílias estrangeiras de lugares como a Alemanha ou o Brasil, que estão curiosas para conversar com famílias do Golfo que operam em setores semelhantes. Para se tornar membro, é necessário receber um convite e a elegibilidade é determinada caso a caso.

Grande demanda

No entanto, a natureza discreta e a definição vaga dos family offices os tornam um terreno propício para a prática de atos ilícitos.

Dubai já lutou contra a reputação de lavagem de dinheiro, exacerbada por sua adoção de criptomoedas e pela abordagem de poucas perguntas em relação ao destino do investimento.

No início deste ano, os Emirados Árabes Unidos foram retirados da chamada lista cinza de países considerados de alto risco de um órgão de fiscalização de crimes financeiros, depois de reforçar seus controles regulatórios.

Um popular circuito de conferências sobre family office dirigido por um australiano chamado Anthony Ritossa era uma verdadeira farsa. Uma investigação feita em 2022 pela revista Vanity Fair revelou que Ritossa era essencialmente um vigarista que havia fabricado uma história de grande dinastia e um título de cavaleiro e cobrava dos participantes milhares de dólares por apresentações a supostos investidores ultra-ricos.

O escândalo foi vergonhoso para o setor de family office, mas vários diretores e consultores familiares disseram que não se arrependem de ter participado das conferências.

Foi isso que motivou Obediah Ayton a criar o que ele descreve como um dos maiores eventos de family offices em Abu Dhabi. Seu terceiro evento foi realizado no final de maio, e ele disse que cerca de 300 pessoas vieram de lugares tão distantes quanto Hong Kong e Holanda, juntamente com gigantes privados como a empresa de investimentos focada em IA do Sheikh Tahnoon, a G42.

Ayton, de 32 anos, nasceu e cresceu no Reino Unido e fez faculdade nos EUA. Ele começou no mundo dos family offices por meio de contatos enquanto trabalhava em um campo de golfe, atuando primeiro como contador para uma família imobiliária de Nova York e depois como consultor do CEO da Tennor Holding Lars Windhorst. Ele se mudou para os Emirados Árabes Unidos em 2018.

Proprietário do que ele chama de “um grupo familiar aspiracional”, Ayton conquistou seguidores como uma espécie de guru para aqueles que buscam investimentos nas famílias do Golfo, escrevendo publicações no LinkedIn sobre o negócio de family office.

Ele mora em Dubai, mas decidiu intencionalmente dar o nome de Abu Dhabi ao seu grupo de eventos. “Há muito mais impulso”, disse ele. “Os manda-chuvas ficam em Abu Dhabi”.

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